Saúde Mental

O trauma pode ser curado?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Depois de uma violência, um abuso, um abandono ou uma experiência profundamente desorganizadora, quase sempre surge a mesma pergunta: será que um dia isso passa? É comum formular essa dúvida como se o trauma pode ser curado tivesse uma resposta simples, sim ou não.

A resposta mais honesta é outra. O trauma pode ser tratado, elaborado e integrado, mas a recuperação nem sempre significa esquecer. Uma lembrança pode continuar existindo e, ainda assim, deixar de provocar pânico, vergonha ou a sensação de que o perigo está acontecendo agora.

O trauma pode ser curado? Mulher sentada diante de uma parede parcialmente aberta, olhando para a luz, em representação simbólica da recuperação do trauma.

O que recuperação pode significar na prática

Curar-se, neste sentido, pode ser conseguir lembrar sem reviver a cena como se ela estivesse em curso. Pode ser dormir melhor, sentir o corpo menos preso ao alerta, ou voltar a ocupar lugares e relações antes evitados.

Pode ser também reconhecer que a culpa pertence a quem feriu, não a quem sobreviveu. E pode ser, de forma mais ampla, construir uma vida com vínculo, prazer e escolha para além da sobrevivência. O trauma não precisa ser a última palavra sobre quem alguém é.

O que recuperação não exige

 . Esquecer o que aconteceu

 . Perdoar quem causou o dano

 . Encontrar um lado positivo na experiência

 . Contar a própria história para todo mundo

 . Deixar de sentir tristeza, raiva ou medo em algum momento

Cura ou integração: uma diferença que ajuda a pensar

Na prática clínica, cura costuma ser uma palavra ampla, usada para indicar redução do sofrimento e recuperação do funcionamento. Já integração descreve algo mais específico: o processo de incluir a experiência traumática na própria história, sem que ela continue invadindo o presente.

Quando há pouca integração, a pessoa pode sentir algo como: “sei que aconteceu, mas parece que ainda está acontecendo”. Quando há mais integração, a frase muda de forma: “isso aconteceu comigo e foi injusto, mas não é tudo o que eu sou”.

Essa passagem tem uma leitura psicanalítica precisa. O que não pode ser recordado tende a reaparecer como repetição, nos sintomas, nos sonhos, nos vínculos. Esse mesmo mecanismo aparece, com outro enfoque, em trauma e repetição: o trabalho clínico consiste em transformar gradualmente o que era vivido de modo automático em algo que possa ser lembrado, narrado e elaborado.

Por que a recuperação não é linear

Muitas pessoas melhoram e, em algum momento, voltam a sentir medo ou ativação diante de uma data, uma notícia ou uma relação nova. Isso não significa que o tratamento falhou. Pode significar que uma situação atual tocou uma camada antiga de vulnerabilidade, algo parecido com o que acontece em trauma e relacionamentos, quando o vínculo presente reativa uma história anterior.

A recuperação costuma se parecer mais com um movimento cíclico do que com uma linha reta. Primeiro, a pessoa talvez só consiga atravessar o dia. Depois, começa a reconhecer o que a ativa. Mais tarde, aprende a se regular sem se machucar, e só então consegue elaborar lembranças e crenças associadas ao trauma.

O que ajuda no tratamento

Não existe uma única terapia ideal para todas as pessoas. O tipo de trauma, a segurança atual e a presença de dissociação ajudam a definir o caminho mais indicado.

Tabela: trauma pode ser curado. Abordagens sobre o tratamento

As diretrizes do NICE (National Institute for Health and Care Excellence, o órgão britânico responsável por avaliar evidências científicas e orientar o sistema de saúde do Reino Unido) recomendam, para adultos com sintomas relevantes de TEPT, intervenções individuais focadas no trauma, e destacam que os ganhos obtidos com a TCC focada em trauma podem se manter por pelo menos um ano (NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE, 2018). 

Uma revisão de revisões recente reforça a eficácia dessas abordagens, especialmente TCC focada em trauma e EMDR, na redução de sintomas (PTSD AND COMPLEX PTSD, 2025). A psicanálise segue outro percurso de validação, mais centrado na elaboração clínica do caso do que em protocolos comparativos, e trabalha menos a eliminação de sintomas isolados e mais a construção de sentido em torno da experiência traumática, algo que também aparece em trauma e repetição.

Segurança antes de processamento

 . Falar sobre o trauma pode ajudar, mas nem sempre é o primeiro passo

 . Quando há violência atual, risco de suicídio ou ausência de suporte, a prioridade é proteção e estabilização

 . Isso não significa esperar estar “perfeitamente pronto”, significa respeitar o próprio ritmo

O que isso está tentando dizer?

Quando alguém pergunta se o trauma pode ser curado, muitas vezes está perguntando outra coisa: será que um dia vou deixar de viver em alerta?

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que essa pergunta costuma esconder um medo mais específico, o de que a experiência vivida continue decidindo, para sempre, o que a pessoa pode sentir, confiar ou permitir para si. Reconhecer esse medo, em vez de buscar uma resposta definitiva sobre cura, já abre outro tipo de trabalho possível.

Recuperar não é apagar

O trauma pode ser curado, nesse sentido mais cuidadoso, quando deixa de governar a vida. A memória pode permanecer, e o presente pode, ainda assim, se tornar maior do que ela. Isso vale tanto para quem atravessou um evento único quanto para quem carrega experiências mais repetidas, como as que aparecem em trauma amoroso ou em vínculos marcados desde a infância.

Recuperar-se não é provar força, nem se obrigar a perdoar. É recuperar segurança, escolha e possibilidade de vínculo. É poder dizer: isso aconteceu, mas não é tudo o que eu sou.

Quando buscar ajuda com urgência

 . Se há risco de suicídio, autoagressão ou violência em curso, a prioridade é segurança imediata

 . No Brasil, o CVV atende pelo 188, o SAMU pelo 192

 . Violações de direitos humanos podem ser comunicadas ao Disque 100

 . Violência contra mulheres pode ser comunicada ao 180

Uma pergunta que merece mais do que uma resposta rápida

Perguntar se o trauma pode ser curado costuma vir acompanhado de cansaço, de esperança e, às vezes, de medo de se decepcionar. Essa pergunta merece um espaço de conversa, não só uma resposta pronta.

Perguntas frequentes

O trauma pode ser curado por completo, sem deixar nenhuma marca?

Nem sempre. Algumas experiências deixam marcas na forma de perceber segurança e vínculos. Mas deixar marcas é diferente de ser dominado por elas para sempre.

Não. Perdão não é exigência da recuperação. Muitas pessoas se recuperam sem perdoar quem as feriu.

Varia muito, conforme o tipo de trauma, se foi único ou repetido, e a rede de apoio disponível. A recuperação costuma ser cíclica, não uma linha reta com prazo fixo.

Não necessariamente. Uma situação atual pode reativar uma vulnerabilidade antiga sem apagar os recursos já construídos ao longo do tratamento.

Referências

AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION. APA Clinical Practice Guideline for the Treatment of Posttraumatic Stress Disorder in Adults.B

LACKIE, Meg et al. Digital-based interventions for complex post-traumatic stress disorder: a systematic literature review. Trauma, Violence, & Abuse, 2024.

BOWERS, Christopher et al. Psychological therapies for PTSD in low- and middle-income countries. World Psychiatry, 2019.

LEWIS, Catrin et al. Post-traumatic stress disorder: what does NICE guidance mean for primary care? British Journal of General Practice, 2019.

Narrative-based autobiographical memory interventions for post-traumatic stress disorder: a systematic review and meta-analysis. 2023.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Post-traumatic stress disorder: recommendations. 2018.

PTSD and complex PTSD, current treatments and debates: a review of reviews. British Medical Bulletin, 2025.

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