Há uma solidão que não aparece em quem mora só, e sim em quem divide a casa, a cama e a rotina com outra pessoa. Sentir-se sozinho no relacionamento costuma vir acompanhado de vergonha, porque parece contraditório ter companhia e, ainda assim, sentir falta de alguém. Muita gente demora a nomear essa experiência justamente por achar que não teria o direito de senti-la.
Este artigo trata dessa solidão a dois: o que a pesquisa mostra, como a psicanálise ajuda a pensá-la e o que ela pode estar dizendo sobre o vínculo. Ele faz parte da série sobre a solidão como epidemia silenciosa da vida contemporânea e não pretende oferecer um diagnóstico do seu relacionamento.
Por que alguém se sente sozinho no relacionamento?
A primeira resposta vem de uma distinção antiga. O sociólogo Robert Weiss (1973) separou a solidão social, ligada à falta de uma rede de convivência, da solidão emocional, ligada à falta de um vínculo íntimo em que a pessoa se sinta conhecida. Quem tem um parceiro pode não sofrer da primeira e viver intensamente a segunda, tema que desenvolvemos no artigo sobre solidão emocional.
Isso explica por que a presença física não resolve. A solidão diz respeito à qualidade do encontro, e não ao número de pessoas por perto, como discutimos em a diferença entre estar sozinho e sentir-se sozinho. Um casal pode conversar todos os dias sobre contas, filhos e horários e passar meses sem que um pergunte ao outro como ele realmente está.
Sinais de solidão a dois
. Evitar contar algo importante por achar que o outro não vai se interessar
. Sentir alívio quando o parceiro sai e culpa por sentir esse alívio
. Conversas restritas à logística da casa
. Sensação de estar interpretando um papel dentro da própria relação
. Procurar em amigos, no trabalho ou no celular a escuta que falta em casa
O que as pesquisas mostram
Ter um parceiro protege, em média, contra a solidão. Em levantamento do Pew Research Center nos Estados Unidos, 6% das pessoas casadas disseram sentir-se sós o tempo todo ou na maior parte do tempo, contra 17% entre divorciadas e entre as que nunca se casaram (BIALIK, 2018). A proteção existe, mas não é completa.
O mesmo levantamento mostra que a satisfação pesa mais do que o estado civil. Entre os insatisfeitos com a vida familiar, 28% relataram solidão frequente, contra 7% entre os satisfeitos. Os autores ressalvam que não é possível dizer o que causa o quê, se a insatisfação leva à solidão ou o contrário.
Estudos que acompanham casais ao longo do tempo ajudam a entender essa relação. Stokes (2017) analisou 932 casais mais velhos na Irlanda e observou que quem percebia mais aspectos negativos no casamento apresentava mais solidão dois anos depois. Já Mund e Johnson (2021) acompanharam 2.337 casais alemães por oito anos e encontraram que a solidão de um parceiro se associava a menor satisfação com a relação nos dois.
No Brasil, a pesquisa do Family Talks com a Market Analysis indicou que quatro em cada dez adultos se sentem sozinhos (FAMILY TALKS, 2026). O dado lembra que a solidão atravessa pessoas em arranjos de vida muito diferentes, incluindo quem vive acompanhado.
O que a psicanálise ajuda a pensar
Freud (1914) observou que, no enamoramento, o outro é idealizado e passa a carregar a promessa de completar o que falta. Quando a convivência desfaz essa idealização, o parceiro reaparece como alguém separado, com limites e desejos próprios. Parte da solidão a dois nasce dessa descoberta, e reconhecê-la é diferente de concluir que o amor acabou, como exploramos em amar é reconhecer faltas, não preencher vazios.
Winnicott (1958) oferece outro ângulo. Para ele, a capacidade de estar só se constrói, paradoxalmente, na presença de alguém confiável, e é ela que permite ficar em silêncio ao lado do outro sem angústia. Há casais em que esse silêncio é repouso, e outros em que ele é vivido como abandono, e a diferença raramente está na quantidade de palavras trocadas.
O mesmo autor descreveu o falso self, uma organização em que a pessoa se adapta ao que o ambiente espera e esconde o que sente (WINNICOTT, 1960). Numa relação, isso aparece quando alguém passa anos sendo agradável, compreensivo e disponível, sem jamais mostrar o que pensa. O parceiro ama alguém, mas quem está ali não se sente amado, porque sabe que não foi visto.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitas pessoas não se queixam de brigas, e sim de não terem mais a quem contar o próprio dia. A queixa costuma chegar como cansaço ou irritação, e só depois ganha o nome de solidão.
Sozinho no relacionamento e a distância do cotidiano
Nem toda solidão a dois tem raízes profundas. Sobrecarga de trabalho, filhos pequenos, luto, adoecimento e preocupações financeiras reduzem a disponibilidade de qualquer pessoa para o outro. Nesses períodos, a distância tende a ser circunstancial, embora possa se cristalizar se nunca for nomeada.
A tecnologia entra nessa conta. McDaniel e Coyne (2016) chamaram de tecnoferência as interrupções do convívio do casal por celulares, computadores e televisão. Em um estudo com 143 mulheres casadas ou em união estável, quem relatava mais interrupções também relatava mais conflito, menor satisfação com a relação e mais sintomas depressivos. O estudo é correlacional e limitado a mulheres, mas descreve uma cena reconhecível, que retomamos em redes sociais e solidão.
Distância passageira ou distância instalada?
. Passageira: tem começo identificável, como uma mudança, um nascimento ou uma fase de trabalho
. Passageira: os dois percebem e conseguem falar sobre ela
. Instalada: dura há tanto tempo que parece ser o jeito normal da relação
. Instalada: tentativas de conversa geram defesa, ironia ou silêncio
. Instalada: a pessoa deixa de esperar ser procurada
O que essa solidão pode estar dizendo
A solidão a dois nem sempre aponta para o parceiro. Às vezes ela indica uma indisponibilidade emocional de um dos lados, e às vezes revela o receio de quem sofre em se mostrar, tema do artigo intimidade assusta mais do que parece. Também pode sinalizar que se esperava do casal aquilo que amizades, trabalho e projetos próprios deveriam sustentar junto com ele.
Em outras situações, ela é o primeiro sinal de um afastamento que já começou, como descrito em quando o relacionamento esfria. Distinguir esses cenários exige tempo e escuta, e dificilmente se resolve com uma lista de sinais. Merece atenção especial a relação em que a pessoa se cala por medo da reação do outro, porque aí já não se trata apenas de distância.
O que costuma ajudar
Dizer ao parceiro “eu me sinto só aqui” é diferente de dizer “você nunca me escuta”. A primeira frase descreve uma experiência e convida à conversa, enquanto a segunda acusa e costuma produzir defesa. Encontrar essa formulação é difícil, porque expõe uma necessidade, mas é ela que dá ao outro a chance de responder.
Também ajuda recuperar momentos de atenção sem tarefa e sem tela, mesmo breves, e manter vínculos fora do casal. Nenhum parceiro dá conta de ser a única fonte de escuta de alguém. Outras orientações estão em como lidar com a solidão.
Quando procurar ajuda profissional
. A solidão dura meses e não muda com as tentativas de conversa
. Há tristeza persistente, alterações de sono ou perda de interesse
. Você já não sabe o que sente nem o que quer da relação
. O silêncio existe por medo, e não por falta de assunto
. A mesma sensação se repetiu em relações anteriores
A psicoterapia individual permite investigar o que essa solidão repete da própria história e o que pertence à relação atual. A terapia de casal pode ser indicada quando os dois reconhecem a distância e querem pensar sobre ela juntos.
A companhia que ainda pode ser construída
Sentir-se só ao lado de alguém não prova que a relação fracassou nem que a pessoa escolheu errado. Indica que algo do encontro deixou de acontecer e que isso está fazendo falta. Levar essa falta a sério, em vez de escondê-la, costuma ser o início de qualquer mudança, seja na direção de reaproximar, seja na de decidir com mais clareza.
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Perguntas frequentes
É normal se sentir sozinho mesmo estando em um relacionamento?
É uma experiência frequente. Pesquisas mostram que ter um parceiro reduz, em média, a solidão, mas não a elimina, e que a qualidade do vínculo pesa mais do que o estado civil.
Sentir-se sozinho no relacionamento significa que o amor acabou?
Não necessariamente. Pode refletir uma fase de sobrecarga, dificuldade de se mostrar, expectativas depositadas apenas no casal ou um afastamento em curso. Só a análise de cada situação permite distinguir.
Como falar com o parceiro sobre essa solidão?
Costuma funcionar melhor descrever o que se sente, como “tenho me sentido só”, do que apontar falhas do outro. Escolher um momento sem pressa e sem telas também ajuda.
O uso do celular pode aumentar a solidão do casal?
Estudos associam interrupções frequentes por tecnologia a mais conflito e menor satisfação com a relação. A associação não prova causa, mas indica que a atenção dividida merece conversa.
Quando procurar terapia?
Quando a solidão persiste por meses, vem acompanhada de tristeza ou alterações de sono, se repete em diferentes relações ou quando o silêncio existe por medo.
Referências
BIALIK, Kristen. Americans unhappy with family, social or financial life are more likely to say they feel lonely. Washington, DC: Pew Research Center, 3 dez. 2018. Disponível em: https://www.pewresearch.org/short-reads/2018/12/03/americans-unhappy-with-family-social-or-financial-life-are-more-likely-to-say-they-feel-lonely/. Acesso em: 7 out. 2026.
FAMILY TALKS; MARKET ANALYSIS. Solidão no Brasil. São Paulo: Family Talks, 2026. Disponível em: https://familytalks.org/publicacoes/noticias/quatro-a-cada-dez-brasileiros-se-sentem-sozinhos-revela-pesquisa-inedita-do-family-talks-com-market-analysis. Acesso em: 7 out. 2026.
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