Saúde Mental

Síndrome de Burnout: quando o corpo diz basta antes da mente perceber

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Existe um tipo de cansaço que uma boa noite de sono não resolve. A pessoa acorda já esgotada, arrasta-se até o trabalho, e sente que está rendendo cada vez menos, por mais que se esforce cada vez mais. Aos poucos, o trabalho que antes fazia sentido passa a parecer vazio, e até mesmo colegas e clientes começam a ser vistos com uma distância fria, quase automática.

Esse quadro tem nome: síndrome de burnout. Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde na Classificação Internacional de Doenças (CID-11, código QD85) como um fenômeno ocupacional, não é sinônimo de estresse comum, nem de preguiça, nem de fraqueza de caráter. É uma resposta do corpo e da mente a uma exposição crônica a um trabalho que deixou de ser sustentável.

Mulher com símbolo de bateria em nível crítico sobreposto à cabeça, representando esgotamento mental

O que é a síndrome de burnout

A síndrome de burnout é definida pela psicóloga Christina Maslach, principal pesquisadora do tema, a partir de três dimensões que costumam aparecer juntas: exaustão emocional, despersonalização (uma espécie de distanciamento cínico em relação ao trabalho e às pessoas atendidas) e redução da realização pessoal, a sensação de que o próprio esforço já não produz resultado nem reconhecimento.

Uma definição harmonizada internacionalmente, publicada na Scandinavian Journal of Work, Environment & Health, reforça esse ponto: a síndrome de burnout é circunscrita ao contexto de trabalho, e não deve ser confundida com um transtorno mental que atinge todas as áreas da vida (GUSEVA CANU et al., 2021). Isso não significa que ela não afete o resto da vida da pessoa, mas que sua origem está especificamente ligada à relação com o trabalho.

Qual a diferença entre burnout, estresse comum e depressão

Uma revisão publicada na Revista de Psiquiatria Clínica ajuda a esclarecer essa fronteira. Diferente do estresse ocupacional comum, que tende a ser mais pontual e reversível quando a demanda diminui, a síndrome de burnout se instala de forma crônica, e o esforço para se recuperar dentro do próprio ambiente de trabalho deixa de funcionar (TRIGO; TENG; HALLAK, 2007).

Já a diferença em relação à depressão é sutil, mas importante. A síndrome de burnout costuma vir sem o sentimento de culpa generalizado e a baixa autoestima global típicos de um quadro depressivo, e tende a ficar restrita à esfera profissional, pelo menos no início. Ainda assim, o mesmo estudo mostra que o burnout crônico está associado a maior risco de depressão, ansiedade, uso abusivo de álcool e outras substâncias, e até ideação suicida, o que reforça que esse não é um sofrimento a ser minimizado.

A prevalência varia enormemente conforme a população estudada, entre 4% e quase 86% em determinados grupos profissionais, o que sugere que fatores de risco específicos de cada categoria e ambiente de trabalho pesam mais do que qualquer característica pessoal isolada.

Os sinais e fatores de risco por trás do esgotamento

Uma revisão da literatura brasileira, analisando 141 estudos publicados entre 2006 e 2015, mostrou que os profissionais mais estudados no país são docentes e profissionais de enfermagem, seguidos por médicos e estudantes, com maior concentração de casos entre adultos jovens (CARDOSO et al., 2017). Isso não significa que a síndrome de burnout seja exclusiva dessas profissões, mas que elas costumam reunir fatores de risco em maior intensidade.

Fatores de risco associados à síndrome de burnout

 . Organizacionais: sobrecarga de trabalho, falta de autonomia, ausência de reconhecimento

 . Individuais: perfeccionismo, dificuldade de estabelecer limites, alto nível de engajamento pessoal com a função

 . Sociais: falta de suporte de colegas e superiores, ambientes competitivos ou hostis

 . Laborais: jornadas excessivas, ambiguidade de papel, conflitos frequentes de função

Vale lembrar que a Biblioteca já discutiu essa exaustão em outro artigo, o esgotamento no trabalho, com um olhar mais voltado para a experiência subjetiva de quem chega ao limite. Este texto complementa aquele com um enfoque mais técnico: os critérios clínicos, a classificação oficial e os fatores de risco documentados pela literatura científica sobre a síndrome de burnout.

Quando o projeto de vida profissional fracassa

Um artigo brasileiro propõe um ângulo diferente, menos organizacional e mais existencial, para entender a síndrome de burnout. Usando o conceito de “projeto de ser” de Jean-Paul Sartre, os autores argumentam que o esgotamento se instala quando o profissional, fortemente engajado com um futuro que projetou através do próprio trabalho, vivencia o fracasso desse projeto de vida (CASTRO; ZANELLI, 2007).

Por essa leitura, a síndrome de burnout aparece com mais força justamente em quem se dedicou de forma intensa e significativa ao trabalho, e não em quem sempre se manteve distante ou pouco engajado. É o profissional que via no trabalho uma extensão de quem ele é, e não apenas um meio de sustento, que mais sofre quando esse sentido se esvazia.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que pacientes com síndrome de burnout costumam chegar ao consultório confusos, sem entender por que um trabalho que antes davam tudo de si passou a parecer tão vazio, quando na verdade o esgotamento é sinal de que aquele projeto de vida, tal como estava sendo sustentado, já não cabia mais na pessoa que eles se tornaram.

A síndrome de burnout em quem mora fora do Brasil

Para quem vive fora do país de origem, a síndrome de burnout pode ganhar camadas adicionais. Uma revisão sistemática publicada no International Archives of Occupational and Environmental Health, com 45 estudos analisados, identificou seis domínios principais de estresse em trabalhadores no exterior: comunicação e barreira do idioma, diferenças culturais no ambiente de trabalho, dificuldades na vida cotidiana, tensões nas relações familiares e com colegas, problemas financeiros e discriminação social (DOKI; SASAHARA; MATSUZAKI, 2018).

O mesmo estudo aponta que o suporte social é o fator mais consistente de proteção, e que problemas financeiros e discriminação são riscos pouco cobertos pelos modelos clássicos de adaptação cultural. Para o brasileiro que constrói carreira fora do país, isso significa que a síndrome de burnout pode se somar a uma sobrecarga invisível: a de precisar provar competência em um idioma e uma cultura que não são os seus, muitas vezes sem a mesma rede de apoio que teria em casa. Esse acúmulo dialoga diretamente com o que já foi discutido em ansiedade morando no exterior, embora ali o foco estivesse na ansiedade, e aqui esteja no esgotamento que vem depois dela.

O que isso está tentando dizer?

Quando o corpo e a mente entram em exaustão diante do trabalho, isso costuma estar tentando dizer que algo na relação entre a pessoa e sua função profissional deixou de ser sustentável. Não se trata, na maioria dos casos, de fraqueza pessoal, mas de um desequilíbrio entre o que é exigido e o que é oferecido de volta, seja em reconhecimento, autonomia ou sentido.

A síndrome de burnout, olhada por esse ângulo, é um sinal de alerta que o organismo dá quando o “projeto de ser” construído através do trabalho não encontra mais espaço para se realizar. Ignorar esse sinal, insistindo em continuar exatamente como antes, tende a agravar o quadro, não a resolvê-lo.

Mulher sentada no chão de um corredor, cabeça apoiada nos braços, expressão de exaustão

Existe um caminho possível?

Não existe uma fórmula única, e a recuperação raramente depende só de “descansar mais” ou “pensar positivo”. O tratamento da síndrome de burnout costuma envolver psicoterapia, e em alguns casos acompanhamento médico, além de mudanças reais nas condições de trabalho, sempre que isso for possível.

Investigar o que aquele trabalho representava, o que ele prometia e o que efetivamente entregou, ajuda a entender por que o esgotamento chegou a esse ponto. Em alguns casos, o caminho envolve reorganizar a relação com a função atual. Em outros, reconhecer que aquele projeto de vida profissional, tal como estava desenhado, precisa ser revisto por inteiro.

Um passo de cada vez, sem se cobrar a recuperação inteira agora

Se você reconheceu esse esgotamento em você, o primeiro movimento não precisa ser resolver tudo de uma vez. Pode ser, simplesmente, conversar com alguém sobre o que está pesando.

Perguntas frequentes

O que é a síndrome de burnout?

É um esgotamento físico e emocional crônico ligado ao trabalho, reconhecido pela Organização Mundial da Saúde como fenômeno ocupacional, caracterizado por exaustão, distanciamento cínico da função e queda na sensação de realização pessoal.

A CID-11 a classifica como fenômeno ocupacional, não como transtorno mental isolado. Ainda assim, ela pode estar associada a quadros como depressão e ansiedade, e exige atenção e cuidado profissional.

O estresse comum tende a ser pontual e reversível quando a demanda diminui. A síndrome de burnout é crônica, persiste mesmo com tentativas de recuperação dentro do próprio ambiente de trabalho, e costuma vir acompanhada de distanciamento emocional da função.

Estudos brasileiros apontam maior concentração em docentes, profissionais de enfermagem, médicos e estudantes, mas qualquer pessoa exposta cronicamente a fatores de risco organizacionais, individuais e sociais pode desenvolver o quadro.

Geralmente envolve psicoterapia, podendo incluir acompanhamento médico e mudanças nas condições de trabalho. O processo costuma investigar o que aquele trabalho representava na vida da pessoa, não apenas os sintomas isolados.

Referências

CARDOSO, Hélio Franklin; BAPTISTA, Makilim Nunes; SOUSA, Diego Fernando; GOULART JÚNIOR, Edward. Síndrome de burnout: análise da literatura nacional entre 2006 e 2015. Revista Psicologia: Organizações e Trabalho, v. 17, n. 2, p. 121-128, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.17652/rpot/2017.2.12796.

CASTRO, Fernando Gastal de; ZANELLI, José Carlos. Síndrome de burnout e projeto de ser. Cadernos de Psicologia Social do Trabalho, v. 10, n. 2, p. 17-33, 2007.

DOKI, Shotaro; SASAHARA, Sinichiro; MATSUZAKI, Ichiyo. Stress of working abroad: a systematic review. International Archives of Occupational and Environmental Health, v. 91, p. 767-784, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1007/s00420-018-1333-4.

GUSEVA CANU, Irina et al. Harmonized definition of occupational burnout. Scandinavian Journal of Work, Environment & Health, v. 47, n. 2, p. 95-107, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.5271/sjweh.3935.

TRIGO, Telma Ramos; TENG, Chei Tung; HALLAK, Jaime Eduardo Cecílio. Síndrome de burnout ou estafa profissional e os transtornos psiquiátricos. Revista de Psiquiatria Clínica, v. 34, n. 5, p. 223-233, 2007. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0101-60832007000500004.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Explore a Biblioteca