Existe uma cena que se repete: alguém guarda uma mágoa antiga, revive o episódio em detalhes, sente o corpo tenso só de pensar naquilo, e ao mesmo tempo é advertido, por si mesmo ou por quem está perto, de que já deveria ter superado isso. O que é ressentimento, afinal, senão essa recusa em virar a página quando a página parece exigir que algo real seja apagado? A pergunta importa porque a resposta mais comum, a de que ressentir é fraqueza ou mesquinhez, deixa de fora uma parte inteira da experiência: às vezes o ressentimento é o único lugar onde uma injustiça continua sendo lembrada como injustiça.
Friedrich Nietzsche, em "Genealogia da Moral"
Friedrich Nietzsche, em “Genealogia da Moral” (1887), foi quem deu ao ressentimento seu tratamento filosófico mais influente, e também o mais duro. Para ele, o ressentimento nasce de uma incapacidade: quem não consegue agir diretamente sobre o que o feriu, por estar em posição de menor poder, reage de forma indireta, guardando a dor e transformando-a em julgamento moral sobre quem causou o ferimento. É o que Nietzsche chama de moral reativa, construída não a partir de um valor próprio afirmado, mas a partir da negação do outro. Essa leitura, retomada por comentadores como Juliano Fontana Trevisan em sua dissertação sobre Nietzsche e ressentimento (UFRGS, 2005), descreve algo que muita gente reconhece: a sensação de estar preso a uma história que não escolheu reviver, mas da qual não consegue se desvencilhar.
Só que reduzir o ressentimento a uma fraqueza moral deixa uma pergunta sem resposta: e quando a mágoa é sobre algo que de fato não deveria ter acontecido? A filósofa e historiadora Monica Grin, em texto apresentado no Simpósio Nacional de História (ANPUH, 2013), recupera uma perspectiva diferente, a do escritor e sobrevivente do Holocausto Jean Améry. Para Améry, o ressentimento pode ser uma forma de protesto moral, uma recusa deliberada em aceitar que o tempo, sozinho, resolva o que a justiça não resolveu. Nessa leitura, esquecer não é sempre um sinal de saúde psíquica: às vezes é apenas conveniente para quem não foi a vítima.
O que é ressentimento na prática clínica
Na prática cotidiana, o ressentimento aparece com menos filosofia e mais corpo: um aperto no peito quando o nome de alguém é mencionado, uma vontade de comentar o episódio outra vez mesmo sabendo que “já devia ter passado”, uma dificuldade em aceitar convites ou aproximações da pessoa que causou a dor, mesmo quando ela parece ter seguido em frente sem nenhum custo. Diferente da raiva, que costuma ter um pico e um fim, o ressentimento se instala. Ele tem uma qualidade de permanência que confunde quem o sente, porque a pergunta que emerge quase sempre é a mesma: por que eu ainda penso nisso, se já faz tanto tempo?
Sinais comuns de ressentimento
. Revisitar mentalmente o mesmo episódio, mesmo sem querer
. Sentir tensão física ao lembrar da pessoa ou situação
. Dificuldade em aceitar um pedido de desculpas, ou raiva por ele nunca ter vindo
. Comparar repetidamente o “antes” e o “depois” daquele episódio
. Sensação de injustiça que parece não se resolver com o tempo
Uma parte do que sustenta o ressentimento é justamente essa ausência de reparação. Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que o ressentimento raramente é sobre o episódio isolado: ele costuma carregar a soma de vezes em que a pessoa sentiu que sua dor não foi reconhecida, nem pelo outro, nem por si mesma. Quando não há reconhecimento, a mágoa não encontra onde se depositar e continua circulando.
Isso se conecta a outra camada da discussão filosófica. Marcio José de Araujo Costa e José Antônio Souza Almada, em artigo publicado na revista Poliética (2020), analisam como Nietzsche liga o ressentimento à formação da má consciência e da culpa: quando o impulso de reagir a uma dor não encontra saída externa, ele se volta para dentro, e o corpo, a memória e a consciência passam a carregar o que não pôde ser processado de outra forma. Essa ideia ajuda a entender por que o ressentimento tantas vezes vem acompanhado de autocrítica: a pessoa se ressente do outro e, ao mesmo tempo, se cobra por ainda sentir isso.
O que isso está tentando dizer?
O ressentimento, quando aparece e insiste em ficar, costuma estar tentando dizer que algo não foi reconhecido como deveria. Não é sempre sobre incapacidade de perdoar. Às vezes é sobre a falta de um espaço onde aquela dor pudesse ter sido nomeada com clareza, por quem a causou, por quem a testemunhou, ou pela própria pessoa que a sentiu. Enquanto esse reconhecimento não acontece, mesmo que seja apenas interno, a mágoa continua trabalhando em segundo plano, puxando a atenção de volta para o episódio como se ele ainda estivesse em aberto.
Isso não significa que o ressentimento deva ser cultivado indefinidamente, nem que ele seja sempre justificado. Significa que tratá-lo apenas como um traço de personalidade a ser corrigido ignora a função que ele cumpre: manter viva a lembrança de que algo doeu, em um momento em que ninguém mais parece disposto a lembrar.
O que ajuda a elaborar o ressentimento
. Nomear com precisão o que exatamente feriu, em vez de generalizar a pessoa como “má”
. Diferenciar o desejo de reparação do desejo de vingança
. Permitir-se sentir raiva sem se cobrar por “já devia ter superado”
. Buscar, quando possível, algum tipo de reconhecimento real, do outro ou de si mesmo
. Considerar acompanhamento terapêutico quando a mágoa ocupa espaço desproporcional na vida presente
Se você percebe que continua revisitando mentalmente uma injustiça antiga, mesmo sem nenhum fato novo, vale a pena investigar o que ainda precisa ser dito ou reconhecido. Um acompanhamento psicológico pode ajudar a criar esse espaço.
Perguntas frequentes
Ressentimento é o mesmo que rancor?
São próximos, mas o rancor tende a ser mais definitivo, uma recusa duradoura de reaproximação. O ressentimento pode conviver com ambivalência: a pessoa quer e não quer deixar ir.
É saudável sentir ressentimento?
Sentir não é o problema. O que pode adoecer é ficar preso à repetição da dor sem espaço para elaborá-la ou nomeá-la. Reconhecer o ressentimento como sinal de algo não resolvido já é um primeiro passo.
Por que perdoar às vezes parece impossível?
Porque o perdão, quando cobrado antes da hora, ignora que a dor precisa antes ser reconhecida. Perdão forçado tende a empurrar o ressentimento para baixo, não a resolvê-lo.
Ressentimento sempre tem uma causa real?
Nem sempre a intensidade do ressentimento corresponde ao tamanho do episódio. Mas isso não invalida o sentimento: mesmo mágoas desproporcionais dizem algo sobre o que a pessoa precisava e não recebeu.
Quando procurar ajuda profissional por causa de ressentimento?
Quando a mágoa ocupa espaço desproporcional no presente, prejudica relações atuais que não têm relação com a origem do ressentimento, ou quando a pessoa sente que não consegue pensar em outra coisa.
Existe um caminho possível
Elaborar o ressentimento não é o mesmo que apagá-lo. É dar a ele um lugar mais preciso: entender o que exatamente ficou sem resposta, permitir que a raiva apareça sem julgamento imediato, e buscar, dentro do possível, algum tipo de reconhecimento, ainda que esse reconhecimento venha só de si mesmo. Um espaço de escuta pode ajudar a diferenciar o que ainda precisa ser dito daquilo que já pode, aos poucos, ser deixado na margem.
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Referências
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral: uma polêmica. São Paulo: Companhia das Letras, 1887/1998.
TREVISAN, Juliano Fontana. Nietzsche e o ressentimento: um estudo em Psicologia Social. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social e Institucional, Instituto de Psicologia, UFRGS, Porto Alegre, 2005.
GRIN, Monica. Reflexões sobre o direito ao ressentimento. XXVII Simpósio Nacional de História, ANPUH, Natal-RN, 2013.
COSTA, Marcio José de Araujo; ALMADA, José Antônio Souza. Genealogia do corpo e da consciência: notas sobre a psicologia da culpa e do ressentimento em Nietzsche. Poliética, São Paulo, v. 8, n. 2, p. 82-109, 2020.
AMÉRY, Jean. Além do crime e castigo: tentativas de superação. Citado em GRIN (2013).












2 comentários em “O que é ressentimento?”
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