Saúde Mental

Trauma de abandono: quando a perda de um vínculo atinge a sensação de segurança

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Uma criança pode morar com a família inteira reunida sob o mesmo teto e, ainda assim, sentir que ninguém está de fato ali. Um adulto pode ser deixado de forma abrupta por alguém que jurou ficar. Um jovem pode contar para a família quem realmente é e, em resposta, perder o lugar onde crescia. São experiências muito diferentes entre si, mas que compartilham algo em comum: a quebra, real ou sentida, de um vínculo que deveria oferecer proteção. É a isso que a expressão trauma de abandono tenta dar nome.

Trauma de abandono não é um diagnóstico médico. É uma expressão usada para descrever o impacto psicológico de experiências em que uma pessoa importante deixa de oferecer proteção, reconhecimento ou cuidado. Isso pode acontecer por abandono físico, negligência emocional, rejeição, expulsão de casa ou rupturas amorosas, e seus efeitos variam conforme a história de cada pessoa, o momento de vida, a duração da experiência e a presença de redes de apoio.

Urso de pelúcia sentado sozinho em um banco de madeira, com a silhueta de um homem se afastando ao fundo, simbolizando o trauma de abandono

O que pode ser chamado de abandono

 . Ausência física de um cuidador na infância

 . Presença física sem escuta, validação ou disponibilidade afetiva

 . Término abrupto ou marcado por traição numa relação amorosa

 . Rejeição familiar depois da revelação de orientação sexual ou identidade de gênero

 . Perda de rede de apoio depois de uma mudança de vida importante

Nem toda separação ou conflito gera um trauma de abandono. Mas algumas perdas atingem profundamente porque não envolvem apenas o presente. Elas podem reativar uma pergunta mais antiga: será que eu era suficiente para que essa pessoa ficasse?

Abandono na infância: negligência emocional e apego

A negligência emocional na primeira infância nem sempre é visível. Muitas vezes, as necessidades físicas de uma criança são atendidas, alimentação, higiene, segurança, enquanto suas necessidades emocionais permanecem ignoradas ou minimizadas (SALVIANO et al., 2026).

Segundo a teoria do apego de Bowlby, tal como descrita por Salviano et al. (2026), a qualidade da relação com os cuidadores nos primeiros anos de vida participa da construção de modelos internos sobre si mesmo, sobre o outro e sobre o que se pode esperar de um vínculo. Quando essa relação é marcada por ausência de resposta consistente, podem emergir padrões de apego inseguro, ansioso ou evitativo.

Isso não significa que a criança esteja condenada a repetir esse padrão para sempre. Experiências posteriores de cuidado, relações confiáveis, suporte social e psicoterapia podem favorecer novas formas de vínculo ao longo da vida.

Quando a família se desfaz: o pai que vai embora e a mãe que segue sozinha

Uma parte considerável das experiências de trauma de abandono não vem de um único evento, mas de uma ausência que se instala aos poucos dentro da própria família. No Brasil, o número de lares chefiados por mães solo tem crescido de forma expressiva: de acordo com dados da Fundação Getúlio Vargas citados por Silva (2025), esses lares passaram de 9,6 milhões para 11,3 milhões entre 2012 e 2022, um aumento de 17,8%.

Um estudo qualitativo com adultos que cresceram sem a presença paterna (SILVA, 2025) identificou sentimentos recorrentes de rejeição, tristeza, insegurança e medo do abandono, além de padrões relacionais como necessidade constante de agradar e busca por validação em vínculos futuros. Ao mesmo tempo, o estudo também documentou movimentos de ressignificação e fortalecimento emocional ao longo da vida adulta.

É importante que esse ponto não vire um julgamento moral sobre famílias monoparentais. Uma casa com um só cuidador presente pode ser um ambiente profundamente seguro e afetivo. O que produz a marca não é a estrutura familiar em si, é a ausência não elaborada de alguém que deveria estar ali e, silenciosamente, deixa de estar.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitos adultos que cresceram nessa ausência carregam uma pergunta que nunca chegaram a formular na infância: por que eu não fui motivo suficiente para essa pessoa ficar?

Abandono em relações amorosas

Em relações amorosas, o abandono costuma aparecer quando a ruptura é abrupta, unilateral, marcada por traição ou pela retirada de apoio num momento de vulnerabilidade. Mas um término, por mais doloroso que seja, não é automaticamente um trauma de abandono.

Uma pesquisa brasileira (SANTOS; CAMARGO, 2024) descreve como a dependência emocional em relacionamentos conjugais costuma se apoiar justamente no medo de ser abandonado, gerando comportamentos de submissão, idealização do parceiro e dificuldade de autonomia. Marcondes, Trierweiler e Cruz (2006) mostram que a intensidade do sofrimento após um término também varia conforme a duração da relação, o tempo desde a separação e quem tomou a iniciativa do rompimento.

Esse recorte específico, o medo de ser abandonado dentro de uma relação amorosa, é aprofundado com mais detalhe em medo de abandono, que discute a teoria do apego aplicada aos vínculos afetivos adultos.

Rejeição familiar de pessoas LGBTQIA+

Esse eixo exige um cuidado particular. A expulsão de casa ou a ruptura familiar depois da revelação da orientação sexual ou identidade de gênero não deve ser tratada como um conflito familiar comum. Pode envolver violência, dependência financeira, perda de moradia e ruptura de uma rede essencial de proteção.

Perucchi, Brandão e Vieira (2014) concluíram, em estudo brasileiro sobre homofobia intrafamiliar, que a heteronormatividade pode legitimar e manter situações de violência dentro da família, levando ao afastamento e, em muitos casos, à saída ou expulsão de jovens lésbicas e gays de casa.

Uma pesquisa recente com adolescentes LGBT+ brasileiros (DONEDA; PUREZA, 2026) mostra que práticas parentais de apoio emocional e incentivo à autonomia se associam a menor estresse de minorias, enquanto controle punitivo e intrusividade se associam a mais ansiedade, depressão e estresse. Isso reforça que a família pode atuar tanto como fator de proteção quanto como fonte de trauma, dependendo de como ela responde.

Pessoas LGBTQIA+ não apresentam sofrimento psíquico por causa de quem são. O risco aumenta quando enfrentam rejeição, estigma, ameaças ou expulsão de casa. A responsabilidade pelo dano está no preconceito e na violência sofridos, nunca na identidade da pessoa que os sofre.

O que isso está tentando dizer?

Quando um trauma de abandono continua ativo muito tempo depois do evento que o originou, ele costuma estar tentando dizer algo que não pôde ser dito no momento em que aconteceu. Pode estar dizendo que aquela ausência foi maior do que a pessoa conseguiu processar sozinha. Pode estar dizendo que ninguém validou a dor na época em que ela aconteceu.

O medo de ser abandonado, a dificuldade de confiar, a vigilância constante em relação a sinais de rejeição, não são falhas de caráter. São formas, ainda que custosas, de tentar se proteger de uma dor que já aconteceu uma vez.

Como a dor pode aparecer

Não existe uma resposta única ao abandono. Algumas pessoas ficam mais vigilantes e ansiosas em relação aos vínculos. Outras se fecham, evitam depender de alguém e passam a parecer autossuficientes. Outras alternam entre a necessidade intensa de proximidade e o afastamento repentino.

Efeitos possíveis incluem: medo de rejeição, dificuldade de confiar ou pedir ajuda, autocrítica e baixa autoestima, isolamento social, e, em alguns casos, tolerância a relações desrespeitosas por medo de uma nova ruptura. Esses efeitos são possibilidades, não diagnósticos automáticos nem destino.

Se o sofrimento envolver pensamentos sobre não valer a pena continuar, é importante buscar ajuda imediata: o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o Brasil.

Proteção e recuperação

O que costuma ajudar na elaboração

 . Uma relação de confiança, dentro ou fora da família de origem

 . Reconhecer que a dor teve uma causa real, não uma falha pessoal

 . Espaço para nomear o que se perdeu, sem pressa

 . Acompanhamento psicológico quando a dor interfere na vida cotidiana

Recuperar-se de um trauma de abandono não significa deixar de desejar vínculos, nem aprender a não precisar de ninguém. Significa, aos poucos, construir relações em que seja possível existir com autonomia e, ao mesmo tempo, receber cuidado.

A ausência que marcou também pode encontrar um lugar novo

A rejeição vivida não define o valor de quem a sofreu. O vínculo que faltou numa época da vida não precisa ser o modelo de todos os vínculos que ainda virão.

Não é preciso atravessar essa história sozinho, nem entender tudo sobre ela antes de pedir ajuda.

Essa ausência também merece um espaço para ser contada

Se essa história ainda pesa mais do que você gostaria, existe espaço para falar sobre o que faltou, sem pressa e sem julgamento. Agende uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.

Perguntas frequentes

O que é trauma de abandono?

É uma expressão usada para descrever o impacto psicológico de experiências em que uma pessoa importante deixa de oferecer proteção, vínculo ou cuidado, seja por ausência física, negligência emocional, rejeição familiar ou ruptura amorosa.

Não exatamente. O medo de abandono costuma aparecer dentro de relações amorosas específicas, enquanto o trauma de abandono é uma expressão mais ampla, que também inclui experiências na infância e na família de origem.

Não. Uma casa com um só cuidador presente pode ser um ambiente seguro e afetivo. O que produz sofrimento costuma ser a ausência de vínculo não elaborada, não a estrutura familiar em si.

Porque pode envolver a perda de uma rede essencial de proteção, incluindo apoio afetivo, moradia e segurança financeira, e não apenas uma divergência de opinião dentro da família.

Quando o medo de ser abandonado, a dificuldade de confiar ou a autocrítica interferem persistentemente na vida cotidiana, nos relacionamentos ou no bem-estar emocional.

Referências

DONEDA, Amanda; PUREZA, Juliana da Rosa. Associações entre práticas parentais, estresse de minorias e indicadores de saúde mental em adolescentes LGBT+. Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva, v. 28, p. 89-107, 2026. DOI: 10.31505/rbtcc.v28i1.2244.

MARCONDES, Mariana Valença; TRIERWEILER, Michele; CRUZ, Roberto Moraes. Sentimentos predominantes após o término de um relacionamento amoroso. Psicologia: Ciência e Profissão, v. 26, n. 1, p. 94-105, 2006.

PERUCCHI, Juliana; BRANDÃO, Bruna Cavalheiro; VIEIRA, Hellen Isabel da Silva. Aspectos psicossociais da homofobia intrafamiliar e saúde de jovens lésbicas e gays. Estudos de Psicologia, 2014.

SALVIANO, Vitória Alves; ALENCAR, Juliana Linhares Cavalcanti de; DINIZ, Glauco José Rocha; PINHEIRO, Adriana de Alencar Gomes. Traumatologia do desenvolvimento: abandono emocional na primeira infância e seus efeitos sobre os vínculos afetivos na vida adulta. In: Coletânea de Pesquisa na Formação da Psicologia no Cariri Cearense, v. 4, 2026. DOI: 10.37885/260722351.

SANTOS, Thayne de Oliveira; CAMARGO, Murilo Reis. Dependência emocional em relacionamentos conjugais: possíveis fatores e consequências. Psicologia USP, v. 35, e220002, 2024. DOI: 10.1590/0103-6564e220002.

SILVA, Julianna Ferreira da. Os impactos do abandono paterno na percepção dos filhos adultos. Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Psicologia), Centro Universitário de Patos – UNIFIP, 2025.

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