Saúde Mental

Existe uma solidão que faz bem?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Depois de uma semana cheia de gente, reunião, mensagem, compromisso, tem gente que sente um alívio quase físico ao fechar a porta de casa e não falar com ninguém por algumas horas. Não é tristeza. Não é fuga. É, muitas vezes, exatamente o oposto: um movimento de recomposição.

Isso levanta uma pergunta que vale a pena levar a sério: existe uma solidão que faz bem, ou toda forma de ficar só é, no fundo, um sintoma a ser tratado?

homem correndo sozinho na praia ao pôr do sol, braços abertos, expressão de leveza, representando a solidão que faz bem

Existe uma solidão que faz bem: o que a pesquisa e a clínica sugerem

A resposta, tanto na pesquisa quanto na prática clínica, é sim, com uma condição importante: o que determina se aquele tempo sozinho vai nutrir ou esvaziar não é o tempo em si, é a origem dele.

Um estudo conduzido pelos pesquisadores Nguyen, Ryan e Deci, publicado no Personality and Social Psychology Bulletin, investigou justamente essa questão e encontrou que buscar solidão por autonomia, ou seja, por escolha genuína e não por obrigação ou fuga, está associado a mais calma e menos afeto negativo depois desse tempo sozinho. Quando a solidão é imposta ou vivida como obrigação, o efeito tende a ser o oposto.

Essa distinção é central. A mesma quantidade de horas sozinho pode restaurar uma pessoa e esgotar outra, dependendo de como esse tempo foi escolhido e do que ele representa para quem o vive.

O que diferencia solidão que faz bem de solidão que esgota

 . Escolha: buscada ativamente, não imposta por circunstância ou medo de se expor.

 . Função: serve para descansar, pensar, criar ou simplesmente existir sem demanda externa.

 . Saída: a pessoa volta ao convívio social com mais disposição, não com mais resistência.

 . Sinal de alerta: quando o tempo sozinho começa a substituir o contato, em vez de prepará-lo, pode estar deixando de ser solidão que faz bem.

A capacidade de ficar só, segundo a psicanálise

O psicanalista britânico Anthony Storr dedicou um livro inteiro a esse tema, argumentando que a capacidade de ficar bem sozinho não é um desvio da sociabilidade, mas uma habilidade psíquica tão importante quanto a capacidade de se vincular. Para Storr, parte da criatividade e da elaboração interna de uma pessoa depende de momentos de solidão genuína, sem a mediação constante do olhar do outro.

Essa leitura dialoga diretamente com a noção winnicottiana de capacidade de ficar só: quem teve, em algum momento da vida, a experiência de estar sozinho na presença confiável de alguém, consegue mais tarde sustentar a própria companhia sem angústia. A solidão deixa de ser ameaça e passa a ser espaço.

A psicanalista brasileira Ana Suy resume essa ideia citando a escritora Marguerite Duras: a solidão não se encontra pronta, ela se faz. Essa frase sugere algo importante: a solidão saudável não é um estado passivo que simplesmente acontece, é algo que a pessoa constrói, ativamente, como parte do próprio cuidado consigo.

Esse tipo de recomposição interna tem relação direta com outro fenômeno contemporâneo: o esgotamento provocado pelo ritmo intenso do trabalho, que deixa cada vez menos espaço para momentos sem demanda externa. Para muita gente, o tempo sozinho deixou de ser hábito e virou exceção, o que torna ainda mais difícil reconhecer quando esse tempo faz falta.

Quando vale a pena buscar esse tempo sozinho

 . Depois de períodos de muita exposição social, trabalho intenso ou sobrecarga emocional.

 . Antes de decisões importantes, quando o barulho externo dificulta ouvir a própria avaliação sobre algo.

 . Em momentos de criação, escrita, estudo ou qualquer atividade que exija concentração profunda.

 . Simplesmente porque a pessoa sente necessidade, sem precisar justificar com produtividade.

A diferença entre descansar e se isolar

É importante não confundir essa solidão que faz bem com isolamento progressivo. A linha entre as duas pode ser sutil, especialmente numa cultura que valoriza cada vez mais a comparação constante com a vida alheia, visível em redes sociais e alimentada por aquilo que a psicologia descreve como comparação social. Para algumas pessoas, o tempo sozinho longe desse ruído é profundamente restaurador, não um sintoma de afastamento.

O isolamento que preocupa costuma ter outra qualidade: vem acompanhado de evitação do contato, não de escolha por ele; gera mais vazio do que paz; e tende a crescer com o tempo, em vez de se manter como um espaço equilibrado dentro de uma vida que também tem vínculo.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitas pessoas chegam ao consultório achando que “gostar de ficar sozinho” é, em si, um problema a ser corrigido, quando na verdade o que precisa de atenção é outra coisa completamente diferente, geralmente ligada à forma como se relacionam, não ao fato de também precisarem de solidão.

O que isso está tentando nos dizer

Talvez a pergunta mais honesta não seja “eu deveria gostar menos de ficar sozinho”, mas “esse tempo sozinho está me devolvendo alguma coisa, ou só está me afastando”. A resposta muda de pessoa para pessoa, e muda também ao longo da vida de uma mesma pessoa.

Reconhecer que existe uma solidão que faz bem não significa evitar vínculos. Significa entender que, às vezes, o caminho de volta para uma conexão mais verdadeira com os outros passa, primeiro, por um tempo verdadeiro consigo mesmo.

Um espaço para pensar sobre o que esse tempo sozinho significa

Se você reconhece que precisa de solidão, mas não tem certeza se esse tempo está te fazendo bem ou te afastando aos poucos, essa é uma pergunta que vale a pena elaborar com cuidado.

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Referências

É normal gostar de ficar sozinho?

Sim. A capacidade de aproveitar momentos de solidão escolhida é considerada, pela psicanálise, uma habilidade emocional saudável, não um sinal de dificuldade de se relacionar.

Observe se o tempo sozinho foi escolhido ou evitação, se você sai dele restaurado ou mais vazio, e se ele convive com vínculos de verdade ou está gradualmente substituindo o contato.

Sim, segundo diversos psicanalistas e pesquisadores, momentos de solidão sem interrupção favorecem processos de reflexão, criação e elaboração interna que o contato constante dificulta.

Pesquisas recentes sugerem que o que mais importa não é ser introvertido ou extrovertido, mas buscar a solidão por escolha autônoma, não por obrigação ou evitação social.

Quando passa a substituir o contato social, em vez de prepará-lo, ou quando gera mais sofrimento do que alívio ao longo do tempo.

Referências

NGUYEN, T. T.; RYAN, R. M.; DECI, E. L. Solitude as an approach to affective self-regulation. Personality and Social Psychology Bulletin, v. 44, n. 1, p. 92-106, 2018.

STORR, A. Solitude: a return to the self. Nova York: Free Press, 1988.

SUY, A. A gente mira no amor e acerta na solidão. São Paulo: Planeta, 2022.

WINNICOTT, D. W. The capacity to be alone. The International Journal of Psychoanalysis, v. 39, p. 416-420, 1958.

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