Saúde Mental

Solidão masculina

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

O tarólogo Thiago Ayres, de 28 anos, tinha 51 mil seguidores numa rede social e uma família grande, com mais de 15 primos. Ainda assim, ao adotar o trabalho remoto, percebeu um vazio que o acompanhava. Quando algo engraçado acontecia no seu dia e ele pensava “poxa, queria contar para um amigo”, vinha a pergunta: qual amigo? Decidiu criar um grupo aberto no WhatsApp só para fazer amizades (CÓPLE; FERNANDES, 2026).

A história de Thiago ilustra bem uma das formas mais comuns, e menos comentadas, da solidão masculina: ter gente por perto, até em abundância, sem ter com quem contar de verdade. Não é que todo homem viva isso. Mas os dados sobre amizade e bem-estar masculino, tanto no Brasil quanto fora dele, mostram uma mudança real, documentada por diferentes pesquisas, que merece ser levada a sério, não tratada como piada ou característica inevitável do gênero.

Homem de uniforme de futebol sentado sozinho no banco do vestiário enquanto os colegas de time seguem pelo corredor, representando a solidão masculina entre pares

Solidão masculina: o que os dados mostram sobre amizades em queda

Uma pesquisa do Survey Center on American Life encontrou uma queda acentuada no número de amizades próximas relatadas por homens: a proporção de homens com pelo menos seis amigos próximos caiu de 55% em 1990 para 27% em 2021, enquanto o percentual de homens sem nenhum amigo próximo saltou de 3% para 15%, um aumento de cinco vezes (COX, 2021).

Solidão masculina: o que os graficos dizem

O tamanho da rede de apoio parece importar de verdade: entre homens com três ou menos amigos próximos, mais da metade relatou ter se sentido solitária ou isolada ao menos uma vez na semana anterior à pesquisa. Entre os que têm dez ou mais amigos próximos, essa proporção cai para cerca de um em cada três (COX, 2021).

A mudança é ainda mais marcante entre os mais jovens. Em 1990, quase metade (45%) dos homens jovens recorria primeiro a amigos diante de um problema pessoal. Hoje, essa proporção caiu para 22%, e 36% recorrem primeiro aos pais (COX, 2021). Um levantamento mais amplo, o relatório State of American Men 2023, reforça esse quadro: apenas 22% dos homens relataram ter três ou mais pessoas em sua região com quem se sentem próximos, e 65% dos homens entre 18 e 23 anos concordam com a frase “ninguém realmente me conhece bem” (BARKER et al., 2023).

Solidão masculina: o que os números mostram

 . Queda de 55% para 27% nos homens com 6+ amigos próximos, entre 1990 e 2021 (EUA).

 . Aumento de 3% para 15% de homens sem nenhum amigo próximo no mesmo período.

 . Apenas 22% dos homens relatam ter três ou mais pessoas próximas em sua região com quem contar.

 . 65% dos homens entre 18 e 23 anos concordam que “ninguém realmente me conhece bem”.

E a Solidão Masculina no Brasil?

Uma pesquisa brasileira inédita, feita pela ONG Family Talks em parceria com o instituto Market Analysis, encontrou que quatro em cada dez brasileiros relatam se sentir solitários, com maior incidência entre mulheres, jovens e pessoas de baixa renda (CÓPLE; FERNANDES, 2026). O fato de a solidão aparecer com mais força entre as mulheres não torna a solidão masculina menos real, apenas lembra que ela costuma se expressar de forma mais silenciosa, menos nomeada, o que pode inclusive dificultar que seja reconhecida e levada a sério.

Um achado dessa mesma pesquisa ajuda a entender o caso de Thiago: quanto maior o estresse relacionado à vida digital, maior a solidão relatada. Entre pessoas com estresse digital alto, 61% se disseram sozinhas, trinta pontos percentuais acima das que relataram estresse digital baixo (CÓPLE; FERNANDES, 2026). Rodolfo Canônico, diretor-executivo da Family Talks, resume o mecanismo: as redes podem até iniciar ou reforçar relações, mas as pessoas nelas “fazem coisas em paralelo”, sem que isso substitua o encontro real.

Homem sentado ao lado de uma armadura medieval vazia em outra cadeira, metáfora visual para a solidão masculina e a dificuldade de deixar alguém ver sua vulnerabilidade

Por que isso acontece com mais frequência em alguns homens

A pesquisa de Cox (2021) aponta fatores estruturais que ajudam a explicar essa queda: menor participação religiosa, menores taxas de casamento e maior mobilidade geográfica ao longo da vida adulta, somados a ambientes de trabalho que dificultam a formação de vínculos informais mais profundos.

Há também uma dimensão relacional específica. Leila Heredia, porta-voz do Centro de Valorização da Vida (CVV), observa que a solidão não significa necessariamente estar sem pessoas por perto: “muitas vezes é a sensação de não ter alguém que escute de verdade, que não julgue” (CÓPLE; FERNANDES, 2026). É a mesma distinção entre quantidade e qualidade de vínculo que aparece em outras formas de solidão, mas que se torna particularmente marcada em determinados contextos relacionados à masculinidade (ANDRADE, 2006).

Vale dizer que isso não é uma característica biológica fixa, nem acontece da mesma forma para todo homem. Normas culturais sobre o que é permitido sentir e expressar variam de contexto para contexto, e também entre homens héteros e gays, entre diferentes gerações e diferentes ambientes sociais.

Solidão masculina: o que pode dificultar a busca por vínculo mais profundo

 . A ideia de que pedir apoio emocional é sinal de fraqueza, reforçada em determinados ambientes.

 . A falta de espaços sociais estruturados para conversas mais íntimas entre homens, ao contrário de outros contextos relacionais.

 . A tendência de medir amizade por atividades compartilhadas, sem necessariamente incluir trocas emocionais.

 . A substituição gradual de contato presencial por interações online percebidas como mais fáceis, mas que não sustentam intimidade real.

O que isso está tentando dizer sobre solidão masculina?

Quando um homem sente essa distância entre ter gente por perto e ter com quem contar, isso costuma estar apontando para uma lacuna real na forma como ele foi autorizado, ao longo da vida, a buscar e sustentar vínculos de intimidade. Não é falha pessoal, é um padrão relacional documentado, no Brasil e fora dele, e possível de ser revisto, em qualquer idade.

Reconhecer a solidão masculina como um fenômeno real, sustentado por dados, não como fraqueza individual, é o primeiro passo para que ela possa, de fato, começar a mudar.

Quando ter gente por perto não é a mesma coisa que ter com quem contar

Se você reconheceu essa distância na sua própria vida, entre as pessoas ao seu redor e alguém com quem realmente conversar sobre o que pesa, vale saber que isso tem nome e também tem caminho possível.

Alexandre Jeremias é psicólogo e psicanalista, e oferece uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para quem quer começar a entender isso de perto.

Perguntas frequentes

A solidão masculina afeta todos os homens da mesma forma?

Não. Normas culturais, contexto social, orientação sexual, idade e nível educacional influenciam bastante a experiência. O que a pesquisa mostra é uma tendência geral, não uma regra universal.

Pesquisas apontam fatores como menor participação religiosa, queda nas taxas de casamento, maior mobilidade geográfica e ambientes de trabalho menos propícios à formação de vínculos informais profundos, além de uma substituição parcial do contato presencial por interações online.

Nem sempre. Ter uma rede ampla de contatos, inclusive nas redes sociais, não é a mesma coisa que ter vínculos onde seja possível expressar vulnerabilidade emocional, que é o que realmente parece proteger contra a solidão.

Sim. Construir vínculos mais profundos é possível em qualquer fase da vida, embora geralmente exija reconhecer e questionar crenças sobre o que é “permitido” sentir ou pedir.

Referências

ANDRADE. Solidão existencial, emocional e isolamento social: uma leitura a partir da abordagem gestáltica. Revista da Abordagem Gestáltica, 2006.

BARKER, Gary; HAYES, Caroline; HEILMAN, Brian; REICHERT, Michael. The State of American Men: From Crisis and Confusion to Hope. Washington, DC: Equimundo, 2023. Disponível em: https://www.equimundo.org/resources/state-of-american-men/.

CÓPLE, Júlia; FERNANDES, Júlia. Solidão já afeta quatro em cada dez brasileiros e impacta mais mulheres, jovens e baixa renda. O Globo, 15 mar. 2026. Pesquisa de Family Talks e Market Analysis. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/03/15/solidao-ja-afeta-quatro-em-cada-dez-brasileiros-e-impacta-mais-mulheres-jovens-e-baixa-renda.ghtml.

COX, Daniel A. American Men Suffer a Friendship Recession. Survey Center on American Life, American Enterprise Institute, 2021. Disponível em: https://www.americansurveycenter.org/commentary/american-men-suffer-a-friendship-recession/.

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