Saúde Mental

Solidão na velhice: quando o mundo vai ficando menor

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

O telefone toca menos. Na agenda de papel, guardada na mesma gaveta há trinta anos, há mais nomes riscados do que nomes para ligar. A mesa da cozinha, que já recebeu oito pessoas num domingo, hoje é posta para um. A solidão na velhice raramente chega de uma vez. Ela se instala aos poucos, à medida que o mundo de alguém vai ficando menor.

Quem olha de fora muitas vezes não percebe. A pessoa continua dizendo que está tudo bem, que não precisa de nada, que não quer dar trabalho. E é justamente nessa frase, “não quero incomodar”, que boa parte dessa solidão se esconde.

Solidão na velhice: homem idoso de cabelos brancos caminha sozinho, de costas e apoiado em uma bengala, por uma rua vazia iluminada pela luz do entardecer.

O que é a solidão na velhice?

Solidão não é o mesmo que morar só. Há pessoas idosas que vivem sozinhas e têm uma vida cheia de vínculos, e há quem more com a família inteira e passe os dias sem que ninguém lhe pergunte nada de verdade.

O que define a solidão é a distância entre a companhia que se tem e a companhia de que se precisa. Na velhice, essa distância costuma crescer por uma razão simples e dura: as pessoas com quem se compartilhou a vida começam a faltar.

É por isso que ela se aproxima tanto da solidão emocional. Pode haver gente por perto, visitas, cuidadores, netos. O que falta é alguém que tenha conhecido aquela pessoa antes, que se lembre de quem ela foi.

Um mundo que encolhe: as perdas que se acumulam

Envelhecer é, entre outras coisas, atravessar uma sequência de despedidas. O cônjuge, os irmãos, os amigos de juventude, os colegas de trabalho. Muitas vezes também a casa onde se viveu, o bairro, a possibilidade de dirigir, de ouvir bem, de andar sem medo de cair.

Freud, em Luto e Melancolia, descreve o luto como um trabalho psíquico lento, em que a pessoa precisa se desligar, pouco a pouco, daquilo que perdeu. Esse trabalho exige tempo e energia. Na velhice, as perdas podem se suceder mais depressa do que é possível elaborá-las.

Há ainda uma perda menos visível: a das testemunhas. Quando morre o último amigo de infância, morre também a última pessoa que podia dizer “eu estava lá”. A história continua existindo, mas já não há com quem conferi-la.

Quando a sociedade se afasta primeiro

 

Seria um erro tratar a solidão na velhice apenas como consequência natural da idade. Parte dela é produzida pela forma como a sociedade trata quem envelhece.

Simone de Beauvoir, em A Velhice, observou que as sociedades modernas tendem a tratar o velho como um outro, alguém de quem preferimos não nos aproximar porque nos lembra do que seremos. Para ela, a maneira como uma sociedade trata seus velhos revela muito do que ela realmente valoriza.

O sociólogo Norbert Elias, em A solidão dos moribundos, foi na mesma direção. Ele descreve como as pessoas que envelhecem vão sendo empurradas para os bastidores da vida social, isoladas ainda em vida, em parte porque os mais jovens têm dificuldade de se identificar com elas.

No Brasil, Ecléa Bosi acrescentou uma peça importante. Em Memória e sociedade, ela mostra que lembrar é uma função social dos velhos, e que uma sociedade que não tem tempo para ouvir essas lembranças retira deles um lugar. Ninguém pergunta, e a pessoa aprende a não contar.

Morar só não é o mesmo que estar em solidão

 . Morar só pode ser uma escolha e uma forma de autonomia.

 . A solidão pode existir dentro de uma casa cheia.

 . O que protege é ter vínculos em que se é ouvido, e não apenas assistido.

 . A pergunta útil não é “com quem ela mora?”, e sim “com quem ela conversa?”.

O que as pesquisas mostram sobre a solidão na velhice

Um dado da Organização Mundial da Saúde contraria o senso comum. No relatório de 2025 da Comissão de Conexão Social, a solidão aparece em cerca de 11,8% das pessoas idosas, proporção menor do que a encontrada entre adolescentes. A velhice não é, por definição, a fase mais solitária da vida.

No Brasil, o estudo ELSI-Brasil, que acompanha pessoas com 50 anos ou mais, traz um retrato mais detalhado. Na análise de Sandy Júnior, Borim e Neri, cerca de 16% disseram sentir solidão sempre e 31,7% algumas vezes. Mais da metade afirmou nunca se sentir só.

A solidão frequente foi mais comum entre mulheres, entre pessoas com menos escolaridade e entre quem morava só, e esteve associada a sintomas depressivos, pior qualidade do sono e pior avaliação da própria saúde. Mais uma vez, a experiência não se distribui por igual.

E o número de pessoas idosas que vivem sozinhas vem crescendo. Segundo o Censo 2022 do IBGE, mais de 5,6 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais moram sós. Isso não significa 5,6 milhões de pessoas solitárias, mas indica quantas dependem de vínculos fora de casa para não ficarem isoladas.

Homem idoso de boina e bengala observa, em um muro alaranjado, a sombra de um menino jogando bola, imagem da memória da infância no envelhecimento.

Solidão, corpo e memória

A solidão persistente não afeta apenas o humor. Uma meta-análise coordenada por Julianne Holt-Lunstad encontrou maior risco de mortalidade associado ao isolamento social (29%), à solidão (26%) e a morar só (32%), em níveis comparáveis aos de fatores de risco já bem estabelecidos.

A Comissão da revista The Lancet sobre demência, em seu relatório de 2024, inclui o isolamento social entre os 14 fatores de risco modificáveis para a doença, com peso maior justamente na vida tardia.

Esses estudos são observacionais. Mostram associações, e não provam que a solidão, sozinha, cause adoecimento. Pessoas doentes também saem menos e veem menos gente, e os dois caminhos se alimentam.

O que eles sustentam é uma conclusão prática: vínculo não é um luxo afetivo da velhice. É parte do cuidado com a saúde, tanto quanto a consulta e o remédio.

A vergonha de pedir companhia

Muitas pessoas idosas pertencem a gerações educadas para não reclamar. Admitir que se sente só pode soar como confissão de fracasso, como se a solidão dissesse algo sobre o valor de quem a sente.

Essa vergonha produz um silêncio que engana. A mãe diz ao telefone que está ótima. O pai responde que não precisa de visita. Os filhos, aliviados, acreditam.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a pergunta que acompanha muitas pessoas ao envelhecer raramente é dita em voz alta: quem vai cuidar de mim? Ela aparece disfarçada de preocupação com a casa, com os documentos, com não dar trabalho a ninguém.

Por trás do “não quero incomodar” costuma haver medo de se tornar um peso. E quem teme ser um peso se afasta antes que os outros se afastem.

Para quem tem pai, mãe ou avós envelhecendo

Não existe fórmula, mas algumas coisas costumam fazer diferença.

A primeira é a regularidade. Uma ligação curta em dia certo vale mais do que uma visita longa e imprevisível, porque cria algo que a pessoa pode esperar. A solidão também é feita de dias em que nada está marcado.

A segunda é a escuta. Ecléa Bosi lembrava que ouvir as lembranças de alguém é devolver a ele uma função. Perguntar como era a rua onde cresceu, como conheceu quem amou, o que pensava aos vinte anos, não é passatempo. É reconhecer que ali existe uma vida inteira, e não apenas alguém a ser cuidado.

A terceira é não confundir proteção com substituição. Decidir tudo pela pessoa, falar sobre ela na terceira pessoa diante dela, organizar sua rotina sem consultá-la são formas de isolá-la dentro da própria vida.

Para quem mora longe, em outra cidade ou em outro país, essa distância costuma vir acompanhada de culpa. Ela não se resolve com presença impossível, mas pode se transformar em presença possível: horários combinados, chamadas de vídeo que não sejam só para conferir a saúde, e alguém próximo que possa estar por perto.

Sinais que merecem atenção

 . A pessoa deixa de sair e abandona atividades de que gostava.

 . Há descuido novo com a alimentação, a higiene ou os remédios.

 . O sono e o apetite mudam de forma persistente.

 . Surgem falas como “já vivi demais” ou “estou só esperando”.

 . Diante de falas sobre não querer mais viver, procure ajuda profissional sem esperar. No Brasil, o CVV atende pelo 188, 24 horas.

E se quem envelhece é você

Erik Erikson descreveu a última fase da vida como um tempo de revisão: olhar para o que se viveu e tentar reconhecer ali uma história que faz sentido, com seus acertos e suas perdas. Ele chamou de integridade a possibilidade de aceitar a própria vida como foi, e de desespero o sentimento de que já não há tempo para outra.

Esse trabalho é difícil de fazer sozinho. Uma história precisa de alguém que a escute para ganhar forma.

Sentir solidão nessa fase não é fraqueza nem ingratidão. A tristeza pelas ausências é uma resposta legítima a perdas reais. Mas vale dizer a alguém que os dias andam vazios, mesmo que custe. Quem está por perto, muitas vezes, não sabe.

E vínculos novos continuam sendo possíveis. Um grupo, uma atividade, um vizinho, uma conversa que se repete toda semana. Eles não substituem quem partiu, mas impedem que o mundo continue encolhendo.

O tamanho de um mundo não se mede em metros

A velhice traz perdas que nenhum cuidado evita. Há uma solidão que pertence a quem viveu muito, a de carregar lembranças que já não têm testemunhas.

Mas boa parte da solidão que marca o nosso tempo não vem da idade. Vem de uma sociedade apressada, que deixou de ter lugar e tempo para quem anda devagar.

O mundo de uma pessoa idosa pode caber em poucos cômodos e continuar grande, se houver nele alguém que pergunte, escute e volte.

Há lugar para falar do que foi ficando em silêncio

Envelhecer, ou acompanhar alguém que envelhece, traz perguntas que nem sempre cabem nas conversas de família: o medo de ser um peso, a culpa de estar longe, a falta de quem já partiu.

A psicoterapia pode ser um espaço para dizer essas coisas com calma, em qualquer idade. Se fizer sentido, é possível começar por uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.

Perguntas frequentes

A solidão é inevitável na velhice?

Não. Pesquisas mostram que a maioria das pessoas idosas não se sente só com frequência. O que aumenta o risco são as perdas acumuladas, o isolamento e a falta de vínculos em que a pessoa seja ouvida.

Não necessariamente. Morar só pode ser uma escolha e uma forma de autonomia. A solidão depende da qualidade dos vínculos, e pode existir mesmo em uma casa cheia.

Estudos associam solidão e isolamento social persistentes a maior risco de depressão, de declínio cognitivo e de mortalidade. São associações, não provas de causa, mas indicam que o vínculo é parte do cuidado com a saúde.

Contato regular, escuta interessada pela história da pessoa e respeito pela sua autonomia costumam fazer mais diferença do que visitas esporádicas. Para quem mora longe, horários combinados ajudam a criar algo que ela possa esperar.

Quando a pessoa abandona atividades, descuida da alimentação ou dos remédios, ou quando a tristeza persiste por semanas. Falas sobre não querer mais viver pedem ajuda imediata.

Referências

BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Tradução de Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2018.

BOSI, Ecléa. Memória e sociedade: lembranças de velhos. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

ELIAS, Norbert. A solidão dos moribundos, seguido de Envelhecer e morrer. Tradução de Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

ERIKSON, Erik H. O ciclo de vida completo. Porto Alegre: Artmed, 1998.

FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). Tradução de Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

HOLT-LUNSTAD, Julianne et al. Loneliness and social isolation as risk factors for mortality: a meta-analytic review. Perspectives on Psychological Science, v. 10, n. 2, p. 227-237, 2015. Disponível em: https://doi.org/10.1177/1745691614568352

IBGE. Censo Demográfico 2022: composição domiciliar e óbitos informados: resultados do universo. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.

LIVINGSTON, Gill et al. Dementia prevention, intervention, and care: 2024 report of the Lancet standing Commission. The Lancet, v. 404, n. 10452, p. 572-628, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0140-6736(24)01296-0

SANDY JÚNIOR, Paulo Afonso; BORIM, Flávia Silva Arbex; NERI, Anita Liberalesso. Solidão e sua associação com indicadores sociodemográficos e de saúde em adultos e idosos brasileiros: ELSI-Brasil. Cadernos de Saúde Pública, v. 39, n. 7, 2023. Disponível em: http://www.scielo.br/j/csp/a/THq8rXh7CDMD3Q9KqwWNYwd/?lang=pt

WORLD HEALTH ORGANIZATION. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies: report of the WHO Commission on Social Connection. Geneva: WHO, 2025.

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