Há poucos anos, conversar com uma máquina sobre a própria vida parecia ficção científica. Hoje, muitas pessoas contam a assistentes de inteligência artificial o que não contam a ninguém: o dia difícil, a briga com a família, o medo de não dar conta. A relação entre solidão e inteligência artificial deixou de ser hipótese e passou a fazer parte do cotidiano.
Este artigo não condena nem celebra essa prática. Ele mostra o que as pesquisas já sabem, em que situações a IA parece aliviar e em quais ela pode aprofundar o isolamento, e o que a psicanálise ajuda a pensar sobre uma companhia que nunca se cansa. O texto integra a série sobre a solidão como epidemia silenciosa da vida contemporânea.
Solidão e inteligência artificial: por que tanta gente conversa com a IA
A tendência de atribuir compreensão a uma máquina é antiga. Em 1966, Joseph Weizenbaum criou ELIZA, um programa simples que imitava as perguntas de um terapeuta, e se surpreendeu ao ver pessoas pedindo para ficar a sós com ele para conversar (WEIZENBAUM, 1966). As ferramentas atuais são muito mais sofisticadas, e o efeito se intensificou.
A IA está disponível a qualquer hora, não julga, não se irrita e responde sempre com atenção. Para quem se sente só, sobretudo à noite ou em fases de isolamento, isso pode ser um alívio real. A socióloga Sherry Turkle (2011) já observava que a tecnologia é mais sedutora justamente onde somos mais vulneráveis: ela oferece a sensação de companhia sem as exigências da amizade.
Por que a IA atrai quem se sente só
. Está disponível a qualquer hora, inclusive de madrugada
. Não demonstra cansaço, impaciência ou desinteresse
. Não exige reciprocidade nem lembra datas importantes do outro
. Permite falar sem medo de ser julgado
. Responde de forma calorosa e personalizada
O que as pesquisas mostram
Um estudo publicado no Journal of Consumer Research comparou diferentes atividades de 15 minutos e encontrou que conversar com um chatbot reduziu a solidão de modo semelhante a conversar com uma pessoa desconhecida, enquanto assistir a vídeos não teve efeito (DE FREITAS et al., 2025). O fator decisivo foi a sensação de ser ouvido. Os próprios autores observaram, porém, que o alívio não se acumulava ao longo de uma semana de uso e alertaram que a IA não deve substituir vínculos humanos nem terapia.
Outro estudo, conduzido por pesquisadores do MIT com 981 participantes ao longo de quatro semanas, chegou a um resultado que merece atenção. Independentemente do tipo de conversa, quem usou o chatbot voluntariamente por mais tempo apresentou piores resultados em solidão, convívio com outras pessoas, dependência emocional e uso problemático (FANG et al., 2025). Quem confiava mais na IA ou se sentia mais atraído por ela tendia a desenvolver mais dependência.
No Brasil, Monteiro e Candido (2025) descreveram o caso de uma mulher que usava intensamente a IA como companhia emocional e demonstrava forte preferência por vínculos artificiais, num padrão que as autoras interpretaram como defensivo. Trata-se de um único caso, que não permite generalizações, mas ilustra o que os estudos maiores sugerem: em algumas pessoas, a IA deixa de ser ponte e passa a ser refúgio.
Os resultados, juntos, apontam para uma distinção importante. Uma conversa ocasional pode aliviar um momento de solidão, assim como um bom livro ou uma música. O risco aparece quando a IA ocupa o lugar dos encontros humanos, e não quando ela apenas os complementa.
O que a psicanálise ajuda a pensar
Freud (1930) observou que as relações com os outros estão entre as maiores fontes de sofrimento humano e que o isolamento voluntário é uma das defesas mais imediatas contra ele. A IA oferece uma forma nova e sofisticada dessa defesa: a sensação de companhia sem o risco de ser frustrado, rejeitado ou contrariado.
Winnicott (1958) mostrou que a capacidade de estar só se desenvolve na presença de alguém confiável, mas esse alguém também falha, se atrasa e tem desejos próprios. É nessas pequenas falhas que reconhecemos o outro como alguém separado de nós. A psicóloga Stella Vilar (2025) argumenta que os chatbots podem adiar indefinidamente essa experiência, oferecendo uma ilusão de fusão que lembra o narcisismo primário descrito por Freud (1914).
Uma IA que sempre concorda, sempre responde e nunca precisa de nada devolve à pessoa uma imagem de si mesma, e não a presença de um outro. Isso pode ser confortável, mas raramente transforma. A solidão costuma diminuir quando somos reconhecidos por alguém que poderia, também, não nos entender, como discutimos em solidão emocional e em intimidade assusta mais do que parece.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que algumas pessoas relatam conversas longas com a IA justamente sobre aquilo que ainda não conseguiram dizer a alguém próximo. A conversa com a máquina, nesses casos, pode ser um ensaio, desde que não se torne o único lugar da fala.
Quando a IA alivia e quando isola
Usar a IA para organizar ideias, desabafar num momento difícil ou se preparar para uma conversa importante não é, por si só, um problema. A questão é o lugar que ela ocupa na vida da pessoa e o que deixa de acontecer por causa dela. Esse movimento lembra o que descrevemos em redes sociais e solidão: estar conectado não é o mesmo que estar acompanhado.
Sinais de que a IA pode estar aprofundando a solidão
. Você prefere conversar com a IA a encontrar ou ligar para pessoas
. Passa horas em conversas e perde a noção do tempo
. Sente ansiedade ou irritação quando não pode usá-la
. Deixou de contar a pessoas próximas o que conta à IA
. Sente que só a IA entende você de verdade
Adolescentes e pessoas em fases de isolamento, como luto, mudança de país ou aposentadoria, merecem atenção especial. Abordamos essas situações em solidão na adolescência, solidão e luto e solidão de brasileiros no exterior.
Como usar a IA sem se afastar das pessoas
. Use a conversa com a IA como ponto de partida, não como ponto final
. Depois de desabafar, pense em uma pessoa com quem poderia falar sobre o mesmo assunto
. Defina limites de tempo, sobretudo à noite
. Observe como você se sente depois de usar: mais disposto a se aproximar ou mais fechado
. Lembre que a IA não substitui atendimento psicológico nem situações de crise
Se você estiver em sofrimento intenso ou pensar em não querer mais viver, procure ajuda humana imediatamente. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia.
Uma companhia que também possa faltar
A inteligência artificial pode oferecer escuta num momento de solidão, e não há vergonha em recorrer a ela. Mas os vínculos que sustentam uma vida são feitos também de desencontros, esperas e diferenças, aquilo que nenhuma máquina oferece.
Talvez a pergunta mais útil não seja se a IA faz bem ou mal, e sim o que ela está ocupando. Quando a conversa com a máquina ajuda a pessoa a voltar para os outros, ela cumpre um papel. Quando passa a substituí-los, a solidão apenas muda de forma. Outras orientações estão em como lidar com a solidão.
Se você percebe que tem conversado mais com a tela do que com as pessoas e quer entender o que essa solidão está dizendo, podemos conversar. Ofereço uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para você contar o que está vivendo e tirar dúvidas sobre o atendimento, presencial em São Paulo ou online.
Perguntas frequentes
Conversar com inteligência artificial ajuda na solidão?
Pode aliviar momentaneamente. Um estudo mostrou que uma conversa com chatbot reduziu a solidão de modo semelhante a conversar com um desconhecido, mas o efeito não se acumulou com o uso diário e não substitui vínculos humanos.
Usar muito a IA pode aumentar a solidão?
Pesquisas indicam que sim. Em um estudo de quatro semanas, quem usou mais o chatbot por vontade própria apresentou mais solidão, menos convívio com pessoas e mais dependência emocional.
É errado desabafar com a IA?
Não. Pode ser útil para organizar ideias ou atravessar um momento difícil. O ponto de atenção é quando a IA passa a ocupar o lugar das conversas com pessoas próximas.
Quais são os sinais de dependência emocional da IA?
Preferir a IA a encontrar pessoas, perder a noção do tempo nas conversas, sentir ansiedade sem ela e acreditar que só a IA entende você.
A IA pode substituir a terapia?
Não. A IA não oferece avaliação clínica, não acompanha a história da pessoa ao longo do tempo e não substitui o atendimento em situações de crise. Ela pode, no máximo, ser um complemento.
Referências
DE FREITAS, Julian; UĞURALP, Ahmet Kaan; OĞUZ-UĞURALP, Zeliha; PUNTONI, Stefano. AI companions reduce loneliness. Journal of Consumer Research, Oxford, 2025. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2407.19096. Acesso em: 10 out. 2026.
FANG, Cathy Mengying et al. How AI and human behaviors shape psychosocial effects of extended chatbot use: a longitudinal randomized controlled study. arXiv, 2025. Disponível em: https://arxiv.org/abs/2503.17473. Acesso em: 10 out. 2026.
FREUD, Sigmund. Introdução ao narcisismo (1914). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 12: introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 13-50.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, volume 18: o mal-estar na civilização, novas conferências introdutórias e outros textos. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 13-122.
MONTEIRO, C. da S.; CANDIDO, L. M. R. Vinculação emocional com Inteligência Artificial na solidão: uma perspectiva neuropsicológica a partir de estudo de caso. Research, Society and Development, Vargem Grande Paulista, v. 14, n. 12, e141141250381, 2025. DOI: 10.33448/rsd-v14i12.50381.
TURKLE, Sherry. Alone together: why we expect more from technology and less from each other. New York: Basic Books, 2011.
VILAR, Stella Crivelenti. A ilusão dos chatbots como companhia: seria a alteridade analógica? Le Monde Diplomatique Brasil, São Paulo, 8 abr. 2025. Disponível em: https://diplomatique.org.br/a-ilusao-dos-chatbots-como-companhia-seria-a-alteridade-analogica. Acesso em: 10 out. 2026.
WEIZENBAUM, Joseph. ELIZA: a computer program for the study of natural language communication between man and machine. Communications of the ACM, New York, v. 9, n. 1, p. 36-45, 1966. DOI: 10.1145/365153.365168.
WINNICOTT, Donald W. A capacidade para estar só (1958). In: WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artmed, 1983. p. 31-37.



