Saúde Mental

Trauma infantil: quando a infância deixa marcas que a vida adulta tenta explicar

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

O trauma infantil não é apenas um episódio isolado e visível na história de uma pessoa. É, muitas vezes, uma experiência que continuou se repetindo por dentro, muito depois de ter terminado no mundo externo.

Crianças dependem completamente dos adultos para segurança, cuidado e reconhecimento emocional. Quando essa base falha, seja por um evento pontual, seja por uma ausência repetida, o psiquismo em formação pode registrar aquilo de um jeito que a linguagem ainda não consegue nomear.

O resultado, muitas vezes, não é uma lembrança clara. É um padrão: dificuldade de confiar, medo de ser abandonado, necessidade de controle, ou uma sensação difusa de que algo, em algum momento, não foi seguro.

O trauma infantil pode não aparecer como memória. Pode aparecer como jeito de ser.

Trauma infantil não é sinônimo de evento único e visível

Existe uma ideia equivocada de que o trauma infantil precisa ser um acontecimento dramático e isolado, como um acidente ou uma agressão física evidente.

A literatura sobre o tema mostra outra coisa. Pires e Miyazaki (2005), citadas em revisão sistemática de Figueiredo, Dell’Aglio, Silva, Souza e Argimon (2013), classificam os maus-tratos na infância em várias formas: negligência, abuso físico, abuso emocional, abuso sexual e abandono. Todas elas podem produzir trauma, mesmo quando não deixam marca visível no corpo.

A revisão desses autores, publicada na Psicologia em Revista, analisou dez estudos internacionais e encontrou associação significativa entre trauma na infância e transtornos do humor na vida adulta em todos eles, independentemente do tipo de mau-trato ou do instrumento usado para medi-lo.

Formas de trauma infantil nem sempre visíveis

 . Negligência emocional: ausência de resposta às necessidades afetivas da criança

 . Abuso emocional: humilhação, desqualificação ou ameaças recorrentes

 . Testemunhar violência doméstica, mesmo sem ser o alvo direto

 . Abandono, inclusive quando parcial ou disfarçado de “excesso de trabalho” dos pais

Trauma infantil e o corpo: quando a dor vira sintoma físico

Uma das formas pelas quais o trauma infantil se manifesta é o próprio corpo. Zatti, Semensato, Ramos-Lima, Waikamp e Freitas (2021), em revisão publicada no Brazilian Journal of Psychotherapy, retomam o conceito freudiano de histeria para mostrar como experiências traumáticas não simbolizadas podem se converter em sintomas somáticos.

As autoras descrevem que, quando o psiquismo infantil não consegue conter um excesso de sofrimento, o corpo passa a expressar aquilo que a palavra não deu conta de dizer. Dores sem causa médica clara, desmaios, paralisias funcionais ou crises de choro desproporcionais podem ser, segundo essa leitura, uma “cachoeira de sintomas que deságua em um corpo”.

Isso não significa que toda dor física esconda um trauma. Significa que, em alguns casos, o corpo comunica aquilo que ainda não encontrou palavra suficiente.

Trauma infantil e a psicanálise: sedução, fantasia e o tempo do trauma

A psicanálise se debruça sobre o trauma infantil desde sua fundação. Ana Maria Rudge (2003), em artigo publicado na Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, reconstrói esse percurso a partir da própria obra de Freud.

Freud, em 1897, colocou em questão sua primeira teoria, a de que toda neurose vinha de uma sedução sexual real sofrida na infância. A partir daí, passou a considerar também o papel da fantasia infantil, sem por isso negar que abusos reais aconteciam e deixavam marcas.

Um dos conceitos centrais dessa discussão é o de Nachträglichkeit, traduzido como “a posteriori”: a ideia de que uma experiência infantil só adquire seu valor traumático depois, quando um acontecimento posterior lhe dá um sentido que ela não tinha no momento em que ocorreu. O trauma infantil, nessa leitura, não é apenas o que aconteceu, mas o que uma experiência posterior reativa e transforma.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitos adultos só conseguem nomear uma experiência da infância como traumática décadas depois, quando algo no presente reabre aquilo que ficou sem elaboração.

Ferenczi e a confusão de línguas: quando o cuidado se torna ameaça

Outro eixo importante para pensar o trauma infantil vem de Sándor Ferenczi, discípulo e interlocutor crítico de Freud. Em “Confusão de línguas entre os adultos e a criança” (1932), Ferenczi descreve uma dinâmica em que a criança, que busca ternura e cuidado, se depara com um adulto que responde nessa relação com uma linguagem adulta, sexualizada ou violenta, incompatível com o que a criança pedia.

Essa “confusão de línguas” é, para Ferenczi, um núcleo importante do trauma infantil: não apenas o evento em si, mas o fato de a criança não ter como compreender, nomear ou se defender diante de algo que vem justamente de quem deveria protegê-la.

Ferenczi também destacou algo que muitos clínicos observam até hoje: diante do trauma, é comum que a criança se identifique com o agressor como forma de sobrevivência psíquica, silenciando sua própria percepção do que aconteceu para preservar o vínculo com quem cuida dela.

Trauma infantil e transtornos do humor na vida adulta

A revisão de Figueiredo et al. (2013) reforça, do ponto de vista clínico e epidemiológico, o que a psicanálise já discutia em outros termos. Os dez estudos analisados mostraram associação entre trauma infantil e diferentes transtornos do humor na vida adulta, incluindo depressão, distimia e transtorno bipolar.

Um achado relevante: indivíduos que sofreram trauma na infância desenvolvem, segundo os autores, uma capacidade diminuída de identificação e regulação do próprio humor. Ou seja, o trauma não apenas predispõe a um transtorno específico, mas compromete a forma como a pessoa lida com suas próprias emoções ao longo da vida.

O estudo também aponta que o abuso sexual na infância aparece como o evento mais fortemente associado a quadros depressivos e distímicos entre os artigos revisados, embora outras formas de maus-tratos também tenham mostrado associação significativa.

Trauma infantil, transtornos psiquiátricos e risco de suicídio

Um dos achados mais delicados sobre o tema vem da revisão de Duarte, Tscherbakowski e Correa (2012), publicada na Revista Médica de Minas Gerais. Os autores analisaram 23 artigos internacionais e encontraram, em todos eles, associação significativa entre trauma na infância, transtornos psiquiátricos e comportamento suicida.

Um dos estudos revisados encontrou que vítimas de abuso físico com marcas visíveis tiveram nove vezes mais risco de tentativa de suicídio na vida adulta, número que chegou a vinte vezes entre quem foi punido com objetos. Outro estudo mostrou que a exposição a múltiplos eventos traumáticos na infância aumenta progressivamente esse risco, um efeito que os pesquisadores chamam de “dose-resposta”.

Esses dados não servem para alarmar, mas para justificar cuidado. Reconhecer o trauma infantil como fator de risco significa também reconhecer a importância da escuta e do acompanhamento psicológico como forma de cuidado preventivo, e não apenas como resposta a uma crise já instalada.

Winnicott: o ambiente que falha e o trauma silencioso

Nem todo trauma infantil vem de um evento agudo. Donald Winnicott, outro autor fundamental da psicanálise, descreveu o que chamou de falha ambiental: quando o ambiente de cuidado, e não um acontecimento pontual, não consegue sustentar as necessidades emocionais da criança de forma continuada.

Para Winnicott, o bebê e a criança pequena dependem de um ambiente “suficientemente bom”, não perfeito, mas presente o bastante para que o desenvolvimento emocional aconteça sem interrupções bruscas demais. Quando essa continuidade se rompe repetidamente, a criança pode desenvolver o que o autor chamou de falso self: uma adaptação que protege, mas também distancia a pessoa de sua própria espontaneidade.

Esse tipo de trauma infantil é, muitas vezes, o mais difícil de identificar, justamente porque não há um evento único para apontar. Há uma ausência prolongada, silenciosa, que só se torna visível quando a vida adulta tropeça nela.

Trauma infantil e repetição: por que o passado volta como destino

Assim como discutido no artigo sobre trauma psicológico, a repetição é um dos caminhos pelos quais o trauma infantil continua ativo. A pessoa pode escolher vínculos que reproduzem antigas dinâmicas de abandono ou desqualificação, sem perceber conscientemente que está repetindo algo.

Esse mecanismo também aparece nas relações amorosas adultas, como mostra o artigo você ama ou repete uma ferida, que aprofunda essa lógica dentro dos vínculos afetivos.

A repetição não é escolha consciente. É, muitas vezes, uma tentativa de dar um desfecho diferente a algo que, na infância, não pôde ser resolvido.

O que a psicanálise pode dizer sobre isso?

A psicanálise oferece, a partir de Freud, Ferenczi e Winnicott, três formas complementares de entender o trauma infantil. Freud e Rudge (2003) chamam a atenção para a dimensão temporal: o trauma se constitui também a posteriori, quando um evento posterior reativa e ressignifica uma experiência infantil.

Ferenczi acrescenta a dimensão relacional: o trauma nasce, muitas vezes, do descompasso entre o que a criança pede e o que o adulto responde, sobretudo quando essa resposta vem de quem deveria cuidar.

Winnicott, por fim, mostra que o trauma nem sempre precisa de um evento: pode nascer da falta de continuidade em um ambiente que deveria sustentar o desenvolvimento emocional da criança.

Essas três leituras não competem entre si. Juntas, ajudam a entender por que o trauma infantil pode aparecer de formas tão diferentes, dependendo de quando aconteceu, de quem esteve envolvido, e do que veio depois.

O papel da terapia

A terapia pode ser um espaço fundamental para trabalhar as marcas do trauma infantil, justamente porque oferece o que, muitas vezes, faltou: escuta continuada, sem julgamento, e tempo suficiente para que aquilo que não pôde ser dito na infância encontre palavra na vida adulta.

O processo terapêutico não busca “provar” o que aconteceu, nem reviver a dor de forma invasiva. Busca ajudar a pessoa a reconhecer padrões, entender defesas construídas ainda na infância e, aos poucos, separar o perigo de então do presente.

Zatti et al. (2021) destacam, no contexto de sintomas ligados ao trauma infantil, que a psicoterapia ocupa lugar de destaque na promoção de ressignificações para eventos que, de outra forma, permaneceriam presos no corpo ou na repetição.

O que isso está tentando dizer?

Quando o trauma infantil continua ativo na vida adulta, muitas vezes ele está tentando dizer algo que a criança não teve como dizer no momento em que aconteceu.

Pode estar dizendo: “eu precisava de proteção, e ela não veio”. Pode estar dizendo: “eu aprendi cedo demais a cuidar de mim sozinho”. Pode estar dizendo: “algo em mim ainda espera que alguém confirme que aquilo foi difícil”.

Reconhecer isso não é reviver a infância com culpa ou dramatização. É dar um lugar, finalmente, para algo que precisou ficar guardado por falta de outra saída.

Considerações finais

O trauma infantil não se resume a um evento único, nem sempre é visível, e não define, sozinho, toda uma vida. Ele pode aparecer no corpo, na repetição de vínculos, na dificuldade de regular emoções, ou simplesmente em um jeito de existir que a pessoa nunca soube explicar.

A psicanálise, desde Freud até Ferenczi e Winnicott, ajuda a entender que o trauma infantil se constitui na relação entre o que aconteceu, quem estava por perto e o que veio depois. Entender essa engrenagem não apaga o passado, mas pode mudar o lugar que ele ocupa na vida adulta.

Porque, muitas vezes, aquilo que a infância não teve como dizer ainda pode encontrar palavra.

Existe alguma marca da sua infância que ainda parece organizar sua vida adulta sem que você saiba explicar por quê?

Existe alguma marca da sua infância que ainda parece organizar sua vida adulta sem que você saiba explicar por quê?

Perguntas frequentes

O que é trauma infantil?

Trauma infantil é uma experiência dolorosa vivida na infância, seja um evento pontual ou uma ausência prolongada de cuidado, que continua influenciando emoções, vínculos e comportamentos na vida adulta.

Não. Negligência emocional, humilhação recorrente, abandono parcial e falhas continuadas no ambiente de cuidado também podem gerar trauma infantil, mesmo sem deixar marca física.

Sim. Muitas marcas da infância aparecem como padrões de comportamento, dificuldade de confiar ou sintomas no corpo, sem que a pessoa consiga associá-los conscientemente a uma lembrança específica.

Estudos mostram associação significativa entre trauma infantil e transtornos do humor, ansiedade e, em casos mais graves, risco aumentado de comportamento suicida, o que reforça a importância do acompanhamento psicológico.

Sim. A terapia oferece um espaço de escuta e elaboração que pode ajudar a pessoa a reconhecer padrões antigos e construir uma relação diferente com aquilo que viveu, mesmo muitos anos depois.

Referências

DUARTE, Dante Galileu Guedes; TSCHERBAKOWSKI, Tatiana; CORREA, Humberto. Associação entre trauma infantil, transtornos psiquiátricos e suicídio. Revista Médica de Minas Gerais, v. 22, supl. 7, p. S13-S21, 2012.

FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre os adultos e a criança. In: Obras Completas: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1932/2011.

FIGUEIREDO, Ângela Leggerini; DELL’AGLIO, José Caetano; SILVA, Thiago Loreto; SOUZA, Luciano Dias de Mattos; ARGIMON, Irani Iracema de Lima. Trauma infantil e sua associação com transtornos do humor na vida adulta: uma revisão sistemática. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 19, n. 3, p. 480-496, 2013.

RUDGE, Ana Maria. Trauma e temporalidade. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, v. 6, n. 4, p. 102-116, 2003.

WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1965/1990.

ZATTI, Cleonice; SEMENSATO, Márcia Rejane; RAMOS-LIMA, Luis Francisco; WAIKAMP, Vitoria; FREITAS, Lucia Helena Machado. Trauma infantil e manifestações histéricas na atualidade: uma revisão da literatura. Revista Brasileira de Psicoterapia, v. 23, n. 3, p. 195-207, 2021.

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