Muitas pessoas convivem com a solidão por anos antes de considerar que ela possa ser tratada. Há quem ache que solidão se resolve apenas saindo mais de casa, e quem sinta vergonha de levar ao consultório uma dor que parece pequena demais ou constrangedora demais. A terapia para solidão existe justamente para esse sofrimento que não encontra lugar para ser dito.
Este artigo explica quando vale procurar ajuda, o que as pesquisas mostram sobre o tratamento e como a psicanálise trabalha a experiência de estar só. Ele fecha um percurso da série sobre a solidão como epidemia silenciosa da vida contemporânea.
Quando a terapia para solidão é indicada
Sentir-se só em alguns momentos faz parte da vida, como discutimos em a solidão é normal?. A solidão pede atenção quando deixa de ser passageira, ocupa grande parte dos dias e passa a organizar as escolhas da pessoa, como evitar convites, desistir de encontros ou deixar de procurar quem antes era próximo.
A literatura científica descreve um mecanismo que ajuda a entender por que essa situação tende a se manter. Cacioppo e Hawkley (2009) mostraram que a solidão prolongada aumenta a vigilância para sinais de rejeição: a pessoa passa a interpretar silêncios, atrasos e gestos neutros como desinteresse. Isso leva a mais retraimento, o que confirma a sensação de estar só e fecha um ciclo difícil de romper sem ajuda.
Sinais de que vale procurar terapia
. A solidão dura meses e não muda, mesmo com tentativas de se aproximar das pessoas
. Há tristeza persistente, ansiedade, alterações de sono ou de apetite
. Você evita contato por medo de rejeição ou de incomodar
. A sensação de não ser compreendido se repete em diferentes relações
. Uma perda, mudança ou separação deixou um vazio que não diminui
. Você se sente só mesmo cercado de pessoas ou dentro de um relacionamento
Quando a solidão vem acompanhada de outros quadros, a busca por ajuda se torna ainda mais importante. Abordamos essas relações em solidão e depressão, solidão e ansiedade e sintomas físicos da solidão.
O que as pesquisas mostram sobre o tratamento
Uma metanálise de 50 estudos comparou quatro tipos de intervenção para a solidão: treinar habilidades sociais, ampliar o apoio social, aumentar as oportunidades de contato e trabalhar as formas distorcidas de perceber as relações (MASI et al., 2011). Entre os estudos randomizados, as intervenções mais eficazes foram as que atuavam na forma como a pessoa interpreta os vínculos, e não apenas na quantidade de contatos.
Uma revisão mais recente reuniu 28 ensaios clínicos com mais de 3 mil participantes e concluiu que as intervenções psicológicas para a solidão são eficazes ao longo da vida, com efeito de pequeno a moderado (HICKIN et al., 2021). Os autores observaram grande variação entre os estudos e recomendaram investigar o que funciona para cada pessoa, em vez de buscar uma receita única.
Esses resultados ajudam a desfazer uma ideia comum: a de que a solidão se resolve apenas com mais companhia. Como discutimos em solidão emocional, é possível estar cercado de gente e continuar só, porque o que falta muitas vezes é a experiência de ser visto e compreendido.
No campo psicanalítico, Shedler (2010) revisou estudos sobre a eficácia da psicoterapia psicodinâmica e encontrou efeitos comparáveis aos de outras abordagens, com benefícios que tendem a se manter e até a crescer depois do fim do tratamento.
Como funciona a terapia para solidão na psicanálise
A psicanalista Frieda Fromm-Reichmann (1959) observou que a solidão profunda é uma das experiências mais difíceis de comunicar. Segundo ela, as pessoas evitam falar sobre o tema, e até os próprios terapeutas tendem a se afastar dele, porque tocar nessa dor desperta a solidão de quem escuta. Um primeiro passo do tratamento, portanto, é tornar dizível aquilo que costuma ficar em silêncio.
Freud (1912) mostrou que, na relação com o analista, a pessoa repete os modos de se vincular que construiu ao longo da vida, fenômeno que chamou de transferência. Na terapia para solidão, isso pode aparecer como o receio de incomodar, a expectativa de ser abandonado ou a dificuldade de pedir algo. Em vez de serem apenas vividos, esses padrões podem ser percebidos e pensados junto com o terapeuta.
Winnicott (1958) acrescenta uma ideia central: a capacidade de estar só se desenvolve na presença de alguém confiável. O consultório pode funcionar como esse lugar, em que a pessoa experimenta estar acompanhada sem precisar agradar, render ou se esconder. Com o tempo, isso muda a forma como ela se relaciona fora dali, e estar só pode deixar de ser vivido como abandono, aproximando-se do que discutimos em solidão ou solitude.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitas pessoas chegam falando de ansiedade, cansaço ou dificuldades no trabalho, e só depois de algumas sessões conseguem nomear a solidão como parte central do que sentem.
O que a terapia não promete
. Não substitui amizades, família ou vínculos fora do consultório
. Não oferece técnicas para ficar popular ou fazer amigos rapidamente
. Não elimina toda experiência de estar só, que faz parte da vida
. Não funciona como conselho pronto sobre como viver
Terapia presencial ou online
As duas modalidades podem ser eficazes, e a escolha depende da rotina, do lugar onde a pessoa vive e de onde ela se sente mais à vontade para falar. Para brasileiros que moram fora, a terapia online em português costuma ser decisiva, porque permite falar da própria experiência na língua em que ela foi vivida. Tratamos desse tema em psicólogo brasileiro online e em quando procurar psicólogo morando fora.
Como dar o primeiro passo
. Procure um profissional com registro no Conselho Regional de Psicologia
. Use a primeira conversa para perguntar sobre abordagem, frequência e valores
. Leve a queixa como ela é, mesmo que pareça pequena ou difusa
. Observe se você se sente escutado, e não julgado
. Dê algumas sessões antes de decidir se a parceria funciona
Se a solidão vier acompanhada de pensamentos de não querer mais viver, procure ajuda imediatamente. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e em emergências o SAMU pode ser acionado pelo 192.
Um lugar onde estar só pode ser dito
Procurar terapia para solidão não é sinal de fracasso nem de incapacidade de se relacionar. É reconhecer que essa dor merece escuta e que, sozinho, pode ser difícil entender por que os vínculos parecem tão distantes.
A terapia não resolve a vida do paciente por ele. Ela oferece um espaço para desfazer, com tempo e companhia, os nós que tornam tão difícil se aproximar do outro. Outras orientações para o dia a dia estão em como lidar com a solidão e em solidão crônica.
Se a solidão tem pesado nos seus dias e você sente que não consegue falar disso com ninguém, a terapia pode ser esse primeiro lugar. Ofereço uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para você contar o que está vivendo e tirar dúvidas sobre o atendimento, presencial em São Paulo ou online.
Perguntas frequentes
Terapia funciona para solidão?
Sim. Revisões de ensaios clínicos indicam que as intervenções psicológicas reduzem a solidão em diferentes idades. As mais eficazes trabalham a forma como a pessoa percebe e vive os vínculos, e não apenas a quantidade de contatos.
Quando devo procurar terapia para solidão?
Quando a solidão dura meses, vem com tristeza, ansiedade ou alterações de sono, leva você a evitar pessoas ou se repete em diferentes relações. Perdas e mudanças importantes também são bons momentos para buscar ajuda.
Como a psicanálise trabalha a solidão?
Ela oferece um espaço para falar do que costuma ficar em silêncio e para perceber, na relação com o analista, padrões de vínculo que se repetem. Com isso, estar só pode deixar de ser vivido como abandono.
Terapia online funciona para quem se sente sozinho?
Pode funcionar tão bem quanto a presencial, dependendo da pessoa. Para brasileiros no exterior, a terapia online em português permite falar da própria experiência na língua em que ela foi vivida.
A terapia substitui amigos e família?
Não. A terapia não ocupa o lugar dos vínculos da vida, mas ajuda a compreender o que dificulta construí-los e mantê-los.
Referências
CACIOPPO, John T.; HAWKLEY, Louise C. Perceived social isolation and cognition. Trends in Cognitive Sciences, London, v. 13, n. 10, p. 447-454, 2009. DOI: 10.1016/j.tics.2009.06.005.
FREUD, Sigmund. A dinâmica da transferência (1912). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 10: observações psicanalíticas sobre um caso de paranoia relatado em autobiografia (“O caso Schreber”), artigos sobre técnica e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 133-146.
FROMM-REICHMANN, Frieda. Loneliness. Psychiatry, Washington, DC, v. 22, n. 1, p. 1-15, 1959.
HICKIN, Natalie; KALL, Anton; SHAFRAN, Roz; SUTCLIFFE, Sam; MANZOTTI, Giulia; LANGAN, Dean. The effectiveness of psychological interventions for loneliness: a systematic review and meta-analysis. Clinical Psychology Review, Oxford, v. 88, art. 102066, 2021. DOI: 10.1016/j.cpr.2021.102066.
MASI, Christopher M.; CHEN, Hsi-Yuan; HAWKLEY, Louise C.; CACIOPPO, John T. A meta-analysis of interventions to reduce loneliness. Personality and Social Psychology Review, Thousand Oaks, v. 15, n. 3, p. 219-266, 2011. DOI: 10.1177/1088868310377394.
SHEDLER, Jonathan. The efficacy of psychodynamic psychotherapy. American Psychologist, Washington, DC, v. 65, n. 2, p. 98-109, 2010. DOI: 10.1037/a0018378.
WINNICOTT, Donald W. A capacidade para estar só (1958). In: WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983. p. 31-37.



