Saúde Mental

Como lidar com a solidão: o que ajuda de verdade

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Quem já contou a alguém que se sente só conhece a resposta. “Você precisa sair mais.” “Entra num curso.” “Baixa um aplicativo.” São conselhos dados com carinho, e quase sempre inúteis. Quem pergunta como lidar com a solidão raramente está pedindo uma lista de atividades. Está tentando entender por que, mesmo fazendo tudo isso, a sensação continua.

Este texto não traz uma receita. Traz o que as pesquisas e a clínica permitem dizer sobre o que costuma ajudar, e sobre o que parece ajudar e não ajuda.

Como lidar com a solidão: mulher sentada a uma mesa redonda ao entardecer, com uma xícara nas mãos e expressão tranquila, diante de uma segunda xícara posta em frente a uma cadeira vazia.

Como lidar com a solidão começa por entendê-la

Solidão não é uma coisa só, e o que serve para uma pode não servir para outra.

O sociólogo Robert Weiss distinguiu duas formas. A solidão social é a falta de um grupo, de uma rede de convivência. A solidão emocional é a falta de um vínculo íntimo, de alguém com quem se possa ser inteiro. Uma pessoa pode ter muitos conhecidos e nenhuma intimidade, ou um grande amor e nenhum amigo.

Também importa o tempo. Há a solidão que acompanha uma mudança de cidade, um término, um luto, e que faz parte de atravessar esses momentos. E há a solidão crônica, que se instala e passa a moldar a forma de ver os outros.

E existe ainda a diferença entre solidão e solitude. Estar só pode ser descanso. O que dói é não ter para onde voltar.

Antes de perguntar o que fazer, vale perguntar qual é a sua.

Por que "sair mais" nem sempre resolve

Christopher Masi e colegas reuniram dezenas de estudos sobre intervenções contra a solidão e compararam quatro estratégias: melhorar habilidades sociais, aumentar o apoio social, ampliar as oportunidades de contato e trabalhar a maneira como a pessoa interpreta as situações sociais.

A mais eficaz, entre os estudos mais rigorosos, foi a última. Mudar a forma de ler as relações ajudou mais do que simplesmente multiplicar encontros.

A explicação está em um mecanismo descrito por Louise Hawkley e John Cacioppo. A solidão prolongada altera a percepção. Quem se sente só por muito tempo passa a vigiar sinais de rejeição, a interpretar gestos neutros como negativos e a lembrar mais dos momentos em que foi deixado de lado.

É um estado de alerta que já teve função protetora. Só que ele produz o que teme. A pessoa chega aos encontros na defensiva, fala menos, vai embora cedo, não volta. Os outros percebem a distância e se afastam. A solidão se confirma.

Por isso mandar alguém “sair mais” pode ser pedir que repita, em mais lugares, a mesma experiência de não se sentir bem-vindo.

Quatro estratégias estudadas contra a solidão

 . Melhorar habilidades sociais.

 . Aumentar o apoio social disponível.

 . Ampliar as oportunidades de contato.

 . Rever a maneira de interpretar as situações sociais.

Entre os estudos de melhor qualidade, a quarta apresentou os resultados mais consistentes.

Não é culpa sua, e não depende só de você

Dizer que a percepção pesa não significa dizer que a solidão está na cabeça de cada um.

Na pesquisa Solidão no Brasil, feita em 2026 pelo Family Talks e pela Market Analysis, 61,1% dos entrevistados atribuíram a solidão a circunstâncias externas, e não à pessoa. E os números lhes dão razão: a proporção de pessoas classificadas como solitárias foi de uma em quatro na classe mais alta e de quase uma em duas nas mais baixas.

Tempo de deslocamento, jornadas longas, falta de dinheiro para o lazer, cidades sem praças, vida mediada por telas. Tudo isso torna o encontro mais difícil para todos.

Reconhecer esse contexto tira um peso. A solidão não é prova de defeito pessoal. E também não se resolve apenas com esforço individual. Há uma parte que depende de cada um e uma parte que depende do mundo em que se vive.

A capacidade de estar só

A psicanálise acrescenta algo que os conselhos práticos costumam ignorar. Nem toda solidão é para ser eliminada.

Melanie Klein, em um de seus últimos textos, escreveu sobre um sentimento de solidão que existe mesmo em quem está cercado de pessoas queridas. Para ela, ele vem do anseio por um estado interno de completude que nunca se alcança. Há uma parte de nós que nenhum outro compreende inteiramente.

Winnicott trouxe a outra face. A capacidade de estar só, dizia ele, é uma conquista, e nasce de ter estado só na presença de alguém confiável. Quem a desenvolveu consegue ficar consigo sem se sentir abandonado.

Isso muda o objetivo. Lidar com a solidão não é nunca mais senti-la. É poder suportar a parte dela que faz parte de existir, para não exigir dos vínculos o que nenhum vínculo pode dar.

Quem não tolera ficar só costuma aceitar qualquer companhia. E companhia qualquer é uma das formas mais dolorosas de solidão.

Abrir lugar antes de saber quem vem

Há uma imagem que resume bem a atitude possível. Alguém se senta à mesa e põe uma segunda xícara do outro lado. Não sabe se alguém virá. Mas o lugar está ali.

É diferente de esperar. Quem espera fica parado, e condiciona o próprio bem-estar à chegada de uma pessoa específica. Quem abre lugar segue com a própria vida e mantém, ao mesmo tempo, uma disponibilidade.

A diferença é sutil e decisiva. Quando o outro é procurado como cura, o vínculo já começa sobrecarregado. A pessoa nova precisa compensar anos de ausência, e raramente alguém suporta esse papel.

Quando o outro é esperado como companhia, e não como salvação, o encontro pode ser mais leve. E, por isso mesmo, tem mais chance de durar.

Mulher com uma bolsa no ombro abre uma porta de madeira em um corredor e olha para um pátio ensolarado onde um grupo de pessoas conversa.

Vínculo pede tempo

Um dado ajuda a ajustar a expectativa. O pesquisador Jeffrey Hall estimou quantas horas de convivência são necessárias para formar uma amizade. Algo em torno de cinquenta horas para que um conhecido se torne um amigo casual, e mais de duzentas para uma amizade próxima.

Isso explica por que um jantar ou um evento isolado raramente muda alguma coisa. Amizade não nasce de um encontro. Nasce da repetição.

Daí a importância de lugares aos quais se volta: o mesmo grupo toda semana, a mesma aula, a mesma mesa. Não pelo conteúdo da atividade, e sim porque ela garante que as mesmas pessoas se vejam de novo sem que ninguém precise convidar.

Também explica por que fazer amigos fica mais difícil na vida adulta. Não é que as pessoas mudem. É que desaparecem as situações em que as horas se acumulavam sozinhas, como a escola e a faculdade.

Como lidar com a solidão no dia a dia

Dito tudo isso, por onde começar? Não há ordem certa, mas alguns movimentos pequenos costumam abrir caminho.

Retomar um vínculo antigo costuma ser mais fácil do que criar um novo. Há quase sempre alguém de quem se gostava e com quem se perdeu contato sem briga. Uma mensagem simples resolve mais do que parece.

Ficar um pouco mais. Muita gente vai aos lugares e sai assim que a obrigação termina. É no tempo que sobra, depois da aula ou da reunião, que as conversas acontecem.

Ser quem convida. Quem se sente só espera ser chamado, e teme a rejeição. Mas boa parte das pessoas ao redor está esperando a mesma coisa.

Desconfiar da primeira leitura. Quando alguém demora a responder ou parece distante, a mente treinada pela solidão conclui depressa que não é querida. Vale considerar as outras explicações antes de se retirar.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitas pessoas descrevem a própria solidão como um fato do mundo, e só aos poucos percebem os gestos com que, sem querer, mantêm os outros à distância. Não por culpa, e sim por proteção.

E dizer a alguém. A vergonha faz da solidão um segredo, e o segredo a aumenta. Contar a uma pessoa de confiança que os dias andam vazios já é, em si, um ato de vínculo.

Para quem mora fora do Brasil

Quem vive em outro país conhece uma versão particular desse problema. A rede antiga ficou longe, a nova ainda não tem história, e a língua limita a intimidade.

Aqui a conta das horas pesa em dobro, porque tudo precisa ser construído do zero e ao mesmo tempo. Ajuda saber que a demora é esperada, e que ela não diz nada sobre a capacidade de alguém de ser querido. O artigo sobre solidão no exterior trata disso com mais detalhe.

Quando a solidão pede mais cuidado

 . Ela dura muitos meses e não varia com as circunstâncias.

 . Vem acompanhada de tristeza persistente, alterações no sono ou perda de interesse.

 . Você passou a evitar as pessoas mesmo sentindo falta delas.

 . Surge a ideia de que ninguém notaria a sua ausência.

 . Diante de pensamentos de que a vida não vale a pena, procure ajuda sem esperar. No Brasil, o CVV atende pelo 188, 24 horas.

Quando a solidão se mistura a esses sinais, pode haver algo mais em jogo, como mostra o texto sobre solidão e depressão.

A porta se abre por dentro

Em meio à solidão que marca o nosso tempo, é tentador procurar uma solução rápida: a pessoa certa, o grupo certo, o aplicativo certo.

O que as pesquisas e a clínica sugerem é mais lento e mais ao alcance. A solidão diminui quando a pessoa volta a acreditar que pode ser bem recebida, e quando dá ao vínculo o tempo de que ele precisa.

Há gente do outro lado da porta. Abri-la não garante que alguém entre na sua vida. Mas é o gesto que cabe a quem está dentro, e quase tudo o que vem depois começa por ele.

Um primeiro lugar à mesa

Falar da própria solidão costuma ser mais difícil do que suportá-la. Parece confissão, e muita gente a guarda por anos.

A psicoterapia pode ser o primeiro vínculo em que isso se diz em voz alta, sem pressa e sem julgamento, e onde se pode entender o que tem mantido os outros à distância. Se fizer sentido, é possível começar por uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.

Perguntas frequentes

Como lidar com a solidão?

Não há fórmula única. Ajuda entender que tipo de solidão se sente, rever a tendência a esperar rejeição, dar tempo para que os vínculos se formem e manter contatos regulares com as mesmas pessoas. Quando persiste por muito tempo, vale buscar ajuda profissional.

Porque a solidão prolongada muda a forma de perceber os outros. A pessoa passa a esperar rejeição e a se proteger, o que dificulta a aproximação. Aumentar os encontros sem rever essa leitura costuma repetir a mesma experiência.

Um estudo estimou cerca de cinquenta horas de convivência para que um conhecido se torne amigo casual e mais de duzentas para uma amizade próxima. Por isso a regularidade dos encontros pesa mais do que a quantidade de pessoas conhecidas.

É possível estar bem na própria companhia, e essa capacidade protege. Mas ela não substitui o vínculo. Estar só por escolha é diferente de sentir que não há ninguém para quem voltar.

Quando dura muitos meses, vem acompanhada de tristeza persistente ou alterações no sono, ou quando a pessoa passa a evitar os outros mesmo sentindo falta deles. Pensamentos de que a vida não vale a pena pedem ajuda imediata.

Referências

FAMILY TALKS; MARKET ANALYSIS. Solidão no Brasil: evidências para o debate público e familiar. [S. l.]: Family Talks, 2026. Disponível em: https://familytalks.org/publicacoes/noticias/quatro-a-cada-dez-brasileiros-se-sentem-sozinhos-revela-pesquisa-inedita-do-family-talks-com-market-analysis. Acesso em: 7 out. 2026.

HALL, Jeffrey A. How many hours does it take to make a friend? Journal of Social and Personal Relationships, v. 36, n. 4, p. 1278-1296, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0265407518761225

HAWKLEY, Louise C.; CACIOPPO, John T. Loneliness matters: a theoretical and empirical review of consequences and mechanisms. Annals of Behavioral Medicine, v. 40, n. 2, p. 218-227, 2010. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s12160-010-9210-8

KLEIN, Melanie. Sobre o sentimento de solidão (1963). In: KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991.

MASI, Christopher M. et al. A meta-analysis of interventions to reduce loneliness. Personality and Social Psychology Review, v. 15, n. 3, p. 219-266, 2011. Disponível em: https://doi.org/10.1177/1088868310377394

WEISS, Robert S. Loneliness: the experience of emotional and social isolation. Cambridge: MIT Press, 1973.

WINNICOTT, Donald W. A capacidade para estar só (1958). In: WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

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