A masculinidade contemporânea não é um ponto de chegada. É um território em disputa, onde um modelo antigo ainda dá as cartas, mas já não consegue mais explicar sozinho o que significa ser homem hoje.
De um lado, persistem exigências que atravessam gerações: força, racionalidade, autossuficiência, contenção emocional. Do outro, crescem espaços onde essas exigências começam a ser questionadas, às vezes com hesitação, às vezes com coragem franca.
Entender a masculinidade contemporânea exige olhar para os dois lados dessa tensão ao mesmo tempo, sem simplificar nenhum deles.
O que ainda sustenta o modelo antigo
O conceito de masculinidade hegemônica, desenvolvido pelo sociólogo australiano Raewyn Connell, ajuda a entender por que esse modelo resiste tanto. Não é a forma mais comum de ser homem, mas é a mais valorizada socialmente, funcionando como referência simbólica a partir da qual todas as outras formas de masculinidade são medidas, normalizadas ou desqualificadas (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
No Brasil, esse padrão costuma vir associado a branquitude, heterossexualidade, virilidade, autossuficiência e contenção emocional. Homens que se afastam desse ideal, como homens gays, negros, trans ou de baixa renda, são frequentemente desvalorizados ou estigmatizados, enquanto os mais alinhados a ele seguem desfrutando de mais legitimidade social (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
Os números mostram o custo desse modelo: homens brasileiros vivem, em média, sete anos a menos que mulheres, têm taxa de suicídio 2,3 vezes maior e mortalidade por causas externas 4,1 vezes superior. A masculinidade tradicional, sustentada por invulnerabilidade e repressão emocional, funciona como fator de risco direto para a saúde mental (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
O que caracteriza a masculinidade hegemônica
. Valorização extrema da racionalidade sobre a emoção
. Autossuficiência como sinônimo de valor pessoal
. Heterossexualidade tratada como norma compulsória
. Papel de provedor, protetor e chefe de família como marcadores centrais de identidade
. Estigmatização de homens que não correspondem a esse ideal
As camadas que a masculinidade contemporânea não pode ignorar
Um erro comum é falar de “o homem” como se fosse uma categoria única. A masculinidade contemporânea só faz sentido quando observada através da interseccionalidade, o conceito que explica como raça, classe, sexualidade e território se combinam e produzem experiências muito diferentes de ser homem (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
Homens negros, periféricos e do Nordeste enfrentam efeitos cumulativos de racismo, pobreza e estigmas de gênero, o que aumenta sua exposição à violência e ao adoecimento psíquico. O Atlas da Violência mostra que 86,7% das vítimas de homicídio no país são homens jovens, entre 15 e 29 anos (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
Homens gays e bissexuais enfrentam dupla estigmatização: pela orientação sexual e por se distanciarem do padrão hegemônico, muitas vezes sofrendo exclusões até dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Homens trans, por sua vez, vivem pressões específicas para performar padrões tradicionais de masculinidade como forma de validação e segurança, o que pode levar a estratégias de invisibilidade, hipermasculinização ou silenciamento emocional (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
Esse padrão de exigir prova constante de masculinidade já apareceu antes nesta biblioteca, na discussão sobre o peso de ser forte o tempo todo. A masculinidade contemporânea multiplica esse peso por camadas adicionais de identidade.
Os sinais de que algo está mudando
pesar da persistência do modelo hegemônico, a literatura mais recente aponta sinais reais de ressignificação. Durante a pandemia de COVID-19, um estudo com homens de diferentes regiões do Brasil observou maior abertura para reconhecer vulnerabilidades emocionais e buscar apoio psicológico, sugerindo que contextos de crise podem favorecer transformações culturais quando acompanhados de estruturas adequadas de acolhimento (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
Iniciativas educativas, como o projeto “Homens, libertem-se”, vêm promovendo espaços de diálogo crítico onde homens podem questionar normas tradicionais e construir formas mais saudáveis de viver a masculinidade (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
O escritor J.J. Bola descreve esse movimento de forma direta: o convite não é para deixar de ser homem, mas para deixar de sufocar partes inteiras de si mesmo em nome de uma performance que ninguém, de fato, consegue sustentar por completo (BOLA, 2020). Ele cita atletas como o jogador de basquete Kevin Love, que começou terapia depois de um ataque de pânico em quadra, como exemplos de figuras públicas que romperam publicamente com o silêncio esperado dos homens.
O corpo que ainda carrega o que a palavra não diz
Enquanto a mudança cultural avança devagar, o corpo segue registrando o custo da masculinidade tradicional. A repressão emocional e a negação da fragilidade continuam sendo internalizadas como requisitos para o “ser homem”, levando muitos a ignorar sinais de sofrimento ou recorrer a comportamentos de risco como forma de lidar com eles (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
Essa dinâmica já foi discutida em o silêncio emocional masculino e em homens e terapia: o comportamento acaba falando no lugar da palavra, precisamente porque a palavra nunca foi ensinada como caminho legítimo.
A boa notícia é que essa engrenagem não é fixa. Grupos reflexivos, rodas de conversa, práticas de educação em saúde e terapias em grupo têm se mostrado eficazes na redução de comportamentos de risco e na ampliação do diálogo sobre emoções, criando espaços seguros para que homens expressem fragilidades sem medo de julgamento (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
Homens LGBTQIA+ na masculinidade contemporânea
Para muitos homens LGBTQIA+, a masculinidade contemporânea representa tanto um risco adicional quanto uma oportunidade de reinvenção mais radical. Livres, em alguma medida, da obrigação de performar heterossexualidade compulsória, alguns encontram nessa posição de margem um espaço para experimentar formas de masculinidade que não dependem da negação da vulnerabilidade.
Isso não elimina o sofrimento ligado à discriminação e à dupla estigmatização. Mas indica que a experiência de estar fora do centro hegemônico, por mais dolorosa que seja em muitos contextos, também pode abrir caminhos que homens heterossexuais alinhados ao padrão tradicional dificilmente encontram sozinhos.
O que a psicanálise pode dizer sobre isso
A psicanálise entende a masculinidade não como uma essência fixa, mas como uma construção que se sustenta por identificações, repetições e recalques ao longo da história de cada sujeito.
Quando um modelo cultural começa a ser questionado coletivamente, como está acontecendo agora, ele também deixa de funcionar como certeza inquestionável na vida psíquica individual. Isso pode gerar alívio, mas também uma angústia real: sem o script antigo, muitos homens não sabem exatamente o que colocar no lugar.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que esse momento de transição cultural chega ao consultório como uma pergunta quase sempre não formulada em palavras: que tipo de homem eu posso ser, se não preciso mais ser aquele que aprendi a ser?
Não existe uma resposta pronta para essa pergunta. Mas existe um processo possível para elaborá-la, e é exatamente isso que a terapia pode oferecer.
O que isso está tentando dizer?
A masculinidade contemporânea não é uma versão suavizada da masculinidade tradicional. É um processo em aberto, atravessado por avanços reais e resistências igualmente reais, que não se resolve de uma vez por todas.
Cada homem que questiona o que aprendeu sobre força, silêncio e autossuficiência participa, ainda que sem perceber, da construção de algo que ainda não tem nome definitivo. E isso, em si, já é uma forma de coragem.
Você não precisa inventar sozinho o que ser homem significa hoje
Se as certezas antigas sobre masculinidade já não fazem mais sentido para você, mas o que vem depois delas ainda parece incerto, esse é exatamente o tipo de pergunta que pode ser trabalhada em terapia.
Você pode agendar uma conversa inicial gratuita de 20 minutos com o psicólogo Alexandre Jeremias.
Perguntas frequentes
O que é masculinidade hegemônica?
É o padrão idealizado de masculinidade que, mesmo não sendo o mais comum, é o mais valorizado socialmente, funcionando como referência simbólica a partir da qual outras formas de ser homem são julgadas.
A masculinidade contemporânea está realmente mudando?
Há sinais reais de ressignificação, como maior abertura emocional durante a pandemia, movimentos de diálogo crítico e crescimento de espaços terapêuticos voltados a homens. Mas o modelo tradicional ainda opera com força, especialmente fora de contextos urbanos e escolarizados.
Por que alguns grupos de homens sofrem mais com esse modelo do que outros
Porque a masculinidade não afeta todos os homens da mesma forma. Raça, classe, orientação sexual e território se combinam, gerando experiências muito diferentes dentro do que parece, à primeira vista, uma única categoria.
Terapia pode ajudar nesse processo de transição?
Sim. A terapia oferece um espaço para elaborar a angústia de não ter mais um modelo pronto de masculinidade a seguir, sem que seja preciso ter todas as respostas antes de começar esse processo.
Referências
BOLA, JJ. Seja homem: a masculinidade desmascarada. Tradução de Rafael Spuldar. Porto Alegre: Dublinense, 2020.
CONNELL, Robert W. Políticas da masculinidade. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 186-206, 1995. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva.
PINTO, Luís Fernando Araújo; MACIEL, Millena Santos Queiroz; ROCHA, Jefther Felipe Lima. Masculinidades e saúde mental no Brasil: impactos da masculinidade hegemônica e possibilidades de ressignificação. RevistaFT, v. 30, n. 161, 2026.











