Irlanda

Quando a família no Brasil precisa de você e você está na Irlanda

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Você acorda na Irlanda e encontra várias mensagens da família. Seu pai passou mal durante a noite e foi levado ao hospital. Você liga, pede detalhes, tenta compreender o que aconteceu. Pouco depois, precisa sair para trabalhar. Enquanto as pessoas ao seu redor seguem conversando sobre o dia, você espera uma atualização do Brasil.

Nessas horas, a distância deixa de ser apenas saudade. Ela aparece na impossibilidade de acompanhar uma consulta, abraçar alguém ou perceber pessoalmente como a situação está. Junto da preocupação, surge a culpa de estar longe da família, muitas vezes acompanhada de uma pergunta dolorosa: “estou abandonando quem eu amo por estar aqui?”.

Esse sentimento é mais agudo e situacional do que o já descrito em culpa de quem mora fora, que trata do peso mais geral de ter migrado. Aqui, a culpa nasce de um momento concreto de necessidade, não da decisão de ter saído em si.

Homem pronto para sair para o trabalho, olhando o celular à mesa da cozinha, cena que ilustra a culpa de estar longe da família ao esperar notícias do Brasil

Quando o medo encontra a distância

Uma notícia de doença pode despertar o receio de que algo aconteça antes que você consiga chegar. Você pensa em passagens, imagina cenários, procura informações que ajudem a decidir o que fazer.

Quando as respostas demoram ou chegam incompletas, a espera pode ocupar todo o dia. O telefone fica por perto, o sono é interrompido, concentrar-se no trabalho exige mais esforço. É difícil tolerar a incerteza quando alguém importante está sofrendo. Por isso, combinar quem vai atualizar você e em quais momentos pode ajudar a organizar a comunicação, conforme as possibilidades da família.

"Eu deveria estar lá": a culpa de estar longe da família ganha forma

A culpa pode transformar o desejo de estar perto em uma obrigação sem limites. Você começa a revisar a decisão de ter saído do Brasil, como se morar na Irlanda explicasse tudo o que não consegue oferecer agora.

A psicanalista Melanie Klein descreveu a culpa como um sentimento ligado ao medo de ter falhado com quem se ama, mesmo quando não houve falha real, e ao desejo de reparar esse dano, às vezes de forma desproporcional à situação. Talvez você pense nos cuidados que recebeu dos seus pais e sinta que chegou sua vez de retribuir. Talvez já ocupasse, antes de emigrar, o lugar de quem resolvia problemas e sustentava os demais.

Diferença entre cuidado real e cobrança sem limite

 . Cuidado real: buscar médicos, ajudar com despesas, se manter informado, estar presente quando possível.

 . Cobrança sem limite: exigir de si uma presença física constante, mesmo quando ela não está disponível, e se tratar como ausente mesmo estando profundamente envolvido.

Cuidar pelo telefone também exige esforço

À distância, você procura médicos, ajuda com despesas, organiza documentos e conversa com quem está acompanhando presencialmente. Pode se tornar a pessoa que recebe todas as informações e tenta encontrar soluções.

Mesmo assim, sente que faz pouco porque não está no hospital ou na casa da família. Um levantamento publicado na Journal of Family and Economic Issues, que reuniu estudos sobre cuidado familiar transnacional, descreve como esse tipo de cuidado à distância é real e exigente, mas costuma ser menos reconhecido, inclusive pela própria pessoa que o exerce, do que o cuidado presencial.

Vale reconhecer o cuidado que você oferece e também seus limites. Há tarefas que podem ser feitas de longe e outras que precisam de alguém no Brasil.

Quando viajar envolve escolhas difíceis

Comprar uma passagem pode exigir dinheiro que você não tem disponível, negociação no trabalho e reorganização da sua vida na Irlanda. Você pode desejar voltar imediatamente e precisar de tempo para tornar a viagem possível.

Compreender as necessidades concretas, conversar com quem acompanha o caso e avaliar suas condições ajuda a pensar na viagem. A decisão precisa considerar o que é possível, mesmo quando o desejo seria estar presente sem nenhuma restrição, uma tensão que também aparece, de outra forma, em luto migratório, quando a distância impede uma despedida ou um acompanhamento esperado.

A culpa também aparece nos momentos bons

Nem sempre é uma emergência que desperta esse conflito. Um aniversário, o nascimento de um sobrinho, uma reunião de família podem lembrar tudo aquilo de que você gostaria de participar.

Você olha as fotografias e sente alegria, mas também tristeza por estar ausente. Permitir que sua vida continue, descansar, trabalhar e preservar seus vínculos na Irlanda, ajuda a sustentar você durante um período de preocupação, em vez de drenar ainda mais sua energia.

Quem cuida de você enquanto você tenta cuidar?

As conversas familiares podem girar inteiramente em torno de quem está doente ou precisa de ajuda. Você pergunta, organiza, tranquiliza, mas talvez ninguém perceba como está vivendo aquela situação.

Existe alguém com quem você consegue falar sobre seu medo? Pode admitir que está cansado? O psicanalista John Bowlby descreveu como, em momentos de ameaça, o próprio sistema de apego da pessoa que cuida também precisa de uma base segura, e não só a pessoa que está sendo cuidada.

O que isso está tentando dizer?

Talvez a pergunta mais útil não seja “por que estou tão mal se já estou adaptado?”, mas “o que da culpa de estar longe da família é cuidado real, e o que é uma cobrança que eu mesmo sustento sem limite?”.

Essas perguntas ajudam a diferenciar responsabilidades concretas de exigências que não encontram um fim. Você pode amar sua família, participar dos cuidados e ainda sentir tristeza por aquilo que a distância impede.

Cuidar à distância também é cuidar

Quando a família no Brasil precisa de você, morar na Irlanda pode trazer a sensação de estar dividido entre duas vidas. Há necessidades reais a atender e sentimentos que também merecem cuidado, sem que um apague o outro.

Um espaço para pensar sobre essa divisão entre cuidar de longe e cuidar de si

Se a culpa e a preocupação têm afetado seu sono, seu trabalho ou sua capacidade de descansar, conversar sobre essa experiência pode ajudar a reconhecer seus limites e pensar nas escolhas possíveis. Alexandre Jeremias atende brasileiros que vivem na Irlanda por meio de terapia online em português. Agende uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.

Perguntas frequentes

A culpa de estar longe da família é sempre desproporcional?

Nem sempre. Parte dela reflete um cuidado genuíno e um desejo real de ajudar. O problema aparece quando essa culpa se transforma em cobrança sem limite, ignorando o que de fato é possível fazer à distância.

Combinar com quem está presencialmente no Brasil quem recebe as informações médicas, quem decide sobre tratamentos e como as despesas são divididas ajuda a reduzir mal-entendidos e sobrecarga de uma única pessoa.

Sim. Datas importantes e conquistas familiares vividas à distância também podem reativar a sensação de estar ausente, mesmo quando não há nenhuma crise em curso.

Quando ela deixa de ser uma tristeza pontual e passa a comprometer o sono, o trabalho ou a capacidade de cuidar de si mesmo, mesmo nos períodos sem nenhuma emergência familiar.

Referências

Bowlby, John. Formação e rompimento dos laços afetivos. Martins Fontes, 1997.

Caregiving Across International Borders: a Systematic Review of Literature on Transnational Carer-Employees. Journal of Family and Economic Issues, 2021.

Klein, Melanie. Inveja e gratidão e outros trabalhos. Imago, 1991.

Este artigo foi escrito com base na experiência clínica de Alexandre Jeremias, psicólogo, psicanalista e sexólogo, que atende brasileiros no Brasil e no exterior, incluindo pacientes na Irlanda. O conteúdo reflete observações recorrentes da prática clínica e não substitui uma avaliação individual, este texto tem finalidade informativa e não representa diagnóstico ou tratamento à distância.

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