Saúde Mental

Envelhecer sem filhos: quem vai cuidar de mim?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

O formulário do hospital pede um contato de emergência. Mais abaixo, o nome de um acompanhante para o dia do exame. A caneta para por um instante. Para muita gente, é numa linha em branco como essa que a ideia de envelhecer sem filhos deixa de ser um assunto abstrato e vira uma pergunta concreta: se eu precisar, quem vem?

A pergunta costuma chegar bem antes da velhice. Aparece aos quarenta, aos cinquenta, numa conversa de família, num aniversário, na doença de um pai. E raramente é dita em voz alta, porque parece confissão de arrependimento, mesmo quando não é.

Envelhecer sem filhos: homem idoso de chapéu de palha empurra, rindo, um carrinho de madeira com uma mulher idosa de braços erguidos, em estrada de terra ao pôr do sol.

Envelhecer sem filhos não é uma coisa só

Há quem não teve filhos porque não quis. Há quem quis e não pôde. Há quem foi adiando até que o tempo decidiu, quem não encontrou com quem ter, quem escolheu outra vida e nunca olhou para trás.

São histórias muito diferentes reunidas sob a mesma expressão. Para algumas pessoas, não ter filhos é uma liberdade vivida com alegria. Para outras, é uma ferida. Para a maioria, provavelmente, é um pouco das duas coisas em momentos distintos.

Os pesquisadores Pearl Dykstra e Michael Wagner chamam atenção para outra distinção: não ter tido filhos é diferente de ter sobrevivido a eles. E há ainda quem os tenha e viva sem contato. Chegar à velhice sem filhos por perto pode acontecer por muitos caminhos.

Um Brasil com menos filhos

Essa experiência está deixando de ser exceção. Segundo o Censo 2022 do IBGE, a proporção de mulheres de 50 a 59 anos que não tiveram filhos passou de 11,8% em 2010 para 16,1% em 2022.

No mesmo levantamento, a taxa de fecundidade do país chegou a 1,55 filho por mulher, a menor já registrada. O IBGE associa a mudança ao adiamento da maternidade e à redução do desejo de ter filhos.

Em outras palavras, uma parcela crescente de brasileiros vai envelhecer sem descendentes. A pergunta sobre quem cuida deixa de ser um problema individual e passa a ser uma questão de como a sociedade se organiza.

Filho é garantia de companhia? O que as pesquisas mostram

A resposta honesta tem duas partes.

A primeira: não ter filhos faz alguma diferença. Um estudo recente de Jasper De Witte e Hannelore Stegen, com mais de 3.400 adultos na Bélgica, encontrou níveis mais altos de solidão entre pessoas sem filhos do que entre pais e mães.

A segunda parte é a que surpreende. Essa diferença foi mais forte entre os 35 e os 64 anos, e desapareceu a partir dos 75. O período em que não ter filhos mais pesa não é a velhice avançada, e sim a meia-idade, quando os amigos estão absorvidos pela criação dos próprios filhos e a comparação é diária.

O mesmo estudo mostrou que ter um parceiro reduz a solidão em todas as suas formas. E uma pesquisa dinamarquesa com mais de 5 mil pessoas de 67 a 97 anos chegou a conclusão parecida sobre o cuidado prático: a falta de apoio aparece principalmente entre quem não tem filhos nem parceiro, com risco maior para homens que vivem sozinhos e têm a saúde frágil.

Os filhos, portanto, não são garantia, e a ausência deles não é sentença. O que os estudos apontam é que o risco se concentra em quem chega à velhice sem nenhum vínculo próximo. É a rede que protege.

O que os estudos indicam:

 . Adultos sem filhos relatam, em média, mais solidão, sobretudo entre 35 e 64 anos.

 . Depois dos 75 anos, a diferença em relação a quem tem filhos deixa de aparecer.

 . Ter um parceiro ou parceira reduz a solidão de forma consistente.

 . A falta de apoio prático se concentra em quem não tem filhos nem parceiro.

 . São pesquisas europeias, feitas em países com serviços públicos de cuidado mais amplos que os do Brasil.

O luto pelo que não foi

Para quem desejou filhos e não os teve, existe uma perda difícil de nomear. Não há data, não há ritual, não há quem mande flores.

O pesquisador Kenneth Doka chamou esse tipo de experiência de luto não reconhecido: aquele que a pessoa vive sem que a sociedade lhe conceda o direito de estar enlutada. Ouve-se “pelo menos você tem liberdade” ou “ainda dá tempo”, frases que encerram a conversa antes que ela comece.

Essa tristeza costuma voltar em ondas. No nascimento dos sobrinhos, nas formaturas dos filhos dos amigos, quando chegam os netos dos outros. Não é sinal de que a pessoa não superou. É uma perda que acompanha as etapas da vida que ela imaginou.

Casal de idosos sorridentes corre pela beira do mar ao entardecer, cada um carregando uma prancha de surfe, imagem de uma velhice ativa e acompanhada.

"E quem vai cuidar de você?"

A pergunta é feita em almoços de família como se fosse preocupação. Muitas vezes funciona como acusação, dirigida com mais frequência a mulheres: você não fez o que devia, e vai pagar por isso.

Freud ajuda a entender por que o assunto mobiliza tanto. Em Introdução ao narcisismo, ele observa que o amor dos pais pelos filhos carrega algo do próprio narcisismo, a esperança de que, por meio deles, uma parte de nós continue depois que não estivermos mais aqui. Os filhos são, entre outras coisas, uma promessa de continuidade.

Quem não tem filhos fica diante dessa questão sem intermediário. O que continua de mim? Quem vai lembrar? E quem faz essa pergunta em tom de cobrança talvez esteja, sem perceber, tentando afastar a própria angústia sobre o mesmo ponto.

Daí vem também uma culpa difusa, de ter decepcionado os pais que queriam netos ou de não ter seguido o roteiro esperado, que merece ser examinada em vez de simplesmente carregada.

Envelhecer sem filhos e sem parceiro

Quando também não há um companheiro ou companheira, o medo muda de forma. Deixa de ser “vou ficar só” e passa a ser “quem vai decidir por mim se eu não puder?”.

É um medo concreto. Quem assina a autorização de uma cirurgia, quem conversa com o médico, quem sabe onde estão os documentos, quem percebe que faz dois dias que eu não respondo às mensagens.

A pesquisa dinamarquesa mostra que essa é, de fato, a situação de maior vulnerabilidade, especialmente entre homens, que tendem a ter redes de amizade menores e a depender mais da parceira para manter os vínculos sociais, tema que aparece também no texto sobre solidão masculina.

Reconhecer esse risco não é pessimismo. É o que permite fazer algo a respeito enquanto há tempo e saúde para isso.

Cuidar da geração seguinte sem ter filhos

Erik Erikson descreveu a maturidade como o tempo da generatividade: o interesse em cuidar da geração seguinte e em deixar algo para ela. E fez questão de dizer que isso não se limita a ter filhos.

Gera-se também ensinando, orientando alguém mais jovem no trabalho, acompanhando sobrinhos e afilhados, sustentando um projeto, uma obra, uma comunidade. O contrário da generatividade, para Erikson, não é a ausência de filhos. É a estagnação, o fechamento em si.

Muitas pessoas sem filhos exercem esse cuidado de forma intensa e pouco reconhecida. São a tia que paga o curso, o padrinho que escuta, a professora que muda uma trajetória. Esses vínculos contam, e contam nos dois sentidos.

Família escolhida, amizade e reciprocidade

Durante muito tempo, pessoas LGBTQIA+ envelheceram sem o apoio da família de origem e sem a possibilidade de formar a própria. Foi nessa comunidade que se consolidou a ideia de família escolhida, a rede de amigos que assume o lugar de parente, como aparece no artigo sobre solidão LGBTQIA+.

Essa experiência tem algo a ensinar a todo mundo que envelhece sem filhos. Vínculos de cuidado podem ser construídos. Mas precisam de tempo, presença e reciprocidade, e não se improvisam na hora da necessidade.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que o medo de não ter quem cuide muitas vezes convive com uma grande dificuldade de pedir e de receber cuidado. Quem passou a vida sendo autossuficiente pode precisar aprender, já adulto, a depender de alguém.

A amizade que sustenta uma velhice é aquela em que as duas pessoas já se viram frágeis.

Preparar antes de precisar

Há um lado prático nessa questão, e olhar para ele costuma diminuir a angústia.

O primeiro passo é saber com quem se pode contar e dizer isso a essas pessoas. Combinar com um amigo que cada um é o contato de emergência do outro é um gesto simples que muda a linha em branco do formulário.

O segundo é registrar as próprias vontades. No Brasil, a Resolução 1.995/2012 do Conselho Federal de Medicina reconhece as diretivas antecipadas de vontade, definidas como o conjunto de desejos manifestados previamente pela pessoa sobre os cuidados e tratamentos que quer ou não receber. O paciente também pode indicar alguém para falar em seu nome.

Há outros instrumentos, como procurações, que dependem de orientação jurídica. Este texto não substitui essa consulta. O que importa aqui é saber que não ter filhos não significa ficar sem voz: é possível escolher quem falará por você.

Perguntas que vale se fazer agora

 . Quem são as três pessoas para quem eu ligaria numa emergência?

 . Elas sabem disso? E eu sou essa pessoa para alguém?

 . Alguém conhece minhas vontades sobre tratamentos e cuidados?

 . Tenho vínculos com pessoas de gerações diferentes da minha?

 . O que tenho feito para manter as amizades que quero levar para a velhice?

Para quem mora fora do Brasil

Para quem vive no exterior, envelhecer sem filhos soma duas distâncias. A família de origem está longe, e a rede local, muitas vezes, foi construída em torno do trabalho e pode não resistir a uma mudança de emprego ou de país.

A pergunta sobre onde envelhecer se mistura com a pergunta sobre com quem. Voltar para perto de irmãos e sobrinhos, ficar onde se construiu a vida adulta, ou reconhecer que a rede precisa ser cuidada nos dois lugares.

Não há resposta certa. Mas é uma conversa que vale começar antes que uma urgência a decida.

A pergunta talvez seja outra

“Quem vai cuidar de mim?” pressupõe que o cuidado venha de uma pessoa designada, por obrigação de sangue. Talvez essa nunca tenha sido uma garantia, nem para quem tem filhos, como mostra a solidão na velhice de tantas pessoas com família numerosa.

Uma pergunta mais útil pode ser: com quem estou construindo uma vida em que o cuidado circule? Ela não depende do que aconteceu ou deixou de acontecer no passado. Depende do que se faz agora.

Em meio à solidão que marca o nosso tempo, envelhecer sem filhos não é envelhecer sem ninguém. Mas exige uma coisa que a família tradicional dispensava: escolher os vínculos, e cuidar deles de propósito.

Uma pergunta que não precisa ser pensada a sós

O medo de envelhecer sem ter quem cuide costuma ser guardado em silêncio. Junto dele, às vezes, vêm um luto antigo, a culpa de não ter seguido o caminho esperado ou a dificuldade de pedir ajuda depois de uma vida inteira resolvendo tudo sozinho.

A psicoterapia pode ser um lugar para olhar para isso com calma. Se fizer sentido, é possível começar por uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.

Perguntas frequentes

Quem não tem filhos fica mais sozinho na velhice?

Não necessariamente. Um estudo europeu encontrou mais solidão entre adultos sem filhos principalmente dos 35 aos 64 anos, e nenhuma diferença depois dos 75. O que mais pesa é a presença ou ausência de vínculos próximos.

Parceiros, irmãos, sobrinhos, amigos e serviços profissionais. As pesquisas indicam que a falta de apoio se concentra em quem não tem filhos nem parceiro, por isso construir uma rede antes de precisar faz diferença.

Sim. É um medo comum, ligado à dependência e à continuidade. Ele merece atenção quando se torna constante ou impede a pessoa de aproveitar a vida que tem.

São os desejos que a pessoa registra previamente sobre cuidados e tratamentos que quer ou não receber. No Brasil, são reconhecidas pela Resolução 1.995/2012 do Conselho Federal de Medicina, que também permite indicar um representante.

Reconhecendo que se trata de uma perda real, mesmo sem ritual. Falar sobre ela com alguém que escute sem tentar consolar depressa costuma ajudar, e a psicoterapia pode ser um espaço para isso.

Referências

CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. Resolução CFM n. 1.995, de 9 de agosto de 2012. Dispõe sobre as diretivas antecipadas de vontade dos pacientes. Brasília: CFM, 2012.

DE WITTE, Jasper; STEGEN, Hannelore. A life without children: unpacking the relationship between childlessness and loneliness in adulthood. Journal of Family Issues, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0192513X251414627

DOKA, Kenneth J. (ed.). Disenfranchised grief: recognizing hidden sorrow. Lexington: Lexington Books, 1989.

DYKSTRA, Pearl A.; WAGNER, Michael. Pathways to childlessness and late-life outcomes. Journal of Family Issues, v. 28, n. 11, p. 1487-1517, 2007. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0192513X07303879

ERIKSON, Erik H. Infância e sociedade. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 12. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

IBGE. Censo Demográfico 2022: fecundidade e migração: resultados preliminares da amostra. Rio de Janeiro: IBGE, 2025.

KJÆR, Agnete Aslaug; SIREN, Anu. Aging without children: the link between parental status and tangible support. Journal of Family Issues, v. 42, n. 5, p. 1055-1076, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0192513X21993203

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