Saúde Mental

Solidão feminina

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Uma mulher pode passar o dia inteiro cuidando de outras pessoas, dos filhos, dos pais, da casa, do trabalho, e chegar à noite sem ter conversado de verdade com ninguém sobre como ela mesma está. Não é falta de gente ao redor. É a ausência de um espaço onde ela possa ser a prioridade da conversa, nem que seja por alguns minutos.

A solidão feminina costuma ser tratada como um fato consumado: mulheres seriam, por natureza, mais solitárias ou mais emotivas. Os dados contam uma história mais interessante e mais honesta. Uma pesquisa brasileira recente encontra mais solidão entre mulheres, enquanto a pesquisa internacional encontra diferenças muito pequenas entre gêneros. Entre os dois resultados, o que parece pesar mais é o contexto em que cada mulher vive, e não o fato de ser mulher.

Mulher parada em corredor movimentado enquanto família e outras pessoas passam carregando mochilas, flores e objetos do dia a dia, ilustrando a solidão feminina em meio à sobrecarga de cuidado

Solidão feminina: o que os dados mostram

Em janeiro de 2026, a ONG Family Talks, em parceria com o instituto Market Analysis, conduziu uma pesquisa inédita sobre solidão no Brasil. O levantamento, divulgado pelo jornal O Globo, indicou que cerca de quatro em cada dez brasileiros se sentem sozinhos, com incidência maior entre mulheres jovens e pessoas de baixa renda (CÓPLE; FERNANDES, 2026). É um retrato importante da realidade brasileira, e vale lê-lo como retrato, não como lei.

Quando a pergunta sobe de escala, o quadro muda. Uma meta-análise com 751 efeitos, extraídos de 638 estudos, comparou a solidão de homens e mulheres ao longo da vida e encontrou uma diferença global muito próxima de zero (g = 0,07). Na infância, na adolescência e no início da vida adulta, os homens apareceram ligeiramente mais solitários. Na meia-idade e na velhice, a diferença não foi estatisticamente significativa (MAES et al., 2019).

O que dizem os dois estudos sobre solidão feminina

A pesquisa brasileira mostra mais solidão entre mulheres, principalmente jovens e de menor renda. A meta-análise internacional mostra que, no mundo, a diferença entre homens e mulheres é mínima. As duas informações não se contradizem: indicam que gênero, sozinho, explica pouco, e que renda, idade e rotina explicam mais. Para ver o lado masculino dessa conversa, leia sobre solidão masculina.

Esse desencontro entre estudos é um convite à cautela. Se a solidão fosse “feminina” por natureza, ela apareceria de forma consistente em todos os países e em todas as idades. Como não aparece, vale perguntar o que, na vida concreta das mulheres brasileiras, produz esse isolamento.

A sobrecarga de cuidado como forma de isolamento silencioso

Uma pista está no uso do tempo. A PNAD Contínua de 2022, do IBGE, mostrou que as mulheres dedicaram, em média, 21,3 horas semanais a afazeres domésticos e ao cuidado de pessoas, contra 11,7 horas dos homens, uma diferença de 9,6 horas por semana (IBGE, 2023). Quase dez horas a mais por semana não são um detalhe de agenda: são o tempo que, em outra vida, poderia ser de encontro, de conversa longa, de descanso ao lado de alguém.

O cuidado costuma ter uma característica traiçoeira: ele enche o dia de gente e esvazia a vida de companhia. Uma mulher pode passar horas cercada de filhos, pais idosos, colegas e demandas, e ainda assim não ter ninguém que pergunte como ela está. A solidão, nesse caso, não nasce da falta de pessoas, mas da falta de reciprocidade. É a mesma lógica de estar sozinho e sentir-se sozinho: estar acompanhada e sentir-se acompanhada são experiências diferentes.

Há ainda o efeito sobre as amizades. Dados americanos mostram que as mulheres também perderam amigos próximos nas últimas décadas: em 1990, 41% diziam ter seis ou mais amigos próximos, e hoje são 24%, embora a queda tenha sido menos acentuada que entre os homens (COX, 2021). Quando o tempo livre encolhe, o primeiro vínculo a ser adiado costuma ser o que não grita por atenção, a amizade. E amizades adiadas viram amizades perdidas.

Solidão feminina: quando o cuidado vira isolamento

 . Estar sempre disponível para os outros, raramente para si mesma.

 . Conversas que giram em torno das necessidades de quem é cuidado, raramente das próprias.

 . Dificuldade de nomear a própria solidão por parecer “injusto” diante das responsabilidades que outros não têm.

Por que isso importa reconhecer

Nomear a solidão feminina como um padrão real, documentado, e não como consequência inevitável de “ser mulher” ou de “ser mãe”, é importante porque evita duas armadilhas: tratar o sofrimento como normal demais para merecer atenção, ou culpar a mulher por não conseguir “dar conta de tudo” sozinha.

A solidão, nesse contexto, costuma ser sintoma de uma distribuição desigual de cuidado e de rede de apoio, não de alguma falha pessoal.

Solidão feminina e solitude: quando estar sozinha não é fracasso

Em uma cultura que frequentemente associa felicidade à presença constante de um parceiro, de amigos ou de uma vida social intensa, muitas mulheres sentem que estar sozinha é sinônimo de fracasso ou abandono. É um dos pesos silenciosos da solidão feminina: além de lidar com o isolamento, a mulher ainda carrega a vergonha de senti-lo. No entanto, existe uma diferença importante entre a solidão que machuca e a capacidade saudável de estar consigo mesma, o que a psicologia chama de solitude.

A estilista Carolina Herrera, aos 87 anos, chamou atenção para essa distinção em uma entrevista ao afirmar que “todo mundo precisa saber ficar sozinho em algum momento” e que “é preciso cultivar algo dentro de si” (PUREPEOPLE, 2026). Sua reflexão aponta para uma dimensão psicológica fundamental: construir interesses, valores, projetos e fontes de satisfação que não dependam exclusivamente da validação ou da companhia dos outros.

Quando uma mulher desenvolve uma relação mais sólida consigo mesma, os momentos a sós deixam de ser vividos apenas como ausência e podem se transformar em oportunidades de autoconhecimento, criatividade e fortalecimento emocional. Isso não elimina a necessidade humana de vínculos, nem torna a solidão em mulheres menos real quando ela pesa. Mas reduz o risco de que a identidade fique inteiramente apoiada nas relações afetivas. Para entender melhor essa diferença, leia  o artigo sobre solidão ou solitude.

Mulher madura sentada em ambiente sofisticado em tons terracota, representando a solidão feminina e os momentos de introspecção ao longo da vida.

O que isso está tentando dizer sobre a solidão feminina?

A solidão, quando aparece em quem cuida de todos, pode estar dizendo algo simples e difícil: que existe uma necessidade de ser cuidada que não encontra lugar. Em muitas histórias, a mulher aprendeu cedo que seu lugar é o de quem sustenta, e que pedir ficaria fora do papel. O sintoma, então, não é falta de vínculos, mas falta de um vínculo em que ela possa ocupar o lugar de quem recebe.

Escutar esse sinal não exige abandonar quem se ama. Exige permitir que exista, na vida, ao menos um espaço onde ela não seja a que responde, e sim a que é escutada. Em um processo terapêutico, esse espaço pode ser o primeiro a se tornar possível, e dali nascer o desejo de construir outros. Quando o isolamento começa a pesar no humor, vale também ler (INSERIR LINK: solidao-e-depressao) e, para o quadro geral, a visão do pilar em epidemia silenciosa da solidão.

Um espaço que também é só seu

Se você reconheceu nesse texto a sensação de estar sempre disponível para os outros e raramente para si mesma, talvez seja hora de reservar um espaço que não exige nada de volta.

Alexandre Jeremias é psicólogo e psicanalista, e oferece uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para quem quer começar a entender isso de perto.

Perguntas frequentes

Por que as mulheres relatam mais solidão do que os homens?

Pesquisas apontam para a sobrecarga de responsabilidades de cuidado, casa e trabalho, combinada à falta de infraestrutura social de apoio, como fatores de contexto relevantes, sem que isso signifique uma causa única ou universal.

Pode reduzir a solidão relatada, mas esse efeito não é igual para todas as mulheres. Mães de baixa renda seguem especialmente vulneráveis, já que a falta de recursos e rede de apoio pode anular esse efeito protetor.

Sim. Estar cercada de pessoas que dependem de você não é o mesmo que ter alguém de quem você possa depender. É um padrão comum de isolamento silencioso ligado à sobrecarga de cuidado.

Reconhecer que buscar espaço e escuta para si mesma é legítimo, e não uma falha, costuma ser o primeiro passo. Buscar apoio profissional ajuda a nomear esse padrão e pensar em formas concretas de mudá-lo.

Referências

COX, Daniel A. Men’s social circles are shrinking. American Survey Center, 29 jun. 2021. Disponível em: https://www.americansurveycenter.org/commentary/american-men-suffer-a-friendship-recession/.

CÓPLE; FERNANDES. Solidão já afeta quatro em cada dez brasileiros e impacta mais mulheres jovens e de baixa renda. O Globo, 15 mar. 2026. Pesquisa Family Talks e Market Analysis, jan. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/03/15/solidao-ja-afeta-quatro-em-cada-dez-brasileiros-e-impacta-mais-mulheres-jovens-e-baixa-renda.ghtml.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). PNAD Contínua: outras formas de trabalho 2022. Rio de Janeiro: IBGE, 11 ago. 2023. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/media/com_mediaibge/arquivos/5616d6a502ea0befe38ba89412c9d31b.pdf.

MAES, Marlies; QUALTER, Pamela; VANHALST, Janne; VAN DEN NOORTGATE, Wim; GOOSSENS, Luc. Gender differences in loneliness across the lifespan: a meta-analysis. European Journal of Personality, v. 33, 2019. DOI: 10.1002/per.2220. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1002/per.2220.

PNAD: mulheres gastam quase o dobro de tempo no serviço doméstico. Agência Brasil, 11 ago. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2023-08/pnad-mulheres-gastam-quase-o-dobro-de-tempo-no-servico-domestico.

PUREPEOPLE. Carolina Herrera, de 87 anos: “Todo mundo precisa saber ficar sozinho em algum momento. É preciso cultivar algo dentro de si”. Purepeople, 23 set. 2026. Disponível em: <https://www.purepeople.com.br/noticia/frase-de-carolina-herrera-sobre-ficar-sozinha-estilista-de-87-anos-de-idade-diz-que-todo-mundo-precisa-saber-ficar-sozinho-e-cultivar-algo-dentro-de-si_a424520/1>. Acesso em: 5 out. 2026.


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