Imagine você diante de alguém que ama, mas que também é a mesma pessoa que te machuca. Talvez seja você quem vive isso agora, tentando entender por que ainda sente afeto, ou até vontade de proteger, uma pessoa que faz mal. Talvez seja alguém que você ama vivendo essa contradição, e você não entende por que ela não sai, por que ela ainda defende quem a fere.
Em agosto de 1973, quatro pessoas passaram 131 horas reféns durante o assalto a um banco em Estocolmo. Ao serem libertadas, algumas delas não demonstraram ódio pelos sequestradores, Jan Olsson e Clark Olofsson. Demonstraram gratidão, e chegaram a defendê-los publicamente. Foi esse episódio que deu nome ao fenômeno que conhecemos hoje como síndrome de Estocolmo: a possibilidade de desenvolver vínculo afetivo, ou até identificação, com quem representa uma ameaça real.
Esse não é um comportamento raro nem incompreensível quando se entende o que está por trás dele. Não é fraqueza, não é ingenuidade, e não é escolha no sentido comum da palavra. É, antes de tudo, uma forma que a mente encontra de sobreviver a uma situação da qual não consegue escapar.
De onde vem o termo, e por que ele é mais popular do que cientificamente sólido
O criminologista sueco Nils Bejerot cunhou a expressão “síndrome de Estocolmo” ainda durante a cobertura do próprio caso, em 1973. Desde então, o termo se popularizou rapidamente, muito além do contexto original de sequestros, passando a ser usado para relações abusivas, ambientes de trabalho tóxicos e até dinâmicas políticas.
Essa popularização tem um custo: uma revisão sistemática publicada na Clínica y Salud (RIZO-MARTÍNEZ, 2018), que analisou 23 estudos sobre o tema, conclui que não existem critérios diagnósticos validados para a síndrome de Estocolmo, e que ela não consta nem no DSM-5-TR nem na CID-11. A própria denominação “síndrome” é questionada por parte da literatura (NAMNYAK et al., 2007 apud RIZO-MARTÍNEZ, 2018), que a chama de possível “mito urbano psiquiátrico”.
Isso não significa que o fenômeno seja falso. Significa que ele descreve algo real, mas que provavelmente não é uma entidade clínica única e discreta, e sim a expressão popular de mecanismos psíquicos bem mais antigos e mais estudados, como a identificação com o agressor e o vínculo traumático.
Identificação com o agressor: o conceito psicanalítico por trás do fenômeno popular
Um mecanismo de sobrevivência, não de fraqueza
. Diante de uma ameaça da qual não é possível fugir, o psiquismo pode se identificar com quem ameaça, como forma de reduzir o próprio terror.
. Esse mecanismo não é escolhido conscientemente, e não indica falta de caráter ou de inteligência de quem o vive.
. Compreendê-lo ajuda a substituir o julgamento (“por que ela não sai?”) pela pergunta mais precisa: “o que está mantendo esse vínculo de pé?”
Muito antes de o termo “síndrome de Estocolmo” existir, Sándor Ferenczi já descrevia, em “Confusão de línguas entre os adultos e a criança” (1932/1933), como uma criança diante de abuso pode introjetar a vontade de quem a agride, como forma de sobreviver psiquicamente a uma situação da qual não tem como escapar. Poucos anos depois, Anna Freud sistematizou esse processo em “O ego e os mecanismos de defesa” (1936), descrevendo a identificação com o agressor como um mecanismo de defesa do ego, ao lado de outros como a negação e a racionalização.
Um estudo brasileiro sobre violência doméstica (LIMEIRA; ROCHA NETO, 2024) recupera exatamente essas duas referências para explicar por que vítimas de violência podem desenvolver, num primeiro momento, uma espécie de aliança psíquica com quem as agride: introjetar a perspectiva do agressor pode, paradoxalmente, parecer mais seguro do que se sentir completamente à mercê dele.
O vínculo traumático: como o ciclo de medo e alívio intermitente cria apego
Existe ainda outra peça importante nesse quebra-cabeça: o vínculo traumático, descrito por Dutton e Painter (1981, apud RIZO-MARTÍNEZ, 2018). Segundo essa teoria, relações marcadas por ciclos intermitentes de ameaça e de pequenos gestos de bondade tendem a criar apegos mais fortes, e mais difíceis de romper, do que relações de sofrimento constante e previsível.
Isso acontece porque o alívio que vem depois do medo é sentido com uma intensidade emocional enorme, quase como uma recompensa. A mente associa esse alívio à pessoa que, minutos antes, era a fonte da ameaça, criando um ciclo de dependência afetiva que não se sustenta na lógica, mas na fisiologia do próprio medo.
Duas emoções costumam ficar emudecidas nesse processo. A vergonha, de não ter saído antes, de ainda sentir afeto por quem machuca, ou de imaginar o julgamento de quem está de fora. E a raiva, que muitas vezes não consegue ser sentida na direção de quem a provocou, porque isso colocaria em risco o próprio vínculo, e acaba sendo direcionada para dentro, virando autocrítica ou culpa. Segundo Alexandre Jeremias (leia mais sobre o autor), na prática clínica observa-se que reconhecer que a vergonha e a raiva também fazem parte dessa experiência, sem se apressar em resolvê-las, já é uma forma de deixar de enfrentá-la sozinha.
Síndrome de Estocolmo e brasileiros no exterior: quando a dependência dificulta a saída de uma relação abusiva
É possível traçar aqui uma analogia, não uma equivalência científica, com a experiência de quem mora fora do Brasil. Um modelo influente na literatura (GRAHAM et al., 1994, apud RIZO-MARTÍNEZ, 2018) descreve quatro elementos que favorecem esse tipo de vínculo: uma ameaça percebida à sobrevivência, pequenas demonstrações de bondade dentro de um contexto de controle, isolamento de outras pessoas além do agressor, e a sensação de que não há como escapar.
Pense em alguém que se mudou para outro país acompanhando um parceiro. Deixou o emprego, a família e os amigos no Brasil, ainda está aprendendo o idioma local e depende financeiramente dessa pessoa. Com o tempo, a relação passa a ter episódios de controle e humilhação, intercalados por momentos de carinho e promessas de mudança. Pensar em terminar significa, nesse cenário, considerar perder também a moradia, a estabilidade financeira e o próprio projeto de vida que a trouxe até ali. O medo de romper deixa de ser só sobre o relacionamento, e passa a envolver a pergunta “para onde eu vou?”, tanto em termos práticos quanto emocionais.
Existe ainda uma camada silenciosa nessa experiência: o medo de voltar ao Brasil e ser vista como alguém que “não deu conta” da vida fora. Essa pressão não existe em todo mundo que mora fora do país, mas quando existe, pode se somar ao medo material e jurídico de uma separação, tornando a permanência na relação ainda mais complexa de entender de fora, e ainda mais difícil de romper de dentro.
Nada disso significa que morar fora do Brasil causa a síndrome de Estocolmo, nem que toda pessoa nessa situação vá vivê-la. Significa reconhecer que o isolamento, a dependência financeira e a distância da rede de apoio original podem intensificar mecanismos psíquicos que já existiam antes da mudança, dificultando a saída de uma relação que machuca.
Além dos reféns: esse padrão em outras relações de poder desigual
Embora o termo tenha nascido de um sequestro, os mecanismos por trás dele aparecem em outras relações marcadas por dependência e poder desigual, incluindo ambientes de trabalho com chefias abusivas intercaladas por reconhecimento ocasional. O ponto em comum não é o contexto específico, mas a combinação entre ameaça, dependência e escassez de alternativas percebidas.
O que isso está tentando dizer?
Quando alguém desenvolve afeto por quem a machuca, isso não é sinal de fraqueza nem de mau julgamento. É, quase sempre, um sinal de que a mente encontrou uma forma de sobreviver a uma situação da qual não conseguia sair sozinha. Duas emoções costumam ficar emudecidas nesse processo: a vergonha, de não ter saído antes ou de imaginar o julgamento de quem está de fora, e a raiva, que muitas vezes não consegue ser sentida na direção de quem a provocou, porque isso colocaria em risco o próprio vínculo, e acaba sendo direcionada para dentro, virando autocrítica ou culpa.
Entender isso muda a pergunta que costumamos fazer: em vez de “por que ela não sai?”, a pergunta mais honesta é “o que essa pessoa precisaria ter para conseguir sair?” Às vezes, a esperança de que o outro mude se mistura com um desejo antigo de conseguir salvá-lo, tema que também aparece em Síndrome do Salvador, quando cuidar do outro vira uma forma de não olhar para si mesmo.
Existe um caminho possível?
Romper um vínculo construído sobre medo e dependência raramente é uma decisão única e definitiva. Costuma ser um processo, que envolve reconstruir rede de apoio, segurança financeira e, muitas vezes, acompanhamento psicológico especializado em trauma. Para quem observa de fora, o apoio mais útil raramente é a cobrança, e quase sempre é a disponibilidade sem julgamento, para quando a pessoa sentir que tem para onde ir.
Reconhecer esse vínculo é o primeiro passo, não é motivo de culpa
Se você se reconheceu nesse texto, seja vivendo essa experiência ou vendo alguém que ama vivê-la, não é preciso ter todas as respostas agora para começar a conversar sobre isso.
Perguntas frequentes
Síndrome de Estocolmo é um diagnóstico psiquiátrico oficial?
Não. O termo não consta no DSM-5-TR nem na CID-11. A literatura científica questiona inclusive se ele descreve uma entidade clínica única, e não apenas mecanismos já conhecidos, como identificação com o agressor e vínculo traumático.
Só acontece em casos de sequestro?
Não. Embora o termo tenha nascido de um sequestro real, em 1973, o mesmo padrão de vínculo é descrito também em relações abusivas, contextos de violência doméstica e, por analogia, outras situações de dependência e poder desigual.
Por que é tão difícil sair de uma relação assim?
Porque o vínculo se forma através de um ciclo de medo e alívio que atua na fisiologia emocional, não apenas na razão. Some-se a isso, muitas vezes, dependência financeira, isolamento social e medo das consequências práticas de uma separação.
Morar fora do Brasil aumenta o risco de viver isso?
Morar fora não causa a síndrome de Estocolmo, mas o isolamento, a dependência financeira de um parceiro e a distância da rede de apoio original podem intensificar mecanismos que já existiam, tornando mais difícil perceber e sair de uma relação que machuca.
Referências
UTTON, D. G.; PAINTER, S. L. Traumatic bonding: the development of emotional attachment in battered women and other relationships of intermittent abuse. Victimology, 1981.
FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre os adultos e a criança. 1932/1933.
FREUD, Anna. O ego e os mecanismos de defesa. 1936.
LIMEIRA, E. de M.; ROCHA NETO, A. da S. A síndrome de Estocolmo nos casos de violência doméstica contra a mulher. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação (REASE), v. 10, n. 11, 2024. DOI: 10.51891/rease.v10i11.16685.
RIZO-MARTÍNEZ, L. E. El síndrome de Estocolmo: una revisión sistemática. Clínica y Salud, v. 29, n. 2, p. 81-88, 2018. DOI: 10.5093/clysa2018a12.











