Saúde Mental

Por que sentimos emoções?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Por que sentimos emoções? Essa é uma pergunta que parece simples, mas raramente é respondida de verdade. Se você já leu sobre o que são emoções e sentimentos, já sabe a diferença entre os dois. Falta entender por que, afinal, o corpo se agita, o peito aperta, os olhos ardem, sem que a pessoa tenha decidido nada disso.

A resposta curta é que emoção não é um evento acidental do funcionamento psíquico. É o próprio funcionamento psíquico em ação. Sentir é a forma mais antiga que a mente tem de dizer alguma coisa antes mesmo que exista uma palavra disponível para dizê-la, e é por isso que vale a pena perguntar, com calma, por que sentimos emoções em vez de simplesmente reagir a elas.

mulher tocando um galho de árvore em um parque com neblina, representando a conexão entre corpo, natureza e emoção

Por que sentimos emoções, segundo a psicanálise

Freud descreveu o afeto como algo que busca representação: uma quantidade de energia psíquica que precisa encontrar um caminho para se expressar, seja em palavra, em sintoma, em choro ou em silêncio pesado. Quando esse caminho não existe, a emoção não desaparece, ela se desloca, se disfarça, aparece em outro lugar do corpo ou da vida.

Isso significa que toda emoção carrega uma mensagem, mesmo quando essa mensagem ainda não foi decifrada por quem a sente. Sentir raiva sem saber exatamente de quê, ou tristeza sem motivo aparente, não é disfunção. É o psiquismo tentando comunicar algo que ainda não tem nome. Entender por que sentimos emoções, nessa perspectiva, é menos sobre eliminar o desconforto e mais sobre decifrar a mensagem por trás dele.

Por isso, a proposta da psicanálise não é eliminar a emoção, é escutá-la. Perguntar o que ela está tentando dizer, em vez de tentar calá-la o mais rápido possível.

É possível explicar como as emoções funcionam no cérebro?

Sim, e essa explicação ajuda a entender por que sentimos emoções também no nível do corpo, não só no nível psíquico. Do ponto de vista neurobiológico, estruturas como a amígdala e o sistema límbico participam do processamento rápido de estímulos emocionais, ativando respostas corporais antes mesmo de qualquer elaboração consciente.

Esse mecanismo explica o “como”: por que o coração acelera diante de um susto, por que o corpo se prepara para reagir antes que a mente entenda o que está acontecendo. Mas o “como” neurológico não substitui o “porquê” psíquico. Saber que a amígdala disparou não explica por que uma pessoa específica reage com pânico a uma situação que outra pessoa atravessa com calma.

É aqui que a psicanálise e a neurociência se completam: uma explica o mecanismo, a outra explica o significado. Neste artigo, o eixo continua sendo o significado, mas vale reconhecer que o corpo tem, sim, uma engrenagem própria por trás de cada emoção.

Duas camadas de toda emoção

 . A camada do mecanismo: o que acontece no corpo e no cérebro quando uma emoção surge

 . A camada do significado: o que essa emoção específica está tentando comunicar, para aquela pessoa, naquele momento da vida dela

As emoções básicas: o alfabeto mais antigo do sentir

Existem emoções que aparecem cedo na vida e em qualquer cultura humana: alegria, tristeza, medo, raiva, nojo, surpresa e desprezo. São a base sobre a qual emoções mais complexas se constroem depois.

A alegria já foi explorada aqui, mostrando que mesmo a emoção mais desejada tem sua própria complexidade psíquica. A tristeza, o medo, a raiva, o nojo, a surpresa e o desprezo completam esse alfabeto mais antigo do sentir, cada uma com sua função específica de sobrevivência e comunicação. Essas sete emoções ajudam a entender, de forma concreta, por que sentimos emoções mesmo antes de conseguir nomear o que está acontecendo.

mulher pensativa sentada perto da janela com um caderno aberto, refletindo sobre por que sentimos emoções

As emoções secundárias e complexas: quando o sentir se sofistica

Além das emoções básicas, existe uma camada mais elaborada, construída a partir da vida em relação com outras pessoas e da história de cada um. Essa camada inclui emoções que já foram exploradas com profundidade nesta Biblioteca.

A culpa e a vergonha regulam como a pessoa se percebe diante de si mesma e dos outros. A inveja e o ciúme falam sobre desejo e sobre medo de perder o que se tem. A frustração e o ressentimento aparecem quando a realidade não corresponde ao que se esperava dela, e essa diferença não foi bem digerida. A mágoa guarda o que não foi dito a tempo. Já a gratidão, o orgulho e a esperança mostram que nem toda emoção complexa é desconfortável, algumas sustentam a vida psíquica de um jeito que merece ser reconhecido, não só tolerado.

A rejeição, muitas vezes tratada como fraqueza quando na verdade é uma resposta legítima a uma experiência real de exclusão, e a desesperança, que se diferencia da tristeza justamente por incluir a sensação de que nada vai mudar, fecham esse segundo grupo de emoções. Cada uma dessas emoções complexas é uma resposta diferente à mesma pergunta de fundo: por que sentimos emoções tão específicas diante de situações tão particulares da própria história.

As emoções ligadas aos vínculos: o sentir que depende do outro

Um último grupo de emoções só existe em relação: elas nascem do contato, ou da falta dele, com outra pessoa. Fazem parte desse grupo o medo de abandono, que teme a ruptura do vínculo antes mesmo que ela aconteça, e a carência afetiva, que sente falta de nutrição afetiva mesmo quando o outro está presente.

A saudade revela como um vínculo interrompido continua vivo psiquicamente, seja pela distância de casa, seja pela experiência de morar fora do Brasil. E a solidão emocional mostra que é possível sentir tudo isso mesmo cercado de gente, porque o vínculo que falta não é de presença física, é de presença emocional real.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a maior parte do sofrimento emocional não vem de sentir demais, vem de não conseguir nomear o que se sente. Colocar nome em cada uma dessas emoções específicas já é, em si, um primeiro movimento terapêutico.

O que isso está tentando dizer?

Toda emoção, das mais básicas às mais elaboradas, está tentando comunicar alguma coisa sobre a relação entre a pessoa e o mundo à sua volta. Essa é, no fundo, a resposta para por que sentimos emoções: nenhuma delas existe por acaso, e nenhuma delas precisa ser eliminada para que a vida psíquica funcione melhor.

O convite deste artigo, e de toda a Biblioteca, não é sentir menos. É sentir com mais clareza sobre o que está sendo sentido, e por quê. Cada emoção específica carrega uma pergunta diferente, e vale a pena escutar cada uma delas com atenção, em vez de tratá-las todas como o mesmo incômodo genérico a ser silenciado.

Dê o próximo passo

Reconhecer e nomear o que se sente é o primeiro passo para lidar melhor com qualquer emoção, por mais desconfortável que ela pareça. Se alguma dessas emoções específicas ressoou com você, os artigos linkados aqui aprofundam cada uma delas. E se sentir que precisa de um espaço para entender melhor o que está sentindo, uma conversa inicial gratuita de 20 minutos pode ser um bom começo.

Perguntas frequentes

Por que sentimos emoções que não queremos sentir?

Porque a emoção não é escolhida conscientemente, ela é uma resposta psíquica a algo que está acontecendo, interna ou externamente. Tentar simplesmente não sentir costuma deslocar a emoção para outro lugar, em vez de resolvê-la.

Sim. Estruturas como a amígdala e o sistema límbico participam do processamento das emoções no cérebro. Essa explicação complementa a compreensão psíquica, mas não substitui a pergunta sobre o que cada emoção significa para quem a sente.

As emoções básicas (como alegria, tristeza e medo) aparecem cedo na vida e em qualquer cultura. As emoções complexas (como culpa, inveja ou gratidão) se constroem a partir da vida em relação com outras pessoas e da história pessoal de cada um.

Sim, é bastante comum. Situações da vida raramente ativam uma única emoção isolada, o mais frequente é sentir combinações, como tristeza misturada a raiva, ou alívio misturado a culpa.

Referências

Afeto e representação nas origens da metapsicologia: uma leitura do Projeto de uma psicologia de Freud, PEPSIC: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382004000200003

Neurobiologia das emoções, SciELO Brasil, Revista de Psiquiatria Clínica: https://www.scielo.br/j/rpc/a/t55bGGSRTmSVTgrbWvqnPTk/?lang=pt

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