O homem que não sabe receber cuidado costuma perceber isso tarde demais. Fui internado numa sexta-feira à noite. Deitado na maca, com o soro já pingando no braço, abri os contatos do meu telefone.
Rolei a lista inteira. Nome por nome. Colegas de trabalho, primos, um ou dois amigos de infância. Cheguei ao fim e não liguei para ninguém.
Não foi falta de gente. Foi a certeza, quase automática, de que ligar significaria dar trabalho. Que preocupar alguém era pior do que estar sozinho numa cama de hospital.
Essa cena não é rara. Ela se repete, com variações, na vida de muitos homens que aprenderam a cuidar dos outros, mas nunca aprenderam a receber cuidado de volta.
Por que o homem que não sabe receber cuidado tem medo de "dar trabalho"
Pesquisadores que estudam homens idosos no interior de Minas Gerais encontraram algo revelador. Entre os entrevistados, o medo de “dar trabalho” para a família aparecia com mais força do que o próprio medo da morte (COELHO; GIACOMIN; FIRMO, 2016).
Não é uma frase de efeito. É uma hierarquia de medos invertida, construída ao longo de uma vida inteira.
Se dar trabalho é pior do que morrer, pedir ajuda deixa de ser uma opção razoável. E o homem que não sabe receber cuidado, nesse ponto, já nem considera mais essa possibilidade.
O silêncio antes do pedido de ajuda
Em uma pesquisa recente com homens atendidos em serviços de saúde mental em Santos, um jovem de 25 anos contou que só decidiu contar para a irmã o que estava sentindo no momento em que considerava seriamente se matar (ROCHA; ZUCCHI, 2025).
Não foi o sofrimento em si que o levou a pedir ajuda. Foi o ponto em que o sofrimento se tornou maior do que a vergonha de precisar de alguém.
Esse tipo de silêncio, aliás, é parecido com o que já vimos em outro momento desta biblioteca: a dificuldade que muitos homens sentem só de começar a pedir ajuda. O homem que não sabe receber cuidado geralmente também não sabe pedir por ele.
Outro participante da mesma pesquisa, de 23 anos, descreveu como substituía o colo que gostaria de receber da mãe por outra coisa, uma substância, uma distração, qualquer coisa que ocupasse o lugar do cuidado que não sabia pedir.
Sinais de que um homem está evitando receber cuidado
. Minimiza o próprio sofrimento diante dos outros (“não é nada”, “já passou”)
. Oferece ajuda constantemente, mas recusa quando é oferecida a ele
. Espera chegar ao limite antes de mencionar que não está bem
. Sente alívio em cuidar de tarefas práticas em vez de falar sobre o que sente
. Tem dificuldade de nomear a própria tristeza, mas nomeia com facilidade a dos outros
Por que isso acontece
Um homem de 50 anos, também entrevistado em Santos, descreveu como toda a sua identidade estava organizada em torno do trabalho. Quando adoeceu e precisou parar, não foi só a rotina que desmoronou. Foi a sensação de ainda ser alguém (ROCHA; ZUCCHI, 2025).
Se ser homem, historicamente, foi ensinado como sinônimo de prover, resistir e sustentar, então parar para receber cuidado pode ser sentido como deixar de ser quem se é.
Um médico entrevistado numa pesquisa em Florianópolis resumiu isso numa frase que vale a pena repetir: “ao homem não ter dado o direito de ficar doente, de pedir ajuda, de pedir colo, de chorar” (TONELI; SOUZA; MÜLLER, 2010).
Não é falta de sentimento. É a falta de permissão, aprendida cedo, para expressá-lo, e é essa falta de permissão que explica, em boa parte, por que o homem que não sabe receber cuidado se fecha antes mesmo de ser questionado.
Quando o sofrimento vira ação em vez de palavra
Estudos que revisam a literatura internacional sobre o tema apontam algo importante: o sofrimento masculino, quando não encontra palavras, tende a aparecer como comportamento (SILVA; MELO, 2021).
Isso pode significar trabalhar em excesso. Beber mais do que deveria. Se arriscar fisicamente. Ficar irritado sem motivo aparente.
A psicologia chama isso de acting-out: quando aquilo que não pode ser dito em palavras é expresso através de uma ação. O corpo e o comportamento falam no lugar da fala.
É por isso que muitos homens em sofrimento não parecem tristes. Parecem estressados, ocupados, ou simplesmente difíceis de lidar. E raramente alguém pergunta o que há por trás disso.
Os caminhos que ajudam a mudar isso
Nem tudo é ausência. Uma pesquisa qualitativa feita no País de Gales, com homens entre 21 e 74 anos, mostrou que existem caminhos reais até o pedido de ajuda (VICKERY, 2021).
Um deles é a linguagem. Alguns homens só conseguiram procurar terapia depois de reformulá-la em termos que fizessem sentido para eles: comparar a sessão a “chamar um encanador” para resolver um problema específico, ou pensar nela como uma aula, algo prático a ser aprendido.
Outro caminho, talvez o mais importante, são as pessoas ao redor. Parceiros, pais, amigos próximos, funcionaram repetidamente como a ponte entre o sofrimento silencioso e o primeiro pedido de ajuda formal.
Isso significa que o cuidado, muitas vezes, não começa com o homem pedindo. Começa com alguém percebendo, insistindo com gentileza, e abrindo a porta primeiro para quem não sabe receber cuidado sozinho.
Homens LGBTQIA+ e o cuidado
Homens gays e bissexuais frequentemente carregam uma camada a mais nessa dificuldade: a de terem aprendido, além da masculinidade tradicional, a esconder também outra parte de si.
Na pesquisa galesa, um homem gay de mais de 40 anos descreveu ter chorado de forma inesperada numa consulta médica de rotina, sem nenhum aviso prévio para si mesmo de que aquilo estava represado (VICKERY, 2021).
Já na pesquisa brasileira em Santos, dois participantes que se identificaram como bissexuais relataram algo diferente: a experimentação homoafetiva funcionou, para eles, como uma forma de autocuidado que os ajudou a atravessar momentos de risco grave, incluindo tentativas de suicídio (ROCHA; ZUCCHI, 2025).
São achados que convidam a pensar o cuidado de forma mais ampla. Às vezes, o caminho até se cuidar passa por lugares que a masculinidade tradicional nunca ensinou a considerar legítimos.
O que a psicanálise pode dizer sobre o homem que não sabe receber cuidado
A psicanálise trabalha com a ideia de que aquilo que não pode ser simbolizado, colocado em palavras, tende a retornar de outra forma. No corpo, no comportamento, no sintoma.
Quando um homem aprende, desde muito cedo, que sentir e pedir ajuda são fraquezas, ele não deixa de sentir. Ele apenas perde o acesso simbólico àquilo que sente.
O que fica reprimido não desaparece. Ele pressiona por dentro, e às vezes só encontra saída quando o sofrimento já chegou muito longe, como na cena do jovem de 25 anos que só falou com a irmã à beira de um ato extremo.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que o momento em que um homem finalmente aceita ser cuidado costuma vir acompanhado de alívio e vergonha ao mesmo tempo, como se receber fosse, ainda, uma permissão que precisa ser conquistada.
Terapia, nesse sentido, não é somente um espaço de conversa. É um dos poucos lugares onde a palavra pode, enfim, fazer o trabalho que o silêncio vinha fazendo sozinho, e mal.
O que isso está tentando dizer?
Talvez a dificuldade de receber cuidado não seja sobre não precisar dele. Seja sobre não ter aprendido que é possível receber sem deixar de ser quem se é.
O homem que rola a lista de contatos e não liga para ninguém não está sozinho porque quer. Está sozinho porque, em algum momento, aprendeu que essa era a única forma segura de existir.
Reaprender a receber cuidado não é fraqueza. É reconstrução.
Você não precisa carregar tudo sozinho
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Perguntas frequentes
Por que alguns homens têm tanta dificuldade em pedir ajuda?
Porque muitos foram ensinados, desde cedo, que pedir ajuda é sinal de fraqueza. Essa aprendizagem cria uma barreira interna que muitas vezes só cede quando o sofrimento já está em estágio avançado.
Isso tem relação com terapia?
Sim. A terapia costuma ser um dos primeiros espaços onde um homem experimenta, de forma segura, o que é ser cuidado sem julgamento. Para muitos, é ali que a palavra “receber” deixa de soar como derrota.
Como ajudar um homem que não pede ajuda?
Muitas vezes o convite precisa vir de fora. Parceiros, familiares e amigos próximos costumam funcionar como a ponte entre o sofrimento silencioso e o primeiro passo formal em busca de cuidado.
Isso é diferente para homens gays ou bissexuais?
Pode ser. Além da dificuldade comum a muitos homens, alguns carregam também o peso de esconder outra parte da própria identidade, o que pode tanto dificultar quanto, em alguns casos, abrir caminhos inesperados de autocuidado.
Referências
COELHO, Aline; GIACOMIN, Karla; FIRMO, Josélia. O cuidado em saúde na velhice: a visão do homem. Saúde e Sociedade, v. 25, n. 2, p. 408-421, 2016.
ROCHA, Rafaela; ZUCCHI, Alessandro. Masculinidades e narrativas de sofrimento mental e autocuidado. Interface (Botucatu), v. 29, supl. 1, e240357, 2025.
SILVA, Rafael Pereira; MELO, Eduardo Alves. Masculinidades e sofrimento mental: do cuidado singular ao enfrentamento do machismo? Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, n. 10, p. 4613-4622, 2021.
TONELI, Maria Juracy Filgueiras; SOUZA, Merlin Bittencourt; MÜLLER, Roberta Ferreira. Masculinidades e práticas de saúde: retratos da experiência de pesquisa em Florianópolis/SC. Physis, v. 20, n. 3, p. 973-994, 2010.
VICKERY, Alex. Men’s help-seeking for distress: navigating varied pathways and practices. Frontiers in Sociology, v. 6, e724843, 2021.











