Sexualidade e Identidade

Solidão LGBTQIA+: quando ser aceito não significa sentir que pertence

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Existe uma solidão específica que muitas pessoas LGBTQIA+ carregam mesmo estando cercadas de gente que, em tese, as aceita. É a sensação de estar num lugar sem ser totalmente dele, de ser tolerado sem ser plenamente reconhecido. A solidão LGBTQIA+ nem sempre nasce da rejeição explícita, às vezes nasce justamente da ausência de qualquer coisa parecida com pertencimento real.

Se você já se sentiu sozinho mesmo cercado de pessoas gentis, que “não têm nada contra”, vale entender por que aceitação e pertencimento são experiências diferentes.

solidão LGBTQIA+, pessoa observando grupo social com sensação de distância

A diferença entre ser tolerado e ser reconhecido

Aceitação, no sentido mais comum do termo, costuma significar ausência de hostilidade: ninguém faz piada, ninguém trata mal, ninguém exclui abertamente. Pertencimento é outra coisa. É a sensação de que a própria presença acrescenta algo genuíno ao grupo, que não seria preciso editar partes de si para continuar sendo bem-vindo.

Muitas pessoas LGBTQIA+ vivem décadas nesse espaço intermediário: aceitas o suficiente para não sofrerem agressão direta, mas nunca completamente incluídas nas referências, nas conversas, nas piadas internas que pressupõem uma vida heterossexual e cisgênero como padrão.

Solidão LGBTQIA+ como efeito de uma inclusão parcial

O Conselho Federal de Psicologia, nas Referências Técnicas para Atuação em Políticas Públicas para População LGBTQIA+, publicadas em 2023, destaca que as violências enfrentadas por essa população vão muito além da agressão física, incluindo violências veladas e omissões da sociedade que produzem sofrimento contínuo, mesmo sem episódios de conflito aberto.

Esse tipo de violência silenciosa é exatamente o que sustenta a solidão LGBTQIA+ em espaços “aceitáveis”: ninguém pratica exclusão ativa, mas também ninguém constrói o tipo de reconhecimento que permitiria à pessoa se sentir parte de verdade. É uma solidão difícil de nomear, porque não há nenhum evento específico a apontar como causa.

Sinais de que a aceitação recebida não virou pertencimento

 . Sensação de estar sempre em modo de tradução, explicando aspectos da própria vida que outros não precisam explicar

 . Perceber que assuntos importantes da própria experiência nunca surgem espontaneamente nas conversas do grupo

 . Sentir alívio desproporcional em raros momentos com pessoas que compartilham a mesma vivência

O papel histórico da patologização na solidão da população LGBTQIA+

Parte dessa dificuldade de pertencimento tem raízes históricas. Até 1999, era possível no Brasil que profissionais de psicologia tratassem a homossexualidade como algo a ser corrigido. A Resolução CFP nº 001/99 foi o marco que estabeleceu, oficialmente, que a homossexualidade não constitui doença, distúrbio ou perversão, proibindo psicólogos de colaborar com qualquer tentativa de “tratamento” ou “cura”.

Décadas de patologização deixam marcas que não desaparecem com uma resolução, por mais importante que seja. Muitas pessoas LGBTQIA+ mais velhas cresceram internalizando a ideia de que sua própria existência era um problema clínico, e essa internalização ainda molda a forma como se relacionam com espaços coletivos, mesmo os que hoje se declaram abertamente acolhedores.

Quando a comunidade também não garante pertencimento

Existe uma expectativa de que encontrar outras pessoas LGBTQIA+ resolveria automaticamente essa solidão. Nem sempre resolve. A população LGBTQIA+ não é homogênea, e diferenças de raça, classe, idade, identidade de gênero e até de subcultura dentro da própria comunidade podem recriar as mesmas dinâmicas de exclusão parcial em espaços que, à primeira vista, deveriam ser seguros.

Isso já foi discutido, de forma mais ampla, no artigo sobre pertencimento, que vale a leitura complementar para quem quer entender o mecanismo psicológico por trás dessa necessidade. Aqui, o recorte é específico: pertencer a uma comunidade rotulada como “sua” não garante, automaticamente, o reconhecimento que sustenta o sentimento de pertencimento real.

Perguntas para diferenciar aceitação de pertencimento em um espaço

 . Nesse grupo, minha experiência é assunto de conversa espontânea, ou só surge quando eu trago?

 . Eu sinto que preciso editar partes de mim para continuar sendo bem-vindo aqui?

 . Existe alguém aqui que, se eu sumisse, notaria uma ausência específica, não genérica?

O que isso está tentando dizer?

A solidão LGBTQIA+ que persiste mesmo em ambientes “aceitáveis” costuma ser lida, erroneamente, como um problema de a pessoa não se esforçar o suficiente para se conectar. Raramente é isso. Na maioria das vezes, é o resultado de décadas de estrutura social que ensinou a distinguir entre tolerar e incluir, entre não excluir ativamente e reconhecer de verdade.

O sintoma da solidão, aqui, está tentando dizer que existe uma diferença real entre esses dois estados, e que a pessoa está sentindo essa diferença com precisão, não com exagero. Nomear essa distinção já é, em si, uma forma de deixar de se culpar por algo que não é falha pessoal.

solidão LGBTQIA+, momento de conexão genuína e pertencimento real entre duas pessoas

Existe um caminho possível para sair dessa solidão específica

Não existe atalho que transforme espaços de tolerância em espaços de pertencimento da noite para o dia. Existe a possibilidade de buscar, deliberadamente, os poucos vínculos que oferecem reconhecimento real, mesmo que sejam menos numerosos do que os espaços de simples aceitação, e de reconhecer o valor específico desses vínculos em vez de descartá-los por serem raros.

O acompanhamento psicológico pode ajudar a diferenciar solidão estrutural de solidão que reflete padrões pessoais de isolamento, dois fenômenos que se confundem com facilidade, mas que pedem caminhos diferentes de cuidado.

Se você reconhece essa sensação de estar num lugar sem ser totalmente dele, mesmo cercado de pessoas gentis, vale ter um espaço para entender melhor essa solidão específica, sem pressa de se explicar demais.

Perguntas frequentes

Solidão LGBTQIA+ é diferente de solidão em geral?

Em parte sim. Ela costuma envolver a experiência específica de estar em espaços que não excluem ativamente, mas também não oferecem reconhecimento pleno da própria identidade e vivência.

Não necessariamente. A comunidade LGBTQIA+ não é homogênea, e diferenças internas de raça, classe, idade e identidade podem recriar dinâmicas de exclusão parcial mesmo dentro dela.

Porque geralmente não há um evento específico de rejeição para apontar, é uma ausência contínua de reconhecimento, mais difícil de nomear do que uma agressão direta.

Sim, até a Resolução CFP nº 001/99 estabelecer oficialmente que a homossexualidade não constitui doença, distúrbio ou perversão, proibindo qualquer prática de “cura”.

Ajuda, principalmente para diferenciar solidão estrutural, ligada a contextos sociais, de padrões pessoais de isolamento que pedem abordagens diferentes.

Referência

Conselho Federal de Psicologia. Resolução CFP nº 001/99. Brasília, 1999.

Conselho Federal de Psicologia. Referências Técnicas para Atuação de Psicólogas, Psicólogos e Psicólogues em Políticas Públicas para População LGBTQIA+. Brasília, 2023.

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