Saúde Mental

Por que fazer amigos depois dos 40 parece tão difícil?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Na escola, na faculdade ou no primeiro emprego, as amizades pareciam surgir sozinhas. Depois de certa idade, muita gente percebe que fazer amigos depois dos 40 exige um esforço que antes não existia, e que os amigos antigos estão espalhados por cidades, rotinas e fases de vida diferentes. A sensação costuma vir acompanhada de uma pergunta silenciosa: o problema sou eu?

Este artigo mostra que essa dificuldade tem explicações conhecidas, que vão da organização do tempo adulto à forma como nos vinculamos. Ele integra a série sobre a solidão como epidemia silenciosa da vida contemporânea e não trata a falta de amigos como defeito de caráter.

Fazer amigos depois dos 40: homem de meia-idade aproxima uma cadeira de outras espalhadas numa praça ao pôr do sol.

Por que fazer amigos depois dos 40 parece mais difícil

A primeira razão é estrutural. Uma metanálise com 277 estudos e mais de 177 mil participantes mostrou que a rede social cresce até o início da vida adulta e depois diminui de forma contínua, e que a rede de amizades encolhe ao longo de toda a vida adulta, enquanto a familiar se mantém estável (WRZUS et al., 2013). Não é uma falha individual: é um padrão observado em diferentes populações.

A segunda razão é o tempo. Jeffrey Hall (2019) estimou que são necessárias dezenas de horas de convivência para que um conhecido se torne amigo casual e mais de 200 horas para que surja uma amizade próxima. Na juventude, a escola e a faculdade oferecem essas horas sem que ninguém precise marcá-las. Aos 40, cada encontro depende de agenda, deslocamento e disposição.

O mesmo estudo traz um detalhe importante. Passar tempo junto no trabalho ou na escola, por si só, não aproximava as pessoas. O que aproximava era a conversa sobre a própria vida, o humor e o tempo livre compartilhado, justamente o que a rotina adulta mais comprime.

O que mudou depois dos 40

 . Menos espaços de convivência espontânea, como escola e faculdade

 . Agendas ocupadas por trabalho, filhos, pais que envelhecem e casa

 . Amigos antigos em outras cidades ou em outras fases de vida

 . Mais cansaço no fim do dia e menos disposição para recomeçar

 . Mais receio de parecer carente ao propor um encontro

Quatro agendas abertas sobre uma mesa de madeira, com páginas que se prolongam em direções diferentes, e duas xícaras de café no centro.

Quando os amigos desaparecem com a idade

Muitas amizades não terminam com briga. Elas se afastam aos poucos, quando alguém se casa, tem filhos, se separa, muda de cidade ou de profissão, e os encontros passam a depender de uma iniciativa que ninguém toma. Um dia a pessoa percebe que não sabe mais o que se passa na vida de quem já foi muito próximo.

Pesquisa do Survey Center on American Life com 2.019 adultos nos Estados Unidos mostrou que 12% diziam não ter nenhum amigo próximo em 2021, contra 3% em 1990 (COX, 2021). Entre os jovens adultos, 56% tinham feito um novo amigo no último ano; entre os mais velhos, 41%. O local de trabalho aparecia como a principal origem das amizades próximas.

Esse dado ajuda a entender por que algumas transições pesam tanto. Quando o trabalho muda ou termina, como discutimos em solidão na aposentadoria, vai junto uma parte importante da rede de vínculos. No Brasil, a pesquisa do Family Talks com a Market Analysis indicou que quatro em cada dez adultos se sentem sozinhos (FAMILY TALKS, 2026).

Há também um luto pouco reconhecido nessas perdas. Ninguém oferece condolências pelo fim de uma amizade, e a pessoa costuma carregar essa ausência sozinha, como se não tivesse o direito de senti-la.

O que a psicanálise ajuda a pensar sobre a amizade

Freud (1921) descreveu a amizade como um laço afetivo em que o amor permanece, mas desviado de seus fins sexuais. Para ele, esses laços são justamente os mais duradouros, porque não se esgotam na satisfação. A amizade, nessa leitura, vive de continuidade, de algo que se mantém ao longo do tempo sem precisar ser consumado.

Winnicott (1971) acrescenta outra chave: a experiência compartilhada acontece num espaço entre as pessoas, que ele associou ao brincar. É ali, num tempo sem finalidade prática, que alguém se mostra de modo mais espontâneo. Na infância e na juventude esse espaço era abundante; na vida adulta, quase todo encontro tem pauta, horário e motivo, e sobra pouco lugar para o encontro sem utilidade em que as amizades costumam nascer.

Há ainda o que se arrisca ao propor uma aproximação. Convidar alguém para um café aos 45 anos pode reativar a vergonha de parecer carente ou o medo de ser recusado. Muitas pessoas preferem esperar ser procuradas, e o outro, do outro lado, costuma fazer o mesmo.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitas pessoas dizem não ter amigos quando, na verdade, sentem que não têm com quem ser elas mesmas. Os contatos existem, mas a conversa raramente sai da superfície.

Fazer amigos depois dos 40 exige outro tempo

A psicóloga Laura Carstensen e colaboradores (1999) propuseram que, à medida que o tempo de vida passa a ser percebido como limitado, as pessoas priorizam relações emocionalmente significativas em vez de ampliar a rede. Isso ajuda a entender por que, na meia-idade, há menos paciência para relações superficiais e mais desejo de vínculos que façam sentido, tema que aparece em relações rasas e vínculos superficiais.

Essa seletividade tem dois lados. Ela protege de relações que cansam, mas pode tornar mais difícil dar a alguém novo o tempo necessário para que a intimidade se forme. Toda amizade próxima já foi, um dia, uma conversa sem importância.

A dificuldade também ganha contornos próprios em diferentes trajetórias. Abordamos alguns deles em solidão masculina, solidão gay depois dos 40, envelhecer sem filhos e, para quem mora fora do Brasil, em fazer amigos na Irlanda depois dos 30.

O que costuma aproximar adultos

 . Encontros que se repetem, como um curso, um grupo ou uma atividade semanal

 . Convites concretos, com dia e lugar, em vez de “vamos marcar”

 . Conversas sobre a própria vida, e não só sobre notícias e trabalho

 . Tolerar os primeiros encontros sem grande intimidade

 . Retomar contato com amizades antigas que se afastaram sem conflito

Quando a dificuldade pede cuidado

Ter poucos amigos não é, por si só, sinal de sofrimento. Algumas pessoas vivem bem com uma rede pequena, como discutimos em solidão ou solitude. O ponto de atenção é quando a falta de vínculos se torna uma dor constante.

Sinais de que vale procurar ajuda

 . A sensação de isolamento dura meses e não muda com as tentativas de aproximação

 . Medo intenso de rejeição impede qualquer iniciativa

 . Tristeza persistente, alterações de sono ou perda de interesse

 . A impressão de não ter com quem ser você mesmo, mesmo cercado de gente

 . Relações que se repetem com o mesmo desfecho de afastamento

A psicoterapia pode ajudar a entender o que se repete na forma de se aproximar e de se retrair, e o que da própria história torna difícil confiar em alguém novo. Outras orientações estão em como lidar com a solidão.

As cadeiras que ainda podem se aproximar

A dificuldade de fazer amigos na vida adulta tem razões concretas: menos tempo, menos espaços de convívio espontâneo e mais receio de se expor. Reconhecer isso tira um peso que muitas pessoas carregam em silêncio, o de achar que perderam a capacidade de criar vínculos.

As amizades depois dos 40 tendem a nascer mais devagar e com mais intenção. Elas pedem que alguém dê o primeiro passo, aceite a lentidão do começo e volte, mais de uma vez, ao mesmo lugar.

Se você sente que os vínculos foram ficando para trás e quer entender o que torna difícil se aproximar de novas pessoas, podemos conversar. Ofereço uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para você contar o que está vivendo e tirar dúvidas sobre o atendimento, presencial em São Paulo ou online.

Pergunntas frequentes

É normal ter dificuldade para fazer amigos depois dos 40?

Sim. Pesquisas mostram que a rede de amizades tende a diminuir ao longo da vida adulta, enquanto a familiar se mantém. A dificuldade está ligada a tempo, rotina e oportunidades de convívio, não a uma falha pessoal.

Um estudo de Jeffrey Hall estimou que são necessárias dezenas de horas de convivência para formar uma amizade casual e mais de 200 horas para uma amizade próxima. Por isso, encontros repetidos fazem diferença.

Em pesquisa norte-americana, o trabalho apareceu como principal origem das amizades próximas, seguido de escola, amigos em comum e vizinhança. Atividades regulares, como cursos e grupos, também favorecem novos vínculos.

Mudanças como casamento, filhos, separação, mudança de cidade ou de emprego alteram rotinas e prioridades. Muitas amizades se afastam sem conflito, apenas porque deixam de ter espaço na agenda.

Quando o isolamento dura meses, vem com tristeza persistente, o medo de rejeição impede qualquer aproximação ou os vínculos se desfazem sempre do mesmo modo.

Referências

CARSTENSEN, Laura L.; ISAACOWITZ, Derek M.; CHARLES, Susan T. Taking time seriously: a theory of socioemotional selectivity. American Psychologist, Washington, DC, v. 54, n. 3, p. 165-181, 1999. DOI: 10.1037/0003-066X.54.3.165.

COX, Daniel A. The state of American friendship: change, challenges, and loss. Washington, DC: Survey Center on American Life, 8 jun. 2021. Disponível em: https://www.americansurveycenter.org/research/the-state-of-american-friendship-change-challenges-and-loss/. Acesso em: 9 out. 2026.

FAMILY TALKS; MARKET ANALYSIS. Solidão no Brasil. São Paulo: Family Talks, 2026. Disponível em: https://familytalks.org/publicacoes/noticias/quatro-a-cada-dez-brasileiros-se-sentem-sozinhos-revela-pesquisa-inedita-do-family-talks-com-market-analysis. Acesso em: 9 out. 2026.

FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu (1921). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 15: psicologia das massas e análise do eu e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. p. 13-113.

HALL, Jeffrey A. How many hours does it take to make a friend? Journal of Social and Personal Relationships, London, v. 36, n. 4, p. 1278-1296, 2019. DOI: 10.1177/0265407518761225.

WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Tradução de José Octavio de Aguiar Abreu e Vanede Nobre. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

WRZUS, Cornelia; HÄNEL, Martha; WAGNER, Jenny; NEYER, Franz J. Social network changes and life events across the life span: a meta-analysis. Psychological Bulletin, Washington, DC, v. 139, n. 1, p. 53-80, 2013. DOI: 10.1037/a0028601.

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