Saúde Mental

Solidão: a epidemia silenciosa da vida contemporânea

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Tem gente que mora cercada de gente e ainda assim sente que está só. Tem gente que vive num apartamento vazio e nunca se sentiu tão acompanhada. A solidão não segue a lógica simples de “ter companhia ou não ter”. Ela é mais discreta do que isso, e por isso mesmo mais difícil de nomear. O que estamos vivendo tem um nome cada vez mais usado por pesquisadores e instituições de saúde: a epidemia silenciosa da solidão.

Essa epidemia não aparece em exames de sangue, não costuma abrir uma conversa, não tem um rosto óbvio. Mas está presente em consultórios, em mensagens que ninguém responde a tempo, em jantares de família onde cada um está no próprio celular.

Este texto não promete explicar a solidão por completo, nem oferecer uma fórmula para resolvê-la. A proposta é mais modesta e, ao mesmo tempo, mais honesta: entender o que a psicanálise e a pesquisa contemporânea têm a dizer sobre esse sentimento tão comum e tão pouco compreendido.

mulher silenciosa numa mesa cheia de pessoas, olhando para uma cadeira vazia, representando a epidemia silenciosa da solidão

A epidemia silenciosa da solidão: por que esse nome

A palavra “epidemia” incomoda quando aplicada a um sentimento. Solidão não se transmite como um vírus, não tem um agente causador único, não aparece num boletim epidemiológico da mesma forma que uma doença infecciosa.

Ainda assim, o termo tem sido usado com cada vez mais frequência por instituições que normalmente evitam dramatizar. O Surgeon General dos Estados Unidos, autoridade máxima de saúde pública do país, publicou em 2023 um relatório chamado literalmente “Nossa Epidemia de Solidão e Isolamento”. A Organização Mundial da Saúde, embora prefira termos institucionais mais cautelosos como “ameaça à saúde generalizada”, já usou a expressão “epidemia de solidão” em comunicações públicas.

No Brasil, pesquisadores também adotaram esse enquadramento. Um estudo recente sintetizou o cenário nacional sob o título “Solidão crônica: a nova epidemia silenciosa do século XXI”, reunindo dados do ELSI-Brasil, um levantamento de quase oito mil brasileiros acima de cinquenta anos.

Os números desse levantamento merecem ser lidos com cuidado, porque não são um número só, são dois: 16,8% dos participantes relatam sentir-se sempre sozinhos, e 31,7% relatam sentir solidão algumas vezes. Quase um em cada três brasileiros de meia-idade e idade avançada convive, em algum grau, com a solidão.

O que "epidemia silenciosa da solidão" quer dizer aqui

 . Não é um diagnóstico médico nem uma categoria oficial de doença.

 . É um recurso de linguagem para descrever algo generalizado, mas pouco falado.

 . A OMS estima que isolamento social afeta 1 em cada 4 idosos no mundo, com risco de morte precoce comparável a tabagismo e sedentarismo.

 . O Surgeon General americano comparou esse risco ao de fumar até 15 cigarros por dia, uma comparação de impacto, não uma equivalência clínica literal.

Solidão não é apenas estar sem companhia

Um dos equívocos mais comuns é tratar solidão e isolamento social como sinônimos. Isolamento social é uma condição objetiva: quantas pessoas estão à sua volta, com que frequência você as vê, quantos vínculos você mantém.

Solidão é outra coisa. É a distância entre a companhia que se tem e a companhia que se sente que falta. Alguém pode ter uma agenda social cheia e, ainda assim, atravessar o dia com a sensação de que ninguém ali a conhece de verdade.

A psicanálise tem uma contribuição importante aqui. Donald Winnicott descreveu a capacidade de ficar só como uma conquista do desenvolvimento emocional, não como um déficit. Ficar bem sozinho pressupõe ter internalizado, em algum momento, a presença confiável de alguém. Quando essa internalização não se consolidou, a solidão pode aparecer mesmo em meio a muita gente, porque o problema não é a ausência física do outro, é a dificuldade de sustentar a própria companhia por dentro.

A psicanalista brasileira Ana Suy, em sua obra de divulgação sobre amor e solidão, resume essa diferença de um jeito simples: solidão não é o mesmo que isolamento. Isolamento é não ter ninguém por perto. Solidão pode acontecer mesmo rodeado de gente, quando falta aquilo que realmente importa num encontro, que é ser reconhecido por quem se é.

O que a solidão tem a ver com o corpo e com a mente

A solidão crônica não fica restrita ao campo emocional. Pesquisas associam a sensação persistente de solidão a repercussões na saúde física e mental, sempre por mecanismos indiretos, nunca como causa única e isolada.

Uma revisão sistemática publicada no Open Psychology Journal, reunindo 33 estudos sobre adultos, encontrou associação entre solidão e doenças cardíacas, hipertensão, AVC, doenças pulmonares e síndrome metabólica, provavelmente por vias inflamatórias e neuroendócrinas que o estresse social sustentado pode ativar no corpo.

No campo emocional, uma meta-análise de 2018 que reuniu 88 estudos e mais de 40 mil pessoas encontrou um efeito moderado e consistente da solidão sobre sintomas depressivos, estável entre diferentes grupos e décadas de pesquisa. O ELSI-Brasil identificou que o risco de sintomas depressivos chega a ser até quatro vezes maior entre quem relata se sentir sempre sozinho.

A relação com a ansiedade é mais específica do que se costuma supor. Um estudo holandês de 2023, com mais de sete mil universitários, descreveu que a ansiedade generalizada parece se conectar à solidão principalmente por meio da depressão, como um mecanismo indireto, enquanto a ansiedade social tem ligação mais direta com a solidão emocional. É uma ressalva importante: essa amostra é jovem e universitária, e o mecanismo pode variar entre faixas etárias diferentes.

Nem toda solidão é igual

 . Solidão social: sensação de não pertencer a uma rede, a um grupo, a uma comunidade.

 . Solidão emocional: ausência de um vínculo íntimo específico, mesmo tendo uma rede social ampla.

 . As duas podem coexistir ou aparecer separadamente, e o que ajuda em uma não ajuda necessariamente na outra.

 . Para entender a solidão emocional em profundidade, vale a leitura de o que é a emoção da solidão.

Uma dimensão social, não só individual

Seria um erro tratar a solidão contemporânea apenas como um problema de personalidade ou de histórico emocional individual. Ela também tem determinantes sociais claros, documentados por pesquisa brasileira recente.

Uma revisão integrativa de 2026 reuniu estudos que associam solidão e isolamento social a baixa escolaridade, a morar sozinho e a desigualdade social como fatores que intensificam a vulnerabilidade de uma pessoa. O efeito acumulado dessas condições chega a ser comparável, em alguns indicadores de saúde, ao sedentarismo, à obesidade e ao tabagismo.

Isso não significa que a epidemia silenciosa da solidão seja só uma questão estrutural, nem só uma questão psíquica. As duas dimensões convivem. A psicanálise ajuda a pensar o que se passa dentro de cada pessoa diante dessas condições; a epidemiologia ajuda a entender por que esse sofrimento individual se tornou tão disseminado ao mesmo tempo, em tanta gente, em tantos lugares diferentes.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a queixa de solidão raramente chega sozinha. Ela costuma vir acompanhada de uma pergunta mais ampla sobre pertencimento: a pessoa não está perguntando apenas “por que estou só”, está perguntando “por que, mesmo perto de outros, não consigo me sentir parte de algo”.

O que isso está tentando nos dizer

Talvez a pergunta mais útil não seja “como acabar com a solidão”, mas “o que essa solidão está tentando comunicar”. Para a psicanálise, um sintoma raramente é só um incômodo a ser eliminado. Ele costuma apontar para algo que precisa de atenção.

A solidão pode estar sinalizando um vínculo que perdeu profundidade, mesmo continuando a existir na superfície. Pode estar apontando para uma dificuldade antiga de confiar que o outro vai ficar, construída muito antes da vida adulta. Pode também estar revelando, de forma mais ampla, uma época em que os vínculos ficaram mais rápidos, mais mediados por telas, mais fáceis de iniciar e de abandonar.

Nenhuma dessas leituras invalida a outra. E nenhuma delas transforma a solidão numa falha pessoal. Ela é, ao mesmo tempo, uma experiência humana universal e um sinal de que algo, naquele momento da vida, pede elaboração.

Quando vale a pena buscar ajuda

 . Quando a solidão é constante, não episódica, e já dura meses.

 . Quando vem acompanhada de desânimo persistente, insônia ou perda de interesse.

 . Quando a pessoa percebe que se afasta dos outros mesmo desejando companhia.

 . Quando pensar sobre o próprio isolamento gera mais angústia do que clareza.

Entre o silêncio e a palavra

A solidão contemporânea tem um paradoxo particular: nunca estivemos tão conectados tecnologicamente, e ainda assim os indicadores de solidão seguem altos em praticamente todo o mundo. Isso não significa que a tecnologia seja a causa, mas sugere que conexão digital e sensação de pertencimento não são automaticamente a mesma coisa.

O que parece fazer diferença, segundo a literatura e segundo a escuta clínica, é a possibilidade de nomear essa solidão em voz alta, para alguém. Não necessariamente para resolvê-la de imediato, mas para que ela deixe de ser um peso carregado em silêncio e passe a ser algo que pode ser pensado, questionado, compreendido com outra pessoa por perto.

Isso também pode ter um lugar para ser ouvido

Se você chegou até aqui reconhecendo um pouco dessa solidão na própria vida, talvez o que falte não seja mais uma explicação, mas um espaço onde essa sensação possa ser dita em voz alta, sem pressa e sem julgamento.

Conversar sobre isso não é um sinal de fragilidade. É, muitas vezes, o primeiro movimento para que a solidão deixe de ser carregada em silêncio.

Alexandre Jeremias oferece uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para quem quiser dar esse primeiro passo.

Perguntas frequentes

Solidão é a mesma coisa que estar sozinho?

Não necessariamente. Estar sozinho é uma condição física, estar ou não acompanhado. Solidão é a sensação subjetiva de desconexão, que pode acontecer tanto sozinho quanto em meio a outras pessoas.

Pesquisas mostram uma associação consistente entre solidão prolongada e sintomas depressivos, com efeito moderado e estável em diferentes estudos. Não se trata de uma relação de causa única, mas de um fator de risco relevante que merece atenção.

Porque o isolamento social crônico tem sido associado a maior risco cardiovascular e a maior mortalidade precoce, com impacto comparável a outros fatores de risco já reconhecidos, como sedentarismo e tabagismo.

Sim. A solidão pontual e passageira é parte da experiência humana comum. O que costuma pedir atenção é quando ela se torna persistente, intensa ou vem acompanhada de outros sinais de sofrimento.

Pode ajudar, especialmente quando a solidão está ligada a padrões antigos de vínculo ou dificuldade de confiar no outro. A terapia oferece um espaço para entender a origem dessa sensação e pensar outras formas de se relacionar.

Referências

ERZEN, E.; ÇIKRIKCI, Ö. The effect of loneliness on depression: a meta-analysis. International Journal of Social Psychiatry, v. 64, n. 5, p. 427-435, 2018.

OLIVEIRA, et al. Solidão crônica: a nova epidemia silenciosa do século XXI. 2026.

PETITTE, T. et al. A systematic review of loneliness and common chronic physical conditions in adults. The Open Psychology Journal, v. 8, p. 113-132, 2015.

QUEIROZ, et al. Solidão e isolamento social como determinantes sociais da saúde: revisão integrativa. 2026.

SANDY JÚNIOR, L.; BORIM, F. S. A.; NERI, A. L. Solidão em adultos e idosos brasileiros: estudo ELSI-Brasil. Cadernos de Saúde Pública, 2023.

SUY, A. A gente mira no amor e acerta na solidão. São Paulo: Planeta, 2022.

U.S. DEPARTMENT OF HEALTH AND HUMAN SERVICES. Our epidemic of loneliness and isolation: the U.S. Surgeon General’s advisory on the healing effects of social connection and community. Washington, DC, 2023.

WINNICOTT, D. W. The capacity to be alone. The International Journal of Psychoanalysis, v. 39, p. 416-420, 1958.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO launches commission to foster social connection. Genebra, 2023.

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