Existe uma cena que se repete mais do que se imagina. Um homem chega até a porta de um consultório. A mão já está na maçaneta. E ele para.
Olha pela fresta. Vê a sala, a poltrona vazia esperando, o psicólogo do outro lado. E, por um instante, pensa em dar meia-volta.
Essa hesitação não é fraqueza de caráter. É o resultado de anos aprendendo que homens e terapia não deveriam precisar se encontrar, porque um homem de verdade resolveria isso sozinho.
Por que a relação entre homens e terapia ainda é tão difícil
Um levantamento recente sobre masculinidade e saúde mental no Brasil mostra números que ajudam a entender a dimensão do problema. Homens vivem, em média, sete anos a menos que mulheres, têm taxa de suicídio de 12,6 por 100 mil habitantes e mortalidade por causas externas 4,1 vezes maior (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
Mesmo assim, a procura masculina por serviços de saúde mental permanece baixa. Homens representam apenas 31,3% dos atendimentos em CAPS no Brasil, principalmente por medo de julgamento, estigma e barreiras socioculturais (PINTO; MACIEL; ROCHA, 2026).
O escritor J.J. Bola resume essa lógica numa frase difícil de esquecer no prefácio de Emicida para seu livro: “os peixes não sabem que estão molhados” (BOLA, 2020). Muitos homens carregam essa distância emocional como se fosse simplesmente quem são, sem perceber que aprenderam a carregá-la.
O que costuma afastar homens do consultório
. Medo de ser visto como fraco ou incapaz por buscar ajuda
. Dificuldade de nomear o que sente, já que a repressão emocional foi ensinada cedo
. Descrença de que a terapia realmente resolve algo concreto
. Vergonha de estar num espaço historicamente percebido como “feminilizado”
. Tensão entre pedir cuidado e manter a imagem de autossuficiência
O momento em que a dor supera a resistência
Quando homens finalmente buscam ajuda, muitas vezes já é numa situação limite. Um estudo com homens atendidos em CAPS em Santos mostrou que nove dos treze participantes relataram ideação ou tentativa de suicídio antes de chegar ao serviço (ROCHA; ZUCCHI, 2025).
Um deles, Guimarães, de 25 anos, contou o momento exato em que decidiu não seguir adiante com a tentativa: “Eu estava decidido a chutar a cadeira e largar a corda, sabe? Mas foi quando eu disse ‘não’. Eu nunca tinha falado sobre isso com ninguém antes.” Ele procurou a irmã, que avisou a mãe, e no dia seguinte foram juntos buscar ajuda (ROCHA; ZUCCHI, 2025).
Esse tipo de relato já apareceu antes nesta biblioteca, na discussão sobre o homem que não sabe receber cuidado. A dificuldade de pedir ajuda e a dificuldade de aceitar terapia costumam nascer da mesma raiz.
O que os homens fazem no lugar da terapia
Antes de procurar um profissional, muitos homens tentam resolver sozinhos, ou com substitutos informais. J.J. Bola descreve homens que preferem ligar para amigas mulheres a amigos homens, porque estes costumam responder com “resolve sua vida” em vez de oferecer escuta (BOLA, 2020).
Outros recorrem ao diário como forma de organizar o que sentem, na ausência de terapia. Bola cita pesquisas do professor James Pennebaker sobre os efeitos da escrita expressiva no sistema imunológico e na organização da ansiedade, mas é categórico ao afirmar que parceiras e parceiros não servem como terapeutas, mesmo quando acabam ocupando esse papel por padrão (BOLA, 2020).
Há também os grupos informais. O próprio autor descreve um grupo de amigos que se reunia aos sábados para almoçar, e como só depois de anos descobriu que um deles vinha enfrentando uma depressão grave durante todo esse tempo, escondida atrás dos encontros (BOLA, 2020). O convívio ajudava, mas não substituía o cuidado clínico que faltava.
Quando o sofrimento vira comportamento em vez de palavra
Uma revisão de estudos internacionais mostra que o sofrimento mental masculino, quando não encontra palavras, tende a se expressar como comportamento: abuso de álcool, tomada de risco, irritabilidade (SILVA; MELO, 2021).
A psicanálise chama esse fenômeno de acting-out. É quando aquilo que não pode ser dito é encenado através de uma ação, em vez de elaborado através da fala (SILVA; MELO, 2021).
Essa dinâmica é parecida com o que já foi discutido em o silêncio emocional masculino: o corpo e o comportamento acabam falando no lugar da palavra, justamente porque a palavra nunca foi ensinada como caminho possível.
O que muda quando um homem finalmente entra
Nem toda entrada em terapia acontece diante de uma crise extrema. Às vezes, um evento público abre a porta. O jogador de basquete Kevin Love começou terapia depois de um ataque de pânico em quadra, e isso mudou sua forma de entender saúde mental. O jogador de futebol Danny Rose relatou algo parecido: “A situação me levou a ver um psicólogo, e fui diagnosticado com depressão” (BOLA, 2020).
No Brasil, um participante da pesquisa em Santos, Carlos, de 39 anos, descreveu a própria resistência inicial e o que o fez seguir mesmo assim: “No começo, eu também pensava isso, mas fui mesmo assim! Nada ia me fazer mudar de ideia, eu sabia que realmente precisava de ajuda… Hoje eu aceito com calma e deixo a pessoa pensar o que quiser, porque eu já vi muita gente falar isso e depois sentir na pele” (ROCHA; ZUCCHI, 2025).
Isso confirma algo que a literatura já vinha apontando: quanto mais um profissional é “gênero-competente”, mais consegue responder aos desafios clínicos específicos de homens em sofrimento (SILVA; MELO, 2021). Não se trata de adaptar a terapia para menos, mas de torná-la mais capaz de acolher formas masculinas de expressar dor.
Homens LGBTQIA+ e a experiência da terapia
Para homens gays e bissexuais, entrar num consultório pode significar abrir duas portas ao mesmo tempo: a da vulnerabilidade emocional e a de uma identidade que também precisou ser escondida.
Carlos, o mesmo participante citado acima, se identifica como bissexual. Sua trajetória de resistência inicial e aceitação gradual da terapia ilustra como a mesma barreira de “não é coisa de homem” se soma, para muitos homens LGBTQIA+, ao medo de julgamento sobre a própria orientação dentro do próprio processo terapêutico (ROCHA; ZUCCHI, 2025).
Isso reforça por que a competência de gênero de um profissional de saúde mental precisa incluir também sensibilidade a diferentes formas de viver a sexualidade, sem presumir heteronormatividade como padrão.
O que a psicanálise pode dizer sobre isso
A hesitação diante da porta do consultório não é apenas resistência consciente. É também o receio do que pode ser encontrado do outro lado: um sofrimento que, uma vez nomeado, deixa de poder ser negado.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que os primeiros encontros com homens costumam começar por temas práticos, trabalho, desempenho, decisões, e só depois, aos poucos, abrem espaço para o que realmente doía desde o início.
Isso não é evasão. É o tempo necessário para que a fala encontre um lugar seguro o suficiente para acontecer. A terapia, nesse sentido, não exige que o homem chegue pronto para falar de si. Exige apenas que ele atravesse a porta.
O que isso está tentando dizer?
Homens e terapia não deveriam ser dois mundos separados por uma porta entreaberta. Mas enquanto a masculinidade tradicional continuar ensinando que pedir ajuda é fraqueza, essa porta vai continuar sendo o obstáculo mais difícil de toda a jornada.
Atravessá-la não apaga a história de quem aprendeu a se virar sozinho. Mas abre a possibilidade de que essa história, finalmente, tenha para quem contar.
Você não precisa decidir tudo antes de atravessar a porta
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Perguntas frequentes
Por que os homens demoram tanto para procurar terapia?
Porque muitos aprenderam que pedir ajuda psicológica é sinal de fraqueza. Essa crença, somada à dificuldade de nomear o que sentem, costuma adiar a busca até que o sofrimento já esteja em estágio avançado.
O que muda quando o profissional entende as particularidades da masculinidade?
Terapeutas mais “gênero-competentes” conseguem reconhecer formas masculinas de expressar sofrimento, muitas vezes menos verbais, e adaptar a escuta sem exigir que o homem se expresse do jeito que a terapia tradicionalmente espera.
Terapia funciona mesmo para quem tem dificuldade de falar sobre sentimentos?
Sim. Não é necessário chegar sabendo nomear tudo o que se sente. Muitos processos terapêuticos começam por temas práticos e vão, aos poucos, abrindo espaço para o que está por trás deles.
Homens LGBTQIA+ enfrentam barreiras diferentes na terapia?
Podem enfrentar uma camada adicional, o medo de julgamento sobre a própria orientação, além da resistência mais geral ligada à masculinidade tradicional. Um profissional sensível a essa diversidade faz diferença real nesse processo.
Referências
BOLA, JJ. Seja homem: a masculinidade desmascarada. Tradução de Rafael Spuldar. Porto Alegre: Dublinense, 2020.
PINTO, Luís Fernando Araújo; MACIEL, Millena Santos Queiroz; ROCHA, Jefther Felipe Lima. Masculinidades e saúde mental no Brasil: impactos da masculinidade hegemônica e possibilidades de ressignificação. RevistaFT, v. 30, n. 161, 2026.
ROCHA, Rafaela; ZUCCHI, Eliana Miura. Masculinities and narratives of mental suffering and self-care. Interface (Botucatu), v. 29, supl. 1, e250035, 2025.
SILVA, Rafael Pereira; MELO, Eduardo Alves. Masculinidades e sofrimento mental: do cuidado singular ao enfrentamento do machismo? Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, n. 10, p. 4613-4622, 2021.











