Saúde Mental

O que é esperança?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

O que é esperança, afinal? A resposta mais fácil seria “acreditar que as coisas vão melhorar”. Mas essa definição confunde esperança com otimismo, e as duas coisas não são iguais.

A psicanalista Berta Hoffmann Azevedo, em editorial publicado no Jornal de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, lembra a inscrição que Dante colocou nos portões do Inferno em “A Divina Comédia”: “Deixai toda a esperança, ó vós que entrais”. Do lado de lá, escreve ela, estão as almas sem salvação, imersas na desesperança.

Essa imagem ajuda a entender o que é esperança por oposição: não é a ausência de dificuldade, é a possibilidade de que a dificuldade não seja eterna.

O que é esperança: mulher sorrindo ao abrir a cortina e deixar a luz entrar

O que é esperança para a psicanálise

ara a psicanálise, o que é esperança tem uma relação direta com o tempo. Azevedo observa que, sem esperança, o inferno é eterno.

A experiência do desespero mexe justamente com essa dimensão temporal. Pessoas tomadas pela desesperança não ousam sonhar projetos, não conseguem enxergar um porvir que valha a pena ser vivido, não apostam numa transformação favorável.

A esperança, segundo a autora, não se reduz à espera passiva. Ela gesta futuro. Relaciona-se com o que ainda não é, e com as cicatrizes do que já foi. Ela permite sustentar o caminhar na direção de um horizonte desejável, e nele investir e se engajar, mesmo sem garantias.

O que é esperança, segundo a psicanálise

 . Não é otimismo automático nem negação da realidade

 . Relaciona-se com o tempo: sustenta a ideia de que o sofrimento pode não ser eterno

 . Não é espera passiva, mas investimento ativo em um horizonte possível

 . Convive com as cicatrizes do que já aconteceu, sem apagá-las

 . Permite engajamento e ação, mesmo sem certeza do resultado

O que é esperança e seus riscos

Nem tudo na esperança é simples. Azevedo lembra o mito grego da caixa de Pandora, no qual a esperança aparece presa entre os males do mundo. Esperançar vulnerabiliza, escreve ela: a esperança pode ser abortada na antecipação do infortúnio, deixando a pessoa mais exposta à frustração.

Existe, porém, uma variante desse mito em que a jarra não estava cheia de males, mas de bens. Quando ela foi aberta, os bens retornaram à morada dos deuses, mas a esperança ficou conosco.

Essa ambiguidade é importante. O que é esperança não é um sentimento ingênuo, isento de risco. É, antes, uma aposta que se faz apesar do risco, não por ignorá-lo.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que sustentar a esperança, muitas vezes, exige tolerar essa vulnerabilidade, e não evitá-la. Isso está relacionado a algo já discutido em o que é frustração: tanto a esperança quanto a frustração lidam com a distância entre o que se deseja e o que de fato se tem, sem que uma anule a outra.

O que é esperança na experiência clínica

Na prática clínica, o que é esperança aparece de forma concreta na relação entre paciente e analista. Azevedo escreve que, na contratransferência, a impotência e o desespero do paciente tentam encontrar um destino elaborativo, para que o desalento não tome conta também do trabalho terapêutico.

Diante de um paciente desesperançado, sustentar algum grau de esperança, sem negar a dor real, é parte do que torna possível o trabalho de elaboração continuar.

Onde a esperança se apoia

 . No laço social e nos vínculos que sustentam a pessoa

 . Na arte e na literatura, como formas de dar sentido ao sofrimento

 . No trabalho e no investimento em projetos futuros

 . No próprio processo terapêutico, como espaço de elaboração

 . Na capacidade de tolerar incerteza sem desistir de desejar

O que isso está tentando dizer?

Quando a esperança está presente, mesmo em meio a dificuldades reais, ela costuma estar dizendo que ainda existe um horizonte para o qual vale a pena caminhar.

Quando a esperança desaparece por completo, isso pode sinalizar algo sério: uma sensação de que o tempo parou, de que o sofrimento não tem fim previsto. Essa ausência merece atenção, não deve ser tratada como fraqueza de caráter.

O que é esperança, no fundo, não é uma garantia de que tudo vai dar certo. É a possibilidade de seguir investindo em um futuro possível, mesmo sem essa garantia.

O que é esperança: mulher caminhando por uma trilha costeira ao entardecer, olhando para o horizonte

Existe um caminho possível

Sustentar o que é esperança não significa negar dificuldades nem forçar um otimismo que não existe.

Significa permitir que, mesmo diante da dor, algo continue investindo em um horizonte possível. Um espaço de escuta pode ajudar a encontrar esse fio, quando ele parece ter se perdido.

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Perguntas frequentes

O que é esperança, de forma simples?

É a capacidade de sustentar o desejo por um futuro possível, mesmo sem garantia de que ele vai se realizar. Diferente do otimismo, ela não nega as dificuldades reais.

Não. O otimismo tende a minimizar dificuldades. A esperança reconhece o sofrimento e, ainda assim, sustenta a possibilidade de que ele não seja eterno.

Porque esperançar envolve se expor à possibilidade de frustração. Investir em um futuro desejado significa correr o risco de que ele não aconteça.

Pode ser. Quando a pessoa não consegue mais imaginar um futuro diferente do presente, isso costuma indicar sofrimento importante, que merece atenção e cuidado.

Ela sustenta o trabalho de elaboração mesmo diante de dor intensa, permitindo que paciente e analista continuem investindo no processo, mesmo sem certeza do resultado.

Referências

AZEVEDO, Berta Hoffmann. Há esperança? [Editorial]. Jornal de Psicanálise, São Paulo, v. 57, n. 106, p. 15-17, 2024. Disponível em: https://www.sbpsp.org.br/wp-content/uploads/2024/09/jp-106-editorial.pdf. Acesso em: 24 set. 2026.

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