Saúde Mental

Trauma e repetição: por que às vezes revivemos aquilo que nos machucou?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Há pessoas que percebem um padrão na própria vida amorosa. Envolvem-se repetidamente com parceiros indisponíveis, toleram o que não deveriam tolerar, ou se afastam justamente quando a intimidade se torna possível. A pergunta que costuma surgir é sempre parecida: por que parece que continuo escolhendo a mesma história?

A psicanálise oferece uma resposta que não culpabiliza. Muito do que chamamos de trauma e repetição não acontece por vontade consciente. Pode ser uma tentativa do psiquismo de lidar com algo que ficou sem palavras, sem elaboração, sem possibilidade de ser simplesmente lembrado.

Trauma e repetição: vista aérea de uma pessoa caminhando por uma trilha circular marcada por muitas pegadas anteriores, com um dos pés levemente fora do caminho

Trauma e repetição: o que Freud percebeu

Freud desenvolveu a ideia de compulsão à repetição sobretudo em “Além do princípio do prazer” (1920), ao notar algo que desafiava sua própria teoria: se a mente busca prazer e evita desprazer, por que alguém voltaria, em sonhos ou em atos, a experiências de sofrimento?

A hipótese é que o psiquismo tenta transformar uma experiência excessiva, que não pôde ser integrada, em algo que possa ser ligado e representado. Em vez de recordar e contar, a pessoa repete em ato. Em “Recordar, repetir e elaborar” (1914), Freud formula algo essencial para este tema: aquilo que não pode ser lembrado como parte da própria história tende a ser repetido como comportamento no presente.

Repetir não é escolher sofrer

Este é o ponto ético central. Não é adequado dizer que alguém “atrai” relações abusivas ou “gosta” de sofrer. Essas frases culpabilizam quem sofre e ignoram como trauma, medo e falta de alternativas reais podem limitar escolhas.

A repetição costuma aparecer como familiaridade. O que foi conhecido na infância pode parecer reconhecível mesmo quando dói, porque a pessoa aprendeu, ali, a associar amor a vigilância, esforço ou imprevisibilidade. Reconhecer esse padrão ajuda a compreender, mas não retira a responsabilidade de quem pratica violência.

Alguns padrões possíveis

 . Abandono na infância pode reaparecer como medo intenso de rejeição

 . Crítica constante pode reaparecer como dificuldade de aceitar um elogio

 . Imprevisibilidade pode reaparecer como atração por relações intensas demais

 . Nenhum desses padrões é regra fechada, só possibilidades a observar com cuidado

Recordar, repetir e elaborar

Existe uma diferença importante entre esses três movimentos. Recordar é conseguir contar algo e situar um acontecimento na própria história. Repetir é revivê-lo sem perceber plenamente sua ligação com o passado, seja em uma escolha amorosa, seja em um comportamento automático. Elaborar é trabalhar essa experiência até que ela deixe de comandar o presente com a mesma força.

Esse percurso raramente é linear. A pessoa costuma primeiro repetir, depois começar a notar o padrão, e só então consegue ligar sentimentos a memórias e construir uma resposta diferente. Esse movimento também aparece, por outro ângulo, em como o medo de abandono organiza silenciosamente certas escolhas afetivas.

O que isso está tentando dizer?

Um padrão que se repete quase sempre está tentando dizer algo que não encontrou, até agora, outra forma de ser dito.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a repetição pode se organizar em torno de uma fantasia silenciosa: desta vez será diferente. A pessoa busca, numa relação nova, a resolução de uma ferida antiga. Quando o desfecho volta a doer, reconhecer esse mecanismo, sem culpa, já é o começo de outra resposta possível.

Trauma e repetição: mulher abre uma porta em um corredor e encontra, do outro lado, o mesmo corredor se repetindo

O passado não precisa decidir sozinho

Nem toda repetição é destrutiva. Rotinas, hábitos e até certos rituais afetivos também são repetitivos e ajudam a organizar a vida. O problema aparece quando o padrão mantém alguém preso a um roteiro de desamparo, sem espaço para mudança.

Diferente de um trauma amoroso, que trata da dor de um término específico, e de trauma e relacionamentos, que trata da dinâmica dentro de um vínculo em curso, aqui o foco é outro: o padrão que atravessa relações diferentes ao longo do tempo. Construir novas experiências de vínculo, com previsibilidade e cuidado real, costuma ser o que, aos poucos, ensina ao corpo que o presente pode ser diferente do que já foi vivido.

Quando a prioridade é segurança

 . Se há ameaça, controle coercitivo ou violência, a prioridade é  . segurança, não a tentativa de elaborar o padrão dentro da relação

 . No Brasil, violência contra mulheres pode ser comunicada ao 180

 . O SAMU atende emergências médicas pelo 192

 . O CVV atende em crise emocional pelo 188

Quando a mesma história parece se repetir

Notar um padrão é diferente de saber como sair dele. Às vezes esse processo pede um espaço para olhar com calma para o que se repete e por quê.

Perguntas frequentes

Repetir um padrão doloroso significa que a pessoa gosta de sofrer?

Não. A compulsão à repetição é, na psicanálise, uma tentativa inconsciente de dar sentido a uma experiência que não pôde ser elaborada, não um desejo de sofrimento.

Em alguns casos, observar o padrão já ajuda. Mas quando ele causa prejuízo real, a psicoterapia costuma ser o caminho mais eficaz para ligar passado e presente.

Não necessariamente. Podem aparecer também no trabalho, em amizades e em escolhas cotidianas, embora relações afetivas costumem ativá-los com mais força.

Não. Compreender a origem de uma reação não significa aceitar comportamento abusivo. Quando há violência, a prioridade é segurança, não a tentativa de elaborar o padrão dentro da própria relação.

Referências

As movimentações da ideia de repetição no texto freudiano: uma leitura cronológica. Psicologia USP, 2018.

FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer. 1920.

FREUD, Sigmund. Recordar, repetir e elaborar. In: Obras completas, v. 10. 1914.

O percurso do conceito de repetição em Freud. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 2024.

O trauma e seu tratamento: contribuições de Freud e Lacan. Revista aSEPHallus, 2021.

Reflexões sobre a compulsão à repetição a partir de Além do princípio do prazer. Tempo Psicanalítico, 2019.

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