A saudade de casa costuma chegar sem avisar, no meio de uma aula, de uma festa ou de uma noite comum em um país novo. Para o jovem universitário que saiu de casa pela primeira vez para estudar fora, essa saudade de casa não é frescura nem imaturidade. É uma resposta esperada a uma ruptura real.
A expectativa era de liberdade, descobertas, uma vida nova. E ela chega mesmo. Mas ao lado dela, quase sempre em silêncio, vem também o peso de estar longe de tudo que era familiar.
O que é a saudade de casa, afinal?
Na literatura de psicologia, a saudade de casa tem até um nome técnico, homesickness, definido como um estado cognitivo, emocional e motivacional que surge quando alguém deixa o ambiente familiar para viver uma transição de vida importante (Ferraz & Pereira, 2002).
Não é só sentir falta da comida, da cama ou do idioma. É a ausência da rede inteira de referências que, até então, davam sustentação para as decisões do dia a dia. Sem essa rede, tudo passa a exigir mais esforço, inclusive tarefas simples.
Por isso a saudade de casa não deveria ser tratada como um detalhe emocional passageiro. Ela é, muitas vezes, o centro invisível da adaptação de um jovem estudante a um país novo.
Por que a saudade bate mais forte na universidade fora do país
Ir para a universidade já é, para a maioria dos jovens, a primeira vez que se afasta da família de origem. Quando esse afastamento acontece em outro país, dois processos difíceis se sobrepõem ao mesmo tempo.
De um lado está o processo comum a qualquer calouro: aprender a estudar sozinho, lidar com prazos, construir uma rotina nova. Do outro está o processo de viver em outra cultura, outro idioma, muitas vezes outro fuso horário em relação à família.
Um estudo com 238 universitários portugueses encontrou associação direta entre a saída de casa para estudar e sintomas de ansiedade, estresse e depressão, ligados justamente ao processo de desprendimento dos pais (Vizzotto, Jesus & Martins, 2017). A saudade de casa, nesse cenário, não é comorbidade rara. É praticamente esperada.
O que costuma pesar mais na saudade de casa
. A ausência da rede de apoio que resolvia problemas práticos do dia a dia
. A falta de alguém que conheça a própria história, sem precisar explicar tudo
. O choque entre a expectativa de “aproveitar” o intercâmbio e o desconforto real de estar longe
. A dificuldade de admitir a saudade por medo de parecer ingrato pela oportunidade
Quem sente mais saudade de casa
Pesquisas sobre o tema mostram que a intensidade da saudade de casa também está relacionada a traços de personalidade. Estudantes com maior tendência ao neuroticismo relatam mais saudade do que estudantes mais extrovertidos (Ferraz & Pereira, 2002).
Isso não quer dizer que sentir muita saudade seja um problema de caráter. Significa que estudantes mais reservados, ou que dependem mais de poucos vínculos profundos, tendem a sofrer mais com a ruptura de sair de casa, porque não substituem com facilidade a rede afetiva que deixaram para trás.
O mesmo estudo também identificou mais saudade de casa entre quem precisou se mudar para longe da residência habitual, o que é justamente a realidade de quem atravessa um oceano para estudar.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitos jovens brasileiros no exterior só conseguem nomear a saudade de casa quando ela já apareceu disfarçada de outra coisa, como irritação constante, queda no rendimento acadêmico ou vontade de desistir do curso.
O peso de precisar aproveitar a oportunidade
Para muitos jovens universitários no exterior, estudar fora não foi uma escolha isolada. Envolveu investimento financeiro da família, poupança de anos, ou uma bolsa disputada com esforço. Isso cria uma pressão silenciosa: a experiência precisa valer a pena, e sentir saudade parece contradizer esse valor.
Admitir a saudade, nesse contexto, pode parecer ingratidão. Como reclamar de solidão quando a família fez sacrifícios para essa oportunidade existir? Como dizer que está difícil quando todos em casa esperam fotos de uma vida extraordinária?
Esse silêncio tem um custo. Quanto mais o jovem esconde a saudade atrás de uma imagem de sucesso, mais sozinho fica com ela.
Existe ainda um terceiro conflito, menos falado que os outros dois. É a tensão entre a vontade concreta de voltar para casa e o desejo, igualmente real, de continuar construindo uma vida independente no país novo. Os dois podem coexistir na mesma pessoa, na mesma semana, às vezes no mesmo dia. Não é contradição, é ambivalência, e reconhecer isso tira parte do peso de escolher um lado o tempo todo.
Sinais de que a pressão de "aproveitar" está pesando mais que a experiência real
. Só compartilhar em casa e nas redes as partes boas da experiência
. Sentir culpa ao admitir cansaço ou solidão para quem investiu na oportunidade
. Minimizar dificuldades reais por medo de parecer estar desperdiçando a chance
A saudade que também é amor
Existe uma leitura mais filosófica da saudade que ajuda a entender por que ela dói tanto e, ao mesmo tempo, por que não é só sofrimento. A palavra saudade não tem tradução exata em outras línguas, justamente porque une dois elementos que, em outros idiomas, aparecem separados: a lembrança e o afeto (Bertini, 2019).
Sentir saudade de casa é, de certo modo, a prova de que existia algo bom para se sentir falta. Não se sente saudade do que não importou. Por isso, para muitos jovens no exterior, a saudade de casa convive lado a lado com orgulho da própria coragem e com a alegria real das descobertas do novo país.
Reconhecer essa dupla natureza da saudade evita um erro comum: tratar tudo o que dói na experiência no exterior como sinal de que a escolha foi errada.
Quando a saudade de casa vira ansiedade
Em alguns casos, a saudade de casa deixa de ser uma emoção que vai e vem e passa a interferir diretamente na rotina. Dificuldade de concentração, insônia, isolamento social e queda no desempenho acadêmico são sinais de que a saudade ultrapassou o que seria esperado no processo de adaptação.
O mesmo estudo com universitários portugueses mostrou que, quanto mais o estudante se sente acolhido pela universidade e mais se envolve em atividades sociais, menor tende a ser a intensidade da saudade de casa (Ferraz & Pereira, 2002). O isolamento, portanto, alimenta o próprio ciclo que o estudante está tentando evitar.
Esse ponto de virada, quando a saudade some da conversa cotidiana porque o jovem já não sabe mais como falar sobre ela, costuma ser também quando ela aparece de forma mais próxima da ansiedade em quem mora no exterior.
O que isso está tentando dizer?
A saudade de casa dos jovens universitários no exterior não é um obstáculo a ser eliminado da experiência. Ela é o preço concreto de uma escolha real: sair de um lugar conhecido para construir algo novo em outro.
Quando essa saudade aparece com força, ela costuma estar dizendo duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é que existia, sim, um vínculo importante deixado para trás. A segunda é que o jovem ainda não encontrou, no país novo, pessoas ou rotinas capazes de sustentar parte do que essa rede antiga oferecia.
Entender esse recado é diferente de tentar simplesmente “superar” a saudade. É perguntar o que, especificamente, está faltando, e o que disso pode, aos poucos, ser reconstruído ali onde o jovem está agora.
Um caminho possível diante da saudade de casa
Não existe fórmula para deixar de sentir saudade, e qualquer promessa nesse sentido merece desconfiança. Mas existe diferença entre atravessar a saudade de casa em silêncio e atravessá-la com algum apoio.
Isso passa por nomear a saudade em vez de escondê-la atrás da imagem de que “está tudo incrível” no exterior. Passa também por investir, mesmo com esforço, em vínculos novos no país onde se está, sem que isso signifique abandonar os vínculos de origem.
Para muitos jovens, um espaço de escuta profissional, seja presencial ou remoto, ajuda a diferenciar a saudade que é parte natural da experiência daquela que já está pedindo mais cuidado.
Se a saudade que você sente é mais sobre deixar o Brasil como um todo, e não apenas sobre a transição para a universidade, o artigo sobre saudade do Brasil morando no exterior aprofunda essa experiência mais ampla.
Quer conversar sobre isso?
Se você é um jovem universitário no exterior e reconhece essa saudade no seu dia a dia, vale considerar uma conversa inicial gratuita de 20 minutos com Alexandre Jeremias, psicólogo, psicanalista e sexólogo que atende brasileiros no exterior. Não é uma sessão terapêutica, é um primeiro contato para entender se o acompanhamento faz sentido para o seu momento.
Perguntas frequentes
Sentir muita saudade de casa é sinal de que fiz a escolha errada de estudar fora?
Não necessariamente. A saudade de casa costuma ser proporcional ao vínculo que existia antes da mudança, não ao acerto ou erro da decisão de estudar no exterior.
Por que alguns estudantes sentem mais saudade de casa do que outros?
Estudos apontam que traços de personalidade como o neuroticismo, além da distância real do local de residência habitual, estão associados a níveis mais altos de saudade de casa em universitários.
Quando a saudade de casa deixa de ser normal e passa a ser um problema?
Quando ela vem acompanhada de isolamento social, queda significativa no rendimento acadêmico, insônia persistente ou vontade recorrente de desistir do curso, é sinal de que merece atenção e, possivelmente, acompanhamento profissional.
Saudade de casa é a mesma coisa que ansiedade?
São experiências que podem se sobrepor, mas não são idênticas. A saudade de casa é o sentimento pela ausência do que ficou para trás, enquanto a ansiedade em quem mora no exterior costuma envolver antecipação de dificuldades futuras. Muitas vezes uma alimenta a outra.
Referências
Ferraz, M. F., & Pereira, A. S. (2002). A dinâmica da personalidade e o homesickness (saudades de casa) dos jovens estudantes universitários. Psicologia, Saúde & Doenças, 3(2), 149-164.
Vizzotto, M. M., Jesus, S. N., & Martins, A. C. (2017). Saudades de casa: indicativos de depressão, ansiedade, qualidade de vida e adaptação de estudantes universitários. Revista Psicologia e Saúde, 9(1), 59-73. Disponível em: http://dx.doi.org/10.20435/pssa.v9i1.469
Bertini, F. M. A. (2019). O conceito de saudade (desiderium): a pertinência de uma tradução. Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB).











