Saúde Mental

Como identificar o que estou sentindo?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Como identificar o que estou sentindo é uma pergunta mais comum do que parece. Muita gente sente um aperto no peito, uma inquietação, um peso, e só consegue descrever isso como “estou mal” ou “algo está errado”, sem saber precisar se é tristeza, raiva, medo, culpa ou uma mistura de várias coisas ao mesmo tempo.

Isso não é falta de inteligência emocional no sentido de caráter. É uma habilidade específica, que algumas pessoas desenvolveram mais e outras menos, e que pode ser treinada.

como identificar o que estou sentindo: mulher pensativa segurando um caderno aberto em uma biblioteca

A dificuldade de nomear emoções tem nome: alexitimia

Existe um conceito específico para a dificuldade acentuada de identificar e descrever as próprias emoções: alexitimia. Segundo pesquisa publicada na Frontiers in Psychiatry, a alexitimia é definida como uma incapacidade de nomear e descrever as próprias experiências emocionais, associada a um estilo de pensamento voltado para fora, mais focado em fatos externos do que na vida interna (AARON et al., 2020).

A mesma pesquisa descreve três dimensões dessa dificuldade: dificuldade em identificar sentimentos, dificuldade em descrevê-los com palavras, e a tendência de pensar de forma orientada para o externo, em vez de prestar atenção ao próprio mundo interno. Quanto mais alta a alexitimia, maior o risco de dificuldades na regulação emocional e maior o risco para a saúde mental (AARON et al., 2020).

Isso ajuda a entender por que a pergunta “como identificar o que estou sentindo?” não é boba nem exagerada. Para algumas pessoas, essa tarefa exige um esforço real, porque a via de acesso interna às próprias emoções não foi tão desenvolvida quanto poderia.

Os três componentes da dificuldade de identificar emoções

 . Dificuldade de identificar o que está sendo sentido, mesmo quando o corpo já está reagindo

 . Dificuldade de encontrar palavras para descrever a emoção identificada

 . Tendência a focar em fatos externos em vez de prestar atenção à própria experiência interna

Nomear com precisão faz diferença: o conceito de granularidade emocional

Além de identificar que existe uma emoção, existe um segundo passo: nomeá-la com precisão. Uma pesquisa publicada no International Journal of Clinical and Health Psychology descreve esse segundo passo como granularidade emocional, a habilidade de identificar e rotular emoções de forma precisa, em vez de usar termos genéricos como “bem” ou “mal” (PETAGNA et al., 2026).

O estudo acompanhou participantes por seis semanas registrando suas emoções diversas vezes ao dia, e encontrou algo relevante: aumentos na granularidade emocional ao longo do tempo se correlacionaram com diminuições concomitantes em alexitimia e em sintomas de depressão (PETAGNA et al., 2026). Ou seja, quanto mais alguém pratica nomear com precisão o que sente, menor tende a ser o sintoma depressivo relatado no mesmo período.

Isso quer dizer que como identificar o que estou sentindo não é apenas uma curiosidade sobre si mesmo, é uma habilidade que, quando desenvolvida, parece se associar a menos sofrimento psíquico, não o contrário.

Por que dizer "sinto raiva" é diferente de dizer "estou mal"

A diferença entre “estou mal” e “sinto raiva porque me senti desrespeitado” não é só de vocabulário. É uma diferença de precisão que muda o que a pessoa pode fazer a seguir. “Estou mal” não indica nenhuma direção de ação. “Sinto raiva porque me senti desrespeitado” já aponta para algo específico que pode ser processado, comunicado ou, quando fizer sentido, resolvido.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que boa parte do trabalho inicial em terapia é justamente esse: ajudar a pessoa a sair do “não sei o que sinto, só sei que está ruim” para conseguir nomear, com mais precisão, o que está de fato acontecendo por dentro. Esse passo, sozinho, já costuma trazer algum alívio.

Essa dificuldade de nomear também está ligada a um hábito comum: reprimir emoções por tanto tempo que a pessoa perde contato com o que realmente sente, e não apenas com a coragem de expressar.

mulher escrevendo em um caderno perto da janela, praticando identificar e nomear suas emoções

Um caminho possível para desenvolver essa habilidade

Como identificar o que estou sentindo não é algo que se resolve de uma vez, é uma prática. Parar por alguns segundos e se perguntar, com calma, “o que exatamente estou sentindo agora, e onde no corpo eu sinto isso” já é um exercício concreto. Trocar palavras genéricas (“mal”, “estranho”, “esquisito”) por palavras mais específicas (irritado, desapontado, envergonhado, apreensivo) também ajuda a treinar essa via.

Escrever sobre o que se sente, mesmo que de forma breve, é outra estratégia que aparece com frequência em pesquisas sobre por que sentimos emoções e como lidamos melhor com elas quando conseguimos colocá-las em palavras.

O que isso está tentando dizer?

A dificuldade de identificar o que se sente não é um defeito de caráter, é uma habilidade menos desenvolvida, e habilidades podem ser desenvolvidas. Quando alguém não sabe nomear o que sente, isso está dizendo que, em algum momento da vida, talvez não tenha havido espaço ou estímulo suficiente para prestar atenção e nomear as próprias emoções com precisão.

A boa notícia, segundo a pesquisa, é que essa habilidade responde à prática. Cada vez que alguém se esforça para nomear com mais precisão o que sente, está literalmente treinando essa capacidade, com potencial de reduzir sofrimento psíquico ao longo do tempo.

O acompanhamento psicológico pode acelerar e aprofundar esse processo, oferecendo um espaço estruturado para desenvolver essa via de acesso à própria vida emocional.

Dê o próximo passo

Aprender a identificar com mais precisão o que você sente é uma habilidade que se desenvolve com prática e, muitas vezes, com apoio profissional. Uma conversa inicial gratuita de 20 minutos pode ser um bom ponto de partida.

Perguntas frequentes

Não conseguir identificar o que sinto é sinal de algum problema psicológico?

Não necessariamente. Existe um espectro de facilidade para identificar emoções, e grande parte da população tem algum grau de dificuldade nisso. Quando essa dificuldade é muito acentuada, ela é descrita na literatura científica como alexitimia, mas isso não é, por si só, um diagnóstico psiquiátrico.

É a habilidade de identificar e nomear emoções com precisão, em vez de usar termos genéricos como “bem” ou “mal”. Pesquisas associam maior granularidade emocional a menores níveis de sintomas depressivos.

Praticar parar e se perguntar o que exatamente está sendo sentido, trocar palavras genéricas por descrições mais específicas, e escrever sobre as próprias emoções são estratégias que ajudam a desenvolver essa habilidade ao longo do tempo.

Sim. Boa parte do trabalho terapêutico envolve justamente ajudar a pessoa a sair de descrições vagas sobre o que sente para nomeações mais precisas, o que costuma trazer mais clareza e, com frequência, algum alívio.

Referências

AARON, Rachel V.; BLAIN, Scott D.; SNODGRESS, Matthew A.; PARK, Sohee. Quadratic Relationship Between Alexithymia and Interoceptive Accuracy, and Results From a Pilot Mindfulness Intervention. Frontiers in Psychiatry, v. 11, art. 132, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fpsyt.2020.00132. Acesso em: 25 set. 2026.

PETAGNA, K. D.; ECKER, A. L.; REID, T. E.; MCMULLEN, K. M.; QUIGLEY, K. S.; WORMWOOD, J. B. Within-person changes in emotional complexity are associated with concurrent changes in mental health symptoms. International Journal of Clinical and Health Psychology, v. 26, e100659, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.ijchp.2025.100659. Acesso em: 25 set. 2026.

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