Saúde Mental

Trauma e relacionamentos: quando o passado entra nos vínculos do presente

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Amar alguém implica se aproximar. E aproximação, para quem já viveu abandono, violência ou negligência, pode ser desejada e assustadora ao mesmo tempo. A vontade de confiar convive com a desconfiança de que a proximidade, mais cedo ou mais tarde, vai doer de novo.

É aí que trauma e relacionamentos se encontram. Não porque toda relação difícil tenha origem em trauma, nem porque quem carrega uma história dolorosa esteja fadado a repeti-la. O encontro acontece porque amar depende de proximidade, confiança e a possibilidade real de perda, e é justamente isso que um trauma antigo ensinou o corpo a temer.

Quem viveu rejeição ou humilhação pode querer amor e, ao mesmo tempo, desconfiar dele. Pode desejar intimidade e se afastar assim que ela aparece. Pode precisar de confirmação constante e sentir vergonha dessa mesma necessidade.

Trauma e relacionamentos: mulher acordada ao lado do parceiro que dorme tranquilo, sua sombra na parede projetada em posição de alerta

Trauma e relacionamentos: o que esse encontro revela

Nada disso significa que pessoas com histórico de trauma sejam difíceis, manipuladoras ou incapazes de construir vínculos saudáveis. Significa que algumas experiências ensinaram o sistema emocional a se proteger de perigos que já passaram, e essa proteção às vezes continua ativa mesmo quando o presente é mais seguro do que o passado foi.

A teoria do apego ajuda a entender por que relações próximas ativam, ao mesmo tempo, conforto e medo. Em um vínculo seguro, a pessoa consegue pedir apoio, expressar necessidades e tolerar separações temporárias sem sentir que a relação deixou de existir. Quando o apego é inseguro, essa tolerância fica mais frágil.

Uma revisão sistemática que reuniu 21 estudos sobre apego adulto e sintomas pós-traumáticos encontrou associação consistente entre apego inseguro e maior intensidade desses sintomas, sobretudo quando o trauma tem origem interpessoal, como abuso ou violência dentro de uma relação (BARAZZONE et al., 2018). O tipo de apego evitativo tende a se associar a minimização e a dificuldade de reconhecer o próprio sofrimento; o apego ansioso, a hipervigilância e emoção intensificada diante de qualquer sinal de distância.

Crenças que nasceram como sobrevivência

 . “Se eu depender de alguém, vou me machucar”

 . “Se eu não agradar, serei abandonado”

 . “Não posso relaxar, algo ruim vai acontecer”

 . “É melhor ir embora antes que me deixem”

 . Essas frases fizeram sentido em algum momento do passado. O problema é quando continuam comandando reações num presente mais seguro.

Como o trauma aparece dentro do vínculo

O trauma raramente aparece como lembrança nítida dentro de uma relação. Na maioria das vezes, ele se manifesta na forma como a pessoa reage a silêncio, proximidade, crítica, limite ou conflito.

Tabela sobre Trauma e realcionamentos: Situação no presente e Resposta possível ligada ao passado

Essa tabela não serve para diagnosticar ninguém à distância. A mesma reação pode ter causas bem diferentes: cansaço, ansiedade, incompatibilidade real do casal, ou uma memória emocional que o presente sem querer tocou. Em vez de perguntar apenas “por que você reagiu assim”, às vezes ajuda mais perguntar o que aquela situação fez a pessoa sentir que estava prestes a perder.

Susan Johnson, criadora da Terapia Focada nas Emoções, descreve algo parecido como o “ciclo negativo de apego”: um protesto encontra um afastamento, o afastamento intensifica o protesto, e o casal fica preso numa dança repetitiva sem que nenhum dos dois consiga nomear o medo que a sustenta (JOHNSON, 2025). Quando um dos dois carrega trauma de uma figura de apego anterior, seus sinais de necessidade tendem a aparecer distorcidos, como agressão defensiva ou retraimento, o que torna ainda mais difícil para o parceiro lê-los como pedido de cuidado.

Quando o vínculo repete o que feriu

Em alguns casos, o padrão não é só reatividade emocional. É o próprio vínculo que se organiza em torno de ciclos de tensão, explosão e reconciliação, no que a literatura chama de trauma bonding: um apego disfuncional construído em episódios repetidos de abuso intermitente, em que momentos de agressão alternam com momentos de carinho intenso (SANTOS; SOUZA, 2023).

Esse padrão de tensão e reconciliação também aparece descrito, sob outro ângulo, em quando o medo da traição organiza o vínculo, quando a desconfiança passa a comandar a relação mesmo sem motivo concreto no presente.

Esse tipo de vínculo se sustenta por mecanismos como negação, identificação com quem causa a dor, isolamento social crescente e a sensação, difícil de admitir, de que sair seria pior do que ficar. Uma pesquisa qualitativa com mulheres em relações marcadas por apego inseguro identificou o mesmo núcleo: dedicação excessiva ao parceiro, medo constante de perder o outro e dificuldade real de encerrar vínculos que fazem sofrer (FONSECA, 2021).

Isso também atravessa relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo, muitas vezes com uma camada a mais. Um levantamento com casais gays e lésbicos encontrou violência psicológica relatada por praticamente toda a amostra de vítimas, e apontou a homofobia internalizada e o medo de expor a própria orientação sexual, o chamado duplo armário, como barreiras adicionais para pedir ajuda (OSÓRIO; SANI; SOEIRO, 2020). Esse recorte merece um espaço próprio, que este texto não pretende esgotar, mas ele precisa ser dito aqui: trauma relacional não escolhe orientação sexual, e o silêncio em torno dele pode ser ainda mais difícil de romper quando somado ao medo de julgamento.

Trauma explica, nunca justifica

 . Uma história de trauma pode tornar alguém mais vulnerável a relações abusivas, como vítima

 . Trauma não explica nem desculpa violência de quem agride

 . Ninguém é responsável por ser agredido, controlado ou humilhado

 . Quem agride é responsável por interromper o comportamento e buscar ajuda especializada

O que pode ajudar a reparar

Um relacionamento não substitui tratamento, rede de apoio ou proteção quando há violência real. Mas vínculos respeitosos podem oferecer algo que o trauma corroeu: a experiência repetida de que proximidade não precisa doer.

Isso costuma incluir previsibilidade entre palavra e ação, espaço para falar de necessidades sem punição, capacidade de reparar conflitos e pedir desculpas de verdade, e liberdade para manter amizades, família e interesses próprios fora do casal. Também inclui algo simples de descrever e difícil de praticar: não usar o que o outro revelou num momento de vulnerabilidade como munição num conflito futuro.

Compreender a reação de alguém que já viveu medo de abandono não significa aceitar qualquer comportamento em nome dessa compreensão. Acolhimento e limite podem, e precisam, existir juntos.

Trauma e relacionamentos: casal se abraça enquanto uma mão permanece apoiada no peito do parceiro, criando uma pequena distância protetora

O que isso está tentando dizer?

Quando uma reação parece desproporcional dentro de uma relação, ela quase sempre está tentando dizer algo sobre o que aquela pessoa já teve que sobreviver sozinha.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que o medo de ser deixado raramente nasce na relação atual. Ele chega já formado, construído em experiências anteriores de rejeição ou de cuidado que faltou, e a relação presente é apenas o palco onde ele volta a se manifestar.

Reconhecer isso não é uma forma de explicar tudo, nem de transferir a responsabilidade de uma reação para o passado. É uma forma de fazer, antes de reagir, uma pergunta diferente: isso que estou sentindo agora pertence inteiramente a esta relação, ou parte dele veio de antes dela?

O passado não decide o destino do vínculo

Trauma pode aumentar vulnerabilidades dentro de uma relação, mas não transforma ninguém, automaticamente, em alguém incapaz de amar ou de ser amado de volta. Histórias difíceis moldam expectativas e estratégias de sobrevivência, não sentenças.

Relações seguras, apoio social e psicoterapia podem ajudar a transformar o que antes era necessário para sobreviver em formas mais livres de se vincular. Isso vale para quem carrega a ferida, e também para quem está ao lado de alguém que carrega. Diferente de um trauma amoroso ligado à perda e ao luto de um término, o que está em jogo aqui é o vínculo que continua, e a possibilidade real de que ele se torne, aos poucos, um lugar mais seguro do que o passado foi.

Quando a prioridade é segurança, não terapia de casal

 . Se há medo, ameaça, perseguição, controle coercitivo ou violência física, psicológica ou sexual, a prioridade é segurança, não reconciliação

 . No Brasil, violência contra mulheres pode ser comunicada ao 180

 . Violações de direitos humanos podem ser comunicadas ao Disque 100

 . Emergências médicas são atendidas pelo SAMU, 192

 . Em crise emocional ou risco de suicídio, o CVV atende pelo 188

Nem toda reação pertence só à relação atual

Entender de onde vem uma reação intensa é diferente de saber o que fazer com ela no dia a dia. Às vezes esse entendimento pede um espaço além da própria relação, onde seja possível olhar para essa história com calma.

Se você reconheceu, neste texto, um padrão que se repete nos seus vínculos, talvez valha a pena conversar sobre isso.

Perguntas frequentes

Trauma sempre explica dificuldades em um relacionamento?

Não necessariamente. Nem todo conflito de casal tem origem em trauma, e nem toda pessoa com histórico traumático terá dificuldades amorosas. O trauma é um fator entre vários, não uma explicação automática.

Não. Trauma pode aumentar vulnerabilidade, mas não determina destino. Relações seguras, apoio social e psicoterapia podem mudar padrões que antes pareciam repetitivos.

Não. Trauma bonding é um vínculo disfuncional formado por ciclos de abuso intermitente, alternando agressão e reconciliação. A intensidade dessa dinâmica não é sinal de amor profundo, é sinal de um padrão que costuma exigir ajuda profissional para ser rompido.

Não. Trauma pode explicar parte da vulnerabilidade de quem sofre violência, mas nunca justifica quem agride. A responsabilidade por interromper um comportamento violento é sempre de quem o pratica.

Sim. Muitas pessoas com histórico de trauma constroem relações seguras e satisfatórias, especialmente quando encontram vínculos previsíveis, respeitosos e, quando necessário, apoio terapêutico.

Referências

BARAZZONE, Natalie; SANTOS, Ines; MCGOWAN, John; DONAGHAY-SPIRE, Eloise. The links between adult attachment and post-traumatic stress: a systematic review. Psychology and Psychotherapy: Theory, Research and Practice, 2018. DOI: 10.1111/papt.12181.

FONSECA, Thalita Cantalice Galvão. Dependência afetiva, traumas e apego inseguro em mulheres nas relações amorosas. 2021. Dissertação (Mestrado Profissional em Psicologia da Saúde), Faculdade Pernambucana de Saúde, Recife, 2021.

JOHNSON, Susan M. Teoria do apego na prática: terapia focada nas emoções com indivíduos, casais e famílias. Porto Alegre: Artmed, 2025.

OSÓRIO, Lúcia; SANI, Ana; SOEIRO, Cristina. Violência na intimidade nos relacionamentos homossexuais gays e lésbicos. Psicologia & Sociedade, v. 32, e170358, 2020. DOI: 10.1590/1807-0310/2020v32170358.

SANTOS, Aline Araújo dos; SOUZA, Júlio César Pinto de. Trauma bonding: os fatores psicossociais ligados aos vínculos amorosos abusivos. Revista Psicologia e Saúde em Debate, v. 9, n. 2, p. 909-921, 2023. DOI: 10.22289/2446-922X.V9N2A52.

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