Saúde Mental

Por que homens têm dificuldade de pedir ajuda?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Imagine um homem parado numa esquina, sabendo que está perdido, com o celular na mão e um aplicativo de mapa aberto, e ainda assim demorando minutos a mais para admitir que precisa de orientação. É uma cena quase cômica, e por isso mesmo tantas pessoas riem dela sem perceber que descreve, em miniatura, a dificuldade de pedir ajuda em sua forma mais banal. Essa dificuldade raramente é sobre o problema em si. É sobre o que significa, para um homem, reconhecer publicamente que não consegue resolver algo sozinho.

O sociólogo Michael Kimmel resume esse padrão numa frase que resume dezenas de entrevistas com jovens: “eu não paro para pedir direções.” Não é sobre trânsito. É sobre uma regra mais ampla, que ele chama de “Guy Code”: não demonstre dúvida, não demonstre medo, não demonstre vulnerabilidade, nem mesmo em forma de pergunta. É o mesmo código que, mais tarde na vida, transforma um sofrimento emocional real em algo que o homem prefere carregar sozinho a admitir em voz alta.

Homem observando às escondidas uma sessão de terapia, expressão de medo e curiosidade, ilustrando a dificuldade de pedir ajuda

Dificuldade de pedir ajuda: o que a ciência já sabe sobre esse padrão

Uma revisão publicada em 2022 na Revista Brasileira de Psicoterapia, assinada por Germano Iaroseski Neto e Christian Haag Kristensen, reuniu o que a literatura internacional (e a ainda escassa literatura brasileira) documenta sobre a dificuldade de pedir ajuda entre homens. O achado central: homens, como grupo, buscam menos ajuda numa ampla gama de contextos, incluindo saúde mental, e essa diferença aparece de forma consistente entre diferentes idades, nacionalidades e níveis socioeconômicos.

Os números que os autores reúnem são reveladores. Mulheres procuram cerca de duas vezes mais ajuda profissional para a própria saúde mental do que homens. Homens não apenas acessam menos os serviços: relatam acreditar menos na própria utilidade da psicoterapia. E, quando finalmente chegam à terapia, apresentam maiores índices de desistência após a primeira sessão. A vergonha de precisar de ajuda, segundo os dados que os autores citam, tem forte correlação com a baixa busca masculina, uma correlação que não aparece da mesma forma entre mulheres.

O código que ensina a nunca pedir ajuda

o "Guy Code" segundo Michael Kimmel

 . Não demonstre dúvidas, medos ou vulnerabilidades, nem mesmo em forma de pergunta.

 . “Seja um carvalho robusto”: confiabilidade é parecer inabalável, não parecer alguém que processa dificuldade.

 . Raiva é aceitável. Tristeza, confusão e medo, não.

 . A validação vem de outros homens, não de mulheres: por isso o medo mais forte não é o julgamento feminino, é o julgamento masculino.

Kimmel chama esse conjunto de regras de “Guy Code”, e descreve algo que ajuda a entender por que a dificuldade de pedir ajuda não é apenas individual: a masculinidade é, em boa parte, uma experiência homossocial, performada para outros homens e julgada por eles. Isso significa que o medo mais imediato de um homem que pensa em buscar terapia raramente é “o que minha parceira vai pensar”. É “o que os outros homens vão pensar”, os “policiais de gênero” que vigiam constantemente quem cruzou a linha entre masculinidade aceita e fragilidade suspeita.

Berenice Bento, socióloga citada no trabalho de Eudes Dias Ferreira sobre silêncio emocional masculino, descreve o mecanismo por trás dessa dificuldade de pedir ajuda de forma direta: a masculinidade tradicional reforça a ideia de que um homem não pode procurar ajuda e deve resolver sozinho qualquer problema, e procurar apoio vai contra essa representação hegemônica do que é ser homem. Dados do Instituto Papo de Homem, também reunidos por Ferreira, mostram a extensão do problema: apenas 3 em cada 10 homens têm o hábito de conversar sobre medos ou dúvidas com amigos.

O custo de nunca pedir ajuda

J.J. Bola, escritor britânico-congolês, descreve com uma honestidade rara o que essa dificuldade de pedir ajuda custou a ele mesmo. No início dos vinte anos, atravessou um período de isolamento e exaustão que não sabia nomear, e escondeu como pôde, convencido de que era o único que poderia se ajudar. Anos depois, olhando para trás, ele escreve algo que resume o argumento inteiro deste artigo: pensa nos anos que teria poupado se tivesse tido alguém com quem conversar.

Esse custo aparece também no corpo. Terrence Real descreve a depressão masculina como algo que raramente se apresenta como tristeza visível: aparece como irritabilidade, excesso de trabalho, uso de álcool ou explosões de raiva, tudo funcionando como disfarce para uma dor que nunca teve permissão de existir abertamente. Kimmel resume essa lógica numa frase precisa: depressão é raiva sem voz pública, então ela se volta para dentro.

Um exemplo real e forte, que ilustra bem como a dificuldade de pedir ajuda pode custar anos de sofrimento silencioso, vem de Portugal: o judoca olímpico Célio Dias, homem negro e gay, teve um surto psicótico após uma eliminação nos Jogos Olímpicos e só anos depois conseguiu falar publicamente sobre viver com esquizofrenia. Sua frase resume o que este artigo quer transmitir: muitos homens não querem assumir a própria vulnerabilidade, que, na verdade, é um ponto de força.

Homens LGBTQIA+ e a dificuldade de pedir ajuda

Para homens gays, bissexuais e trans, a dificuldade de pedir ajuda costuma vir com uma camada extra. J.J. Bola relata o depoimento de Elrick, homem gay que descreve o peso de crescer sem conhecer nenhum outro homem gay ao redor: a vergonha de se perguntar por que não era como os outros homens ao seu redor, e o medo que isso trouxe durante anos. Ao mesmo tempo, Elrick nota algo revelador sobre o próprio Guy Code: amigos héteros frequentemente o procuram como um “espaço seguro” para expressar emoções que não se permitem entre si, o que mostra como a masculinidade tradicional terceiriza a emoção para quem já está, de algum modo, fora da caixa.

Kimmel descreve o mecanismo que sustenta isso: a homofobia funciona como o medo mais profundo por trás do Guy Code, não necessariamente o medo de ser gay, mas o medo de que outros homens o vejam como fraco, fraudulento, sem masculinidade suficiente. Isso ajuda a entender por que muitos homens héteros também enfrentam dificuldade de pedir ajuda mesmo sem qualquer relação com a própria orientação sexual: o insulto que pune a vulnerabilidade recorre ao vocabulário da homofobia porque a homofobia é, na prática, o principal instrumento de vigilância da masculinidade, e isso pesa sobre héteros e não héteros ao mesmo tempo, embora de formas diferentes.

Homem sentado sozinho com o rosto nas mãos, expressando exaustão emocional, símbolo do custo de não pedir ajuda

Nem todo silêncio é o mesmo: uma nota sobre cultura

É tentador simplificar a dificuldade masculina de pedir ajuda como um traço universal, quase biológico, de “homens em geral”. O antropólogo Matthew Gutmann, em seu estudo clássico sobre masculinidade na Cidade do México, mostra como esse tipo de generalização tem uma história recente e específica: o próprio estereótipo do “macho latino que nunca demonstra fragilidade” nasceu de uma única fala isolada, citada fora de contexto e repetida como se representasse todos os homens mexicanos. Gutmann observa que, por trás da postura de invulnerabilidade, muitas vezes existe exatamente o oposto: medo de inadequação escondido atrás de uma fachada. Vale a ressalva: México e Brasil não são a mesma cultura, e qualquer semelhança aqui é estrutural, não uma equivalência direta. Mas a lição vale: o “macho que não pede ajuda” é menos destino cultural fixo e mais papel social que pode, e vem sendo, questionado.

O que a psicanálise pode dizer sobre isso?

Do ponto de vista psicanalítico, pedir ajuda supõe reconhecer uma falta, e a masculinidade tradicional ensina exatamente o oposto: a fantasia de autossuficiência plena, de não precisar de ninguém. Quando essa fantasia é ameaçada por um sofrimento real, o caminho mais curto costuma ser a defesa, não o pedido. Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a dificuldade de pedir ajuda costuma se manter até que todas as outras estratégias de resolver sozinho já tenham se esgotado, o que costuma significar que o sofrimento já se instalou há muito tempo antes da primeira consulta. O silêncio emocional masculino e a dificuldade de pedir ajuda não são fenômenos separados: um alimenta o outro, formando um ciclo que raramente se rompe sozinho.

O que isso está tentando dizer?

Quando um homem demora para pedir ajuda, mesmo diante de um sofrimento evidente, isso não está dizendo que ele não se importa consigo mesmo. Está dizendo que, em algum momento da vida, pedir ajuda foi associado a perder algo: respeito, lugar entre outros homens, a própria definição do que significa ser homem. Entender essa origem não resolve o problema sozinho, mas tira dele o peso moral que costuma acompanhá-lo, o peso de “eu deveria ter conseguido sozinho”.

Existe um caminho possível além da dificuldade de pedir ajuda?

Sim, e ele não exige abandonar de uma vez toda a história que ensinou o silêncio. Pode começar pequeno: escrever num diário aquilo que ainda não tem coragem de dizer em voz alta, como recomenda J.J. Bola na ausência de alguém para conversar. Pode começar numa conversa com um amigo que também está cansado de fingir que está tudo bem. E pode, quando o sofrimento pede algo mais estruturado, chegar a um consultório. Nenhuma dessas portas exige que o homem deixe de ser quem é. Exige apenas reconhecer que precisar de alguém nunca foi, de fato, o oposto de ser forte.

Um espaço onde pedir ajuda não é fraqueza

Reconhecer que chegou a hora de conversar com alguém não é o fim de nada: costuma ser o início de tudo. Se você reconheceu, neste texto, algo que carrega sozinho há tempo demais, Alexandre Jeremias oferece uma conversa inicial gratuita de 20 minutos, sem compromisso, só para você sentir se aquele é o espaço certo. Fale agora pelo WhatsApp e dê o primeiro passo, no seu tempo.

Perguntas frequentes

Por que homens têm mais dificuldade de pedir ajuda do que mulheres?

Pesquisas mostram que essa diferença é consistente entre idades, nacionalidades e contextos socioeconômicos, e está mais ligada a fatores culturais (papéis de gênero aprendidos, medo do julgamento de outros homens, vergonha associada à vulnerabilidade) do que a diferenças biológicas entre homens e mulheres.

Não. Homens tendem a apresentar menor prevalência de transtornos de humor diagnosticados, mas prevalência maior de transtornos por abuso de substâncias e maior participação nas estatísticas de suicídio, o que sugere que o sofrimento muitas vezes se expressa de forma diferente, não que seja menor.

Em muitos casos sim. A homofobia funciona como reforço adicional do medo de parecer fraco ou “não másculo o suficiente”, o que pode tornar o pedido de ajuda ainda mais custoso emocionalmente, mesmo quando o sofrimento é o mesmo.

Sim. Escrever sobre o que se sente, conversar com uma pessoa de confiança, ou participar de espaços de escuta entre homens são passos válidos e podem, com o tempo, preparar o caminho para um acompanhamento profissional, quando ele for necessário.

Referências

BOLA, J. J. Mask Off: Masculinity Redefined. London: Pluto Press, 2019.

FERREIRA, Eudes Dias. Homem não chora: a cultura de silêncio emocional e a saúde mental masculina. 2022. 26 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Anhanguera, Salvador, 2022.

GUTMANN, Matthew C. The Meanings of Macho: being a man in Mexico City. 10. ed. Berkeley: University of California Press, 2007.

IAROSESKI NETO, Germano; KRISTENSEN, Christian Haag. Quando homens vão à psicoterapia: uma revisão de contextos e demandas. Revista Brasileira de Psicoterapia, Porto Alegre, v. 24, n. 2, p. 75-86, 2022. DOI: 10.5935/2318-0404.20220011.

KIMMEL, Michael. Guyland: the perilous world where boys become men. Ed. atualizada. New York: Harper Perennial, 2018.

KIMMEL, Michael S. Angry White Men: American Masculinity at the End of an Era. New York: Nation Books, 2013.

MARQUES, Nelson. Os homens também choram: histórias da nova masculinidade. Lisboa: Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2021.

REAL, Terrence. I Don’t Want to Talk About It: Overcoming the Secret Legacy of Male Depression. New York: Scribner, 1997.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Explore a Biblioteca