Saúde Mental

A diferença entre estar sozinho e sentir-se sozinho

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Tem gente que janta em família todos os domingos e, no meio da mesa, sente uma distância que ninguém mais parece notar. E tem gente que mora sozinha há anos e raramente sente falta de companhia. Esses dois exemplos mostram algo que vale a pena examinar com cuidado: estar sozinho e sentir-se sozinho são coisas diferentes, e confundi-las costuma deixar as pessoas presas numa pergunta errada.

Este texto não vai te dizer que basta “ter mais gente por perto” para resolver a solidão, porque às vezes o problema não está aí.

homem no metrô com fones de ouvido, olhar distante, pessoas desfocadas ao redor, representando a diferença entre estar sozinho e sentir-se sozinho

Estar sozinho e sentir-se sozinho: duas medidas diferentes

Estar sozinho é uma medida objetiva. É possível contar: quantas pessoas moram na mesma casa, com que frequência alguém liga, quantos encontros existem numa semana. Sentir-se sozinho é outra medida, subjetiva, e não aparece em nenhuma contagem.

Uma revisão teórica e empírica influente sobre o tema, conduzida pelos pesquisadores Hawkley e Cacioppo, descreve exatamente essa separação: a solidão não é definida pelo número de contatos sociais que alguém tem, mas pela distância percebida entre a conexão que a pessoa deseja e a conexão que ela sente ter de fato. É essa distância, e não a quantidade de gente ao redor, que determina se alguém vai se sentir só ou não.

Isso explica por que duas pessoas na mesma situação social podem vivê-la de formas opostas. A rede de contatos pode ser idêntica, mas o que se passa por dentro de cada uma é diferente, e é esse espaço interno que decide.

Dois tipos de descompasso

 . Sozinho, mas não solitário: poucos contatos sociais, mas sensação de conexão satisfatória com quem está por perto.

 . Cercado, mas solitário: muitos contatos sociais, mas sensação de que nenhum deles alcança o que realmente importa.

 . O primeiro tipo raramente chega a um consultório pedindo ajuda. O segundo, com frequência, chega sem saber nomear o que sente.

Por que é possível se sentir só mesmo acompanhado

A psicóloga Carmona, em estudo sobre a vivência de solidão em mulheres idosas, descreve a solidão como algo que pode se instalar independentemente da presença física de outras pessoas. Já Andrade, em texto clássico sobre o tema na Abordagem Gestáltica, cunhou a expressão “multidão solitária” para descrever justamente essa experiência de estar em meio a muita gente e, ainda assim, sentir-se irremediavelmente só.

Um dos caminhos que a psicanálise oferece para entender isso passa pela história de cada vínculo. Tatit e Rosa descrevem uma hipersensibilidade possível à “ausente presença” do outro: a pessoa está ali, fisicamente, mas algo na forma como o vínculo se estabeleceu historicamente faz com que essa presença nunca seja sentida como suficiente.

Isso costuma ter raízes em padrões de apego construídos muito antes da vida adulta. Quem cresceu precisando antecipar a ausência de alguém, ou duvidando que a presença de uma figura de cuidado fosse de fato confiável, pode carregar essa mesma dúvida para dentro dos vínculos adultos, mesmo quando o parceiro, o amigo ou o familiar está genuinamente presente. Esse mecanismo é parte do que se discute, em maior profundidade, em como padrões antigos de apego entram nos vínculos do presente, e também se relaciona de perto com o medo de abandono, que pode fazer alguém vigiar o vínculo com tanta intensidade que a própria presença do outro deixa de ser sentida como segura.

Sinais de que a distância é interna, não externa

 . A sensação de solidão persiste mesmo quando a agenda social está cheia.

 . Há dificuldade em nomear o que falta, mesmo cercado de pessoas que, em teoria, deveriam preencher essa falta.

 . Existe uma vigilância constante sobre se o outro vai continuar presente, mesmo sem motivo concreto para duvidar.

 . A proximidade física não traduz, por dentro, a sensação de proximidade emocional.

E quando a solidão é mesmo sobre estar sozinho

Nem toda solidão tem uma origem tão antiga ou tão complexa. Às vezes a sensação de solidão é, de fato, sobre a ausência concreta de companhia: alguém que mudou de cidade, perdeu contato com os amigos, ou atravessa uma fase de isolamento real. Nesses casos, a resposta pode estar mais próxima do que se imagina: reconstruir vínculos de forma ativa, não apenas elaborar o que se passa por dentro.

A diferença entre os dois casos não é sempre óbvia à primeira vista, e é justamente por isso que vale a pena observar com atenção: a solidão pede respostas diferentes dependendo de onde ela realmente mora, se é na distância física ou na distância emocional, ou nas duas ao mesmo tempo.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que grande parte das pessoas que relatam solidão intensa não estão, de fato, isoladas socialmente. Estão cercadas, mas sentem que ninguém, de fato, as alcança, o que muda completamente o tipo de cuidado necessário.

O que isso está tentando nos dizer

Talvez a pergunta mais honesta não seja “por que estou sozinho”, mas “o que, dentro de mim, torna tão difícil sentir a presença de quem já está aqui”. Essa pergunta não tem resposta simples, e não precisa ter.

O que ela permite é parar de buscar mais gente como solução automática, e começar a olhar para o próprio modo de se vincular, que pode estar repetindo, sem que a pessoa perceba, uma distância aprendida muito antes de qualquer relação atual.

Quando a companhia não chega a ser sentida como suficiente

Se você reconhece, nesse texto, uma sensação de solidão que não desaparece nem quando há gente por perto, talvez o que precise de atenção não seja a sua agenda social, mas a forma como você aprendeu a se vincular.

Esse é exatamente o tipo de pergunta que um espaço de escuta pode ajudar a elaborar.

Alexandre Jeremias oferece uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para quem quiser começar essa conversa.

Perguntas frequentes

É normal se sentir sozinho mesmo rodeado de pessoas?

Sim. A solidão não depende apenas do número de pessoas por perto, mas da sensação de conexão real com elas. É possível estar cercado e, ainda assim, sentir uma distância emocional significativa.

Porque a solidão é subjetiva. Quando a pessoa sente que tem conexões satisfatórias, mesmo que poucas, a ausência de companhia constante não costuma gerar sofrimento.

É uma expressão usada na literatura psicológica para descrever a sensação de solidão vivida em meio a muita gente, quando a presença física de outros não é acompanhada de conexão emocional real.

Em muitos casos, sim. Padrões de apego construídos na infância podem influenciar a dificuldade de sentir a presença do outro como suficiente ou confiável na vida adulta.

Quando a sensação de solidão persiste mesmo com vínculos presentes, ou quando atrapalha a capacidade de sentir proximidade real com pessoas importantes, pode valer a pena conversar com um profissional.

Referências

ANDRADE, A. N. Solidão: existencial, emocional e isolamento. Revista da Abordagem Gestáltica, 2006.

CARMONA, C. F.; COUTO, V. V. D.; SCORSOLINI-COMIN, F. Rede de apoio social e vivência da solidão em idosas. Psicologia em Estudo, v. 19, n. 1, p. 107-117, 2014.

HAWKLEY, L. C.; CACIOPPO, J. T. Loneliness matters: a theoretical and empirical review of consequences and mechanisms. Annals of Behavioral Medicine, v. 40, n. 2, p. 218-227, 2010.

TATIT, A. C.; ROSA, M. D. Solidão: uma leitura psicanalítica. Revista Psicologia e Saúde, 2013.

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