Saúde Mental

O que é orgulho?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

O que é orgulho, afinal? Na linguagem do dia a dia, a palavra carrega dois sentidos quase opostos.

Existe o orgulho que reconhece uma conquista real, que celebra um esforço, que dá voz a uma identidade antes silenciada. E existe o orgulho que se fecha sobre si mesmo, que não tolera contradição, que trata o outro como um obstáculo ao próprio brilho. A psicanálise chama esse segundo movimento de arrogância.

O que é orgulho: homem pendurando um quadro com a própria foto na parede, sorrindo

O que é orgulho saudável

O orgulho saudável é aquele que reconhece uma conquista sem negar a existência do outro. Ele celebra, mas não precisa diminuir ninguém para isso.

Esse tipo de orgulho também tem uma dimensão coletiva importante. Anderson Schirmer, em dissertação de mestrado defendida na PUC-SP sobre a Parada do Orgulho GLBT de São Paulo, descreve como o termo “orgulho” foi apropriado politicamente por movimentos historicamente marginalizados, como forma de recusar a vergonha e o silenciamento impostos por décadas de preconceito.

Nesse sentido, o que é orgulho para uma pessoa ou um grupo depende muito da sua história. Para quem viveu sob o peso de um estigma, afirmar orgulho de quem se é pode ser, em si, um gesto de resistência e saúde emocional, não de vaidade.

Sinais de orgulho saudável

 . Reconhecimento de uma conquista real, sem exagero nem minimização

 . Capacidade de comemorar sem precisar diminuir o outro

 . Abertura para ouvir crítica sem sentir isso como ataque à própria identidade

 . Orgulho que convive com dúvida e com a possibilidade de errar

 . Sensação de afirmação, não de superioridade

O que é orgulho quando vira arrogância

O psicanalista Daniel Cardozo Severo, em artigo publicado na Revista Natureza Humana, descreve um processo diferente: o momento em que o orgulho do conhecimento se transforma em arrogância.

Severo se apoia no conceito de Wilfred Bion, para quem a arrogância surge quando a curiosidade genuína, a busca honesta pela verdade, é tomada pela pulsão de morte. Nesse ponto, a pessoa deixa de buscar conhecer e passa a agir como se já possuísse toda a verdade.

Segundo o autor, essa passagem costuma ser impulsionada por inveja e ódio inconscientes, que contaminam a curiosidade original e a transformam em uma postura de onipotência. A diferença entre reconhecer o que é orgulho saudável e cair na arrogância está justamente aqui: o orgulho saudável ainda reconhece o outro como alguém que pode ensinar algo, enquanto a arrogância trata o outro como um obstáculo à própria onisciência.

Sinais de que o orgulho virou arrogância

 . Dificuldade extrema de admitir erro ou desconhecimento

 . Tratar discordância como ataque pessoal

 . Necessidade de sempre ter a última palavra

 . Desprezo por quem pensa diferente, em vez de curiosidade sobre a diferença

 . Sensação de que reconhecer os próprios limites seria uma humilhação

 

O que é orgulho na prática clínica

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a arrogância, mais do que excesso de autoconfiança, costuma esconder uma grande fragilidade.

Quem precisa negar constantemente seus próprios limites geralmente teme muito revelá-los. A arrogância funciona, nesses casos, como uma armadura contra uma vergonha antiga, não superada, como já foi discutido em o que é vergonha.

Isso ajuda a entender por que confrontar diretamente uma pessoa arrogante raramente funciona. A postura defensiva se intensifica justamente porque o que está em jogo, por trás da arrogância, é uma ameaça à própria identidade.

O que é orgulho: homem em uma trilha na floresta, olhando para cima com serenidade

O que isso está tentando dizer?

Quando o orgulho aparece de forma saudável, ele costuma estar dizendo que a pessoa reconhece seu próprio valor sem precisar da submissão do outro para sustentá-lo.

Quando o orgulho endurece em arrogância, ele pode estar tentando esconder algo mais frágil: um medo antigo de não ser suficiente, disfarçado de certeza absoluta.

Diferenciar o que é orgulho saudável de arrogância não é apenas uma questão de vocabulário. É reconhecer se aquele sentimento ainda deixa espaço para o outro existir, ou se ele precisa apagar o outro para se sustentar.

Existe um caminho possível

Entender o que é orgulho, em suas duas faces, ajuda a reconhecer o próprio movimento interno diante de uma conquista.

Sentir orgulho de si mesmo não precisa apagar o outro. E reconhecer os próprios limites não precisa ser sentido como humilhação. Um espaço de escuta pode ajudar a entender, quando a arrogância se instala com frequência, o que ela está protegendo por trás.

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Perguntas frequentes

Qual a diferença entre orgulho e arrogância?

Qual a diferença entre orgulho e arrogância?

Na maioria das vezes, sim, especialmente quando reconhece uma conquista real sem diminuir ninguém. Torna-se um problema quando esse orgulho passa a depender da submissão ou do silêncio do outro.

Porque, segundo a psicanálise, a arrogância costuma esconder uma fragilidade profunda. Admitir um erro pode ser sentido como uma ameaça à própria identidade, não apenas como um fato pontual.

Tem uma função diferente. O orgulho coletivo costuma nascer como resposta a um histórico de vergonha imposta por preconceito, funcionando como afirmação de identidade e resistência, não como vaidade pessoal.

Quando ela se torna incapacidade sistemática de reconhecer o outro, prejudica relações importantes ou impede qualquer forma de aprendizado ou crescimento pessoal.

Referências

EVERO, D. C. Pulsão de morte e resistência, onde o orgulho se transforma em arrogância. Natureza Humana – Revista Internacional de Filosofia e Psicanálise, São Paulo, v. 22, n. 2, p. 147-153, 2020. DOI: 10.59539/2175-2834-v22n2-436. Disponível em: https://revistas.dwwe.com.br/index.php/NH/article/view/436. Acesso em: 24 set. 2026.

SCHIRMER, Anderson. “Saindo dos armários?”: a análise das políticas de identidade na formação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo: um contraponto pela psicanálise. Dissertação (Mestrado em Psicologia Social), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2010.

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