Reprimir emoções faz mal, mesmo que no momento pareça a atitude mais madura ou mais profissional. Segurar o choro, engolir a raiva, disfarçar o desconforto, tudo isso pode passar a impressão de autocontrole. Mas o que a pesquisa mostra é outra coisa: reprimir não é regular, é apenas adiar, com juros.
Existe uma diferença importante entre regular uma emoção e reprimi-la. Regular é conseguir sentir, reconhecer e lidar com o que se sente de um jeito que não sobrecarrega a pessoa nem quem está ao redor dela. Reprimir é empurrar a emoção para baixo do tapete, sem processá-la de verdade.
O que a pesquisa diz sobre reprimir emoções
Um estudo qualitativo com psicólogos clínicos descreve a desregulação emocional como a dificuldade de lidar com experiências problemáticas ou de processar as próprias emoções, e mostra que ela pode aparecer de duas formas opostas: pela intensificação excessiva da emoção, ou pela sua diminuição excessiva (MATOS; BOROWSKI, 2019).
É essa segunda forma que interessa aqui. Segundo as autoras, a diminuição excessiva das emoções impede o processamento emocional e caracteriza um estilo de enfrentamento baseado na esquiva, ou seja, evitar sentir em vez de lidar com o que se sente (MATOS; BOROWSKI, 2019). As emoções negativas, mesmo tendo efeitos desconfortáveis para o corpo, são descritas no mesmo estudo como necessárias para o desenvolvimento biopsicossocial da pessoa. Reprimir emoções faz mal justamente porque interrompe esse processo que deveria acontecer.
O que a pesquisa mostra sobre reprimir emoções
. Reprimir não é o mesmo que regular: reprimir evita a emoção, regular processa a emoção
. A diminuição excessiva das emoções é considerada uma forma de desregulação emocional, não de controle saudável
. Emoções negativas, mesmo desconfortáveis, cumprem uma função necessária ao desenvolvimento psíquico
. A esquiva emocional (evitar sentir) tende a se repetir como padrão automático em diferentes situações
Reprimir emoções na infância e seus efeitos mais tarde
Os riscos de reprimir emoções ficam ainda mais claros quando se observa o que acontece quando essa repressão começa cedo. Uma revisão de estudos sobre validação emocional na infância mostra que, quando crianças não expressam o que sentem, elas tendem a se isolar de outras pessoas e a desenvolver transtornos como ansiedade, depressão, condutas antissociais e transtorno obsessivo-compulsivo, entre outros distúrbios de comportamento que afetam a vida adulta (SOUZA; FERREIRA; SOUZA, 2021).
A mesma revisão aponta que a repressão emocional na infância também influencia o desempenho acadêmico, porque crianças que não sabem lidar adequadamente com tristeza, raiva, vergonha ou humilhação têm mais dificuldade em situações de aprendizagem (SOUZA; FERREIRA; SOUZA, 2021). Ou seja, reprimir emoções faz mal não só ao adulto que aprendeu a fazer isso, mas já começa a cobrar seu preço muito antes, ainda na infância.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitos adultos que reprimem emoções aprenderam esse padrão exatamente assim, em um ambiente familiar onde expressar era mais arriscado do que engolir. O corpo aprende cedo que sentir tem custo, e passa a evitar sentir para se proteger.
Por que a repressão parece funcionar no curto prazo
Se reprimir emoções faz mal, por que tanta gente continua fazendo isso? Porque, no curto prazo, funciona. Segurar a raiva numa reunião de trabalho evita um conflito imediato. Não chorar na frente de alguém evita uma exposição desconfortável. A repressão dá a sensação momentânea de estar no controle da situação.
O problema é que essa emoção não processada não desaparece, ela se acumula. E o corpo, mais cedo ou mais tarde, cobra essa conta, seja em forma de tensão física, irritabilidade fora de contexto, exaustão emocional ou, como mostram os estudos citados, em quadros mais sérios de ansiedade e depressão.
O que isso está tentando dizer?
A pergunta “reprimir emoções faz mal?” tem uma resposta baseada em evidência: sim, faz. Não porque sentir seja perigoso, mas porque não sentir, quando a emoção já está ali, impede que ela cumpra sua função e seja, finalmente, processada.
Isso não significa que toda emoção deva ser expressada sem filtro, em qualquer lugar e a qualquer momento. Significa que existe uma diferença entre escolher o momento certo de expressar algo e simplesmente negar que aquilo está sendo sentido. A primeira é regulação. A segunda é repressão, e reprimir emoções faz mal exatamente por interromper um processo que o psiquismo precisa completar.
O acompanhamento psicológico pode ajudar a identificar quando a repressão virou um padrão automático, e a construir formas mais saudáveis de processar o que se sente, sem precisar escondê-lo de si mesmo.
Dê o próximo passo
Reconhecer quando você está reprimindo, em vez de processando, o que sente é um primeiro passo importante. Se isso soou familiar, uma conversa inicial gratuita de 20 minutos pode ajudar a entender melhor esse padrão.
Perguntas frequentes
Reprimir emoções é o mesmo que ter autocontrole?
Não. Autocontrole envolve escolher o momento e a forma de expressar uma emoção. Reprimir envolve negar ou evitar que a emoção seja processada, o que a pesquisa associa a mais dificuldade de regulação emocional, não a mais controle.
Quais são os riscos de reprimir emoções na infância?
Estudos mostram que crianças que não expressam suas emoções tendem a se isolar e desenvolver transtornos como ansiedade, depressão, condutas antissociais e TOC, além de terem mais dificuldade em situações de aprendizagem.
É possível aprender a parar de reprimir emoções?
Sim. Reconhecer o padrão de repressão é o primeiro passo. Com acompanhamento psicológico, é possível desenvolver formas mais saudáveis de identificar e processar o que se sente, em vez de simplesmente evitá-lo.
Toda emoção reprimida vira um problema psicológico?
Nem sempre, mas a repressão contínua e sistemática de emoções está associada a maior risco de ansiedade, depressão e outras dificuldades emocionais, especialmente quando esse padrão começa na infância e se repete ao longo da vida.
Referências
MATOS, Marina da Silva de; BOROWSKI, Sílvia Batista Von. Vivências emocionais e estratégias de regulação emocional de psicólogos clínicos: um estudo qualitativo. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina, v. 10, n. 3, p. 160-180, dez. 2019. Disponível em: https://pepsic.scielo.org/pdf/eip/v10n3/v10n3a10.pdf. Acesso em: 25 set. 2026.
SOUZA, Joana Barbosa de; FERREIRA, Juliana Castro; SOUZA, Julio Cesar Pinto de. A importância da validação das emoções das crianças. Research, Society and Development, v. 10, n. 10, e479101018940, 2021. Disponível em: https://rsdjournal.org/rsd/article/view/18940/17044. Acesso em: 25 set. 2026.










