Saúde Mental

A solidão é normal?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Às vezes ela aparece sem aviso. No meio de um dia comum, numa data especial, depois de uma conversa que deveria ter bastado e não bastou. E logo em seguida vem a pergunta que costuma doer mais do que a própria sensação: será que tem algo errado comigo, por sentir isso?

Se você chegou até aqui se perguntando isso, vale dizer com clareza, desde já: a solidão é normal, em boa parte das vezes em que aparece. E essa resposta, por mais simples que pareça, pode aliviar um peso que você talvez estivesse carregando sozinho há tempo.

homem sentado sozinho em cadeira à beira da água ao entardecer, com uma cadeira vazia ao lado, representando a pergunta se a solidão é normal

A solidão é normal: o que a pesquisa confirma

Um estudo de grande porte com a população geral alemã, publicado na revista BMC Psychiatry pelos pesquisadores Beutel e colaboradores, encontrou que sentir solidão em algum grau é uma experiência amplamente distribuída na população, não restrita a grupos específicos ou a quadros clínicos. A intensidade e a frequência variam, mas a experiência em si, sentir-se só de vez em quando, está longe de ser rara ou excepcional.

Isso significa algo importante: se você sente solidão às vezes, você não está sozinho nisso, por mais irônico que pareça. Você está vivendo algo profundamente humano, compartilhado por muita gente que, como você, talvez também ache que deveria estar “melhor resolvida” com isso.

Sinais de que sua solidão está dentro do esperado

 . Ela vai e volta, não é constante ao longo do tempo.

 . Costuma ter um gatilho reconhecível: uma mudança, uma ausência, uma data, uma fase de transição.

 . Não te impede de funcionar no dia a dia, mesmo incomodando.

 . Melhora, ainda que aos poucos, quando você se permite buscar companhia ou reflexão sobre ela.

Por que, mesmo normal, a solidão costuma vir com vergonha

Se a solidão é tão comum, por que parece tão difícil admitir que se sente ela? A psicanalista brasileira Ana Suy aponta um caminho possível: vivemos numa cultura que valoriza a autossuficiência quase como obrigação, e nesse contexto, admitir solidão pode soar como admitir fracasso em alguma coisa, no amor, nas amizades, na vida social.

Tatit e Rosa, numa leitura psicanalítica sobre o tema, descrevem como o discurso contemporâneo tende a tratar a solidão como algo a ser escondido ou rapidamente resolvido, raramente como algo que pode simplesmente ser sentido, nomeado e atravessado. Essa pressão silenciosa é parte do motivo pelo qual tanta gente sofre em dobro: sofre com a solidão, e sofre também por achar que não deveria estar sentindo isso.

Esse padrão se parece com outro bem conhecido na clínica: a vergonha que costuma acompanhar a tristeza comum, como se sentir triste também precisasse de justificativa. Da mesma forma que nem toda tristeza é depressão, nem toda solidão é sinal de algo errado, embora ambas mereçam ser escutadas, não escondidas.

O que diferencia solidão esperada de solidão que pede atenção

 . Esperada: pontual, ligada a um contexto específico, convive com momentos de bem-estar.

 . Pede atenção: persistente, presente na maior parte dos dias, já dura semanas ou meses.

 . Esperada: você consegue, mesmo que com esforço, buscar companhia ou conversa sobre isso.

 . Pede atenção: há um movimento de se afastar ainda mais quando a solidão aparece.

Quando a solidão normal pede, mesmo assim, uma conversa

Dizer que a solidão é normal não significa que ela deva ser ignorada. Às vezes, mesmo sendo uma reação esperada a uma circunstância da vida, ela guarda algo que vale a pena entender melhor: por que essa situação específica mexeu tanto, por que esse vínculo em particular deixou essa marca, por que esse momento trouxe à tona uma sensação tão antiga.

Esse tipo de solidão tem relação próxima com o que a psicologia descreve com mais precisão como emoção da solidão, um sentimento específico que merece ser olhado de perto, não só suportado em silêncio. Ela também pode se intensificar depois de experiências de rejeição, mesmo quando a rejeição em si já ficou para trás.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitas pessoas chegam achando que precisam justificar por que sentem solidão, como se fosse necessário provar que o sentimento é “legítimo” antes de poder falar sobre ele. Não precisa. A solidão não pede licença para aparecer, e também não precisa de permissão para ser dita em voz alta.

O que isso está tentando nos dizer

Talvez o mais importante, depois de entender que a solidão é normal, seja parar de gastar energia tentando provar que ela não deveria estar ali. Essa energia pode ser usada de um jeito mais generoso: para entender o que ela está pedindo, quem ela está nomeando falta, que vínculo ela está apontando.

Normal não significa sem importância. Saber que a solidão é normal não apaga o que ela pede, só tira o peso extra de ter que justificar por que você sente. Significa apenas que você não está quebrado por sentir isso. E essa diferença, sutil, muda bastante como se caminha a partir daqui.

Você não precisa justificar o que sente para poder falar sobre isso

Se você reconheceu, neste texto, uma solidão que sente de vez em quando e que carrega em silêncio, talvez valha a pena simplesmente dizer isso em voz alta, para alguém, sem precisar provar que é legítimo sentir.

Alexandre Jeremias oferece uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para quem quiser dar esse primeiro passo.

Perguntas frequentes

É normal sentir solidão mesmo tendo amigos e família?

Sim. A solidão não depende só de quantas pessoas você tem por perto, mas de como você sente essa companhia em momentos específicos. É possível ter vínculos e, ainda assim, sentir solidão pontualmente.

Não existe um número fixo. O que importa é observar se ela é pontual e ligada a um contexto, ou se está presente na maior parte dos dias, de forma persistente.

Não. Pesquisas com a população geral mostram que sentir solidão em algum grau é uma experiência amplamente comum, não restrita a quadros clínicos ou a falhas pessoais.

Vivemos numa cultura que valoriza a autossuficiência, o que pode fazer com que admitir solidão pareça um fracasso. Mas nomear esse sentimento é, na verdade, um passo saudável.

Quando ela deixa de ser pontual e passa a ser persistente, ou quando vem acompanhada de outros sinais de sofrimento, como desânimo constante ou isolamento crescente.

Referências

BEUTEL, M. E. et al. Loneliness in the general population: prevalence, determinants and relations to mental health. BMC Psychiatry, v. 17, artigo 97, 2017

SUY, A. A gente mira no amor e acerta na solidão. São Paulo: Planeta, 2022.

TATIT, A. C.; ROSA, M. D. Solidão: uma leitura psicanalítica. Revista Psicologia e Saúde, 2013.

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