Houve bolo, discurso, um presente comprado em vaquinha e a promessa de que todos iam se ver sempre. O último cartão foi batido, o crachá devolvido, a mesa esvaziada. Na segunda-feira seguinte, o despertador não tocou, e também não tocou o telefone. A solidão na aposentadoria costuma começar aí, numa manhã comum em que já não há para onde ir nem quem espere.
Durante anos se sonhou com esse tempo livre. E ele chega acompanhado de algo que ninguém avisou: um silêncio que não é exatamente descanso.
O que é a solidão na aposentadoria?
Não é apenas ficar mais tempo em casa. É perder, de uma vez, a convivência que não precisava ser combinada: o bom-dia na portaria, o café no corredor, o almoço com os mesmos colegas, a reclamação compartilhada sobre o chefe.
Esses contatos pareciam pequenos. Somados, formavam boa parte da vida social de muita gente, e tinham uma qualidade rara: aconteciam sozinhos, sem que ninguém precisasse convidar ninguém.
A própria palavra carrega esse afastamento. Maria Alves de Toledo Bruns e Antonio Suarez Abreu lembram que, no dicionário, aposentar significa pôr de parte, pôr de lado. Estar fora do sistema produtivo, observam os autores, pode ser vivido como estar posto para fora da vida.
O trabalho como laço com o mundo
Freud escreveu pouco sobre o trabalho, mas deixou uma observação precisa em O mal-estar na civilização. Nenhuma outra técnica de condução da vida, diz ele, prende a pessoa tão firmemente à realidade quanto o trabalho, que a insere com segurança numa parte da comunidade humana.
O trabalho, portanto, não oferece só salário. Oferece um lugar entre os outros, um motivo para sair de casa, uma resposta pronta para a pergunta “o que você faz?”.
Dulce Helena Penna Soares e colaboradores, ao relatar um programa de preparação para a aposentadoria na Universidade Federal de Santa Catarina, mostram como a identidade se confunde com a trajetória profissional. Citam autores para quem, para muitas pessoas, o ambiente de trabalho é um verdadeiro lar.
Quando essa ligação é muito forte, sair do trabalho não é apenas mudar de rotina. É perder o endereço de onde se era alguém, e por isso a aposentadoria pode ser vivida como uma das crises na carreira mais profundas, justamente a que a encerra.
O que se perde junto com o crachá
O mesmo estudo enumera as mudanças que se acumulam nessa passagem: as transformações do corpo, a reorganização da família, e a necessidade de construir um novo papel social depois da perda da identidade profissional e do status que vinha com o nome de um cargo.
Os autores citam uma expressão dura para descrever o que algumas pessoas sentem: morte social. A passividade atribuída ao aposentado, visto como inativo e improdutivo, pode ser vivida como a perda do próprio sentido da vida.
Há perdas mais discretas. A sensação de ser necessário. O reconhecimento de alguém que diz “só você sabe resolver isso”. A estrutura do tempo, que separava a semana do fim de semana e dava valor ao descanso.
Para quem construiu o próprio valor em cima do desempenho, a perda é ainda maior. Se nunca se sentir suficiente já era um peso com trabalho, sem ele pode faltar até o lugar onde tentar provar alguma coisa.
O que o trabalho oferecia sem que se percebesse
. Convivência diária que não precisava ser marcada.
. Uma rotina que organizava o dia e a semana.
. Um papel reconhecido e um nome para apresentar.
. A sensação de ser útil e de fazer falta.
. Assunto, novidade, pequenas histórias para contar em casa.
Liberdade e vazio ao mesmo tempo
A aposentadoria é ambivalente, e isso confunde. Soares e colaboradores registram esse duplo movimento: as pessoas se sentem libertas do relógio e, ao mesmo tempo, pesa-lhes a falta da rotina de tantos anos.
A cultura costuma apresentar esse momento como prêmio depois de uma vida de esforço. Quem não se sente premiado tende a achar que há algo errado consigo, e se cala.
A pesquisa de Bruns e Abreu, com cem aposentados do interior de São Paulo, encontrou exatamente isso. A realização pessoal ficava sempre como um projeto para depois. Quando o depois chegava, a maioria se dizia surpresa e desencantada por não saber conduzir com prazer a vida sem uma ocupação, mesmo quando o trabalho tinha sido fonte de insatisfação.
Os autores concluem que a ausência de projetos para depois da aposentadoria provoca angústia e solidão. Não basta ter tempo. É preciso ter para onde levá-lo.
O que a pesquisa mostra
Um estudo brasileiro recente olhou para esse grupo de perto. Miriam Mohallem e colaboradores avaliaram 144 pessoas idosas aposentadas em Itajubá, Minas Gerais, medindo solidão, apoio social e sintomas depressivos.
Solidão em níveis leves e moderados, baixo apoio emocional, baixo apoio afetivo e pouca interação social positiva estiveram associados à presença de sintomas depressivos. Também pesaram ter doenças associadas, avaliar mal a própria saúde, ter renda inferior a um salário mínimo e ser solteiro.
Os autores falam em “ócio da aposentadoria” para nomear o risco: o tempo livre sem atividades significativas e sem convivência pode intensificar o isolamento que a saída do trabalho já produz.
É um estudo transversal, feito em uma única cidade, e por isso mostra associações e não causas. Ainda assim, reforça o que aparece em outras pesquisas sobre solidão e depressão: não é a aposentadoria em si que adoece, e sim atravessá-la sem vínculos.
Voltar para casa e não reconhecer a casa
Há um aspecto pouco falado. Quem dedicou décadas quase exclusivamente ao trabalho pode descobrir, ao se aposentar, que não conhece direito as pessoas com quem mora.
Soares e colaboradores descrevem esse estranhamento. A vida conjugal e a convivência com os filhos ficaram em segundo plano por muito tempo, e o retorno ao lar faz com que a pessoa estranhe, ou até desconheça, aqueles com quem convive.
O casal se reencontra dentro da mesma casa, muitas vezes sem atividades em comum. Quem ficou em casa durante anos tem rotina, amizades e território próprios, e a chegada do outro em tempo integral pode ser sentida como invasão. Pode-se estar acompanhado o dia inteiro e nunca ter estado tão só.
Isso tende a pesar mais para quem concentrou toda a vida social no emprego, situação frequente entre homens de gerações mais velhas e tema do artigo sobre solidão masculina.
Não é igual para todo mundo
Seria um erro tratar a aposentadoria como experiência única. Bruns e Abreu já chamavam atenção para o recorte de classe: profissionais liberais muitas vezes nem chegam a parar, enquanto assalariados se aposentam e seguem fazendo bicos para completar a renda.
Para quem continua trabalhando por necessidade, o problema não é o tempo vazio. É o cansaço sem o reconhecimento de antes.
Muda também conforme a forma como o trabalho terminou. Quem saiu por escolha vive algo diferente de quem foi desligado, adoeceu ou teve a função extinta. E muitas mulheres, que somaram emprego e cuidado da casa a vida inteira, se aposentam de um trabalho e continuam no outro.
Há ainda quem se aposente e floresça. No programa descrito por Soares e colaboradores, um participante dizia não conseguir relacionar aposentadoria com solidão, porque via nesse período inúmeras possibilidades de convivência. A diferença costuma estar no que existia além do emprego.
Solidão na aposentadoria: o que pode ajudar
A primeira coisa é reconhecer que há um luto. Freud, em Luto e melancolia, descreve o trabalho lento de se desligar daquilo que se perdeu, e isso vale também para um ofício, um lugar e um grupo. Exigir de si alegria imediata só atrasa esse processo.
A segunda é não deixar a preparação para o último dia. Os programas de preparação para a aposentadoria existem justamente porque, como mostram Soares e colaboradores, a maioria das pessoas chega a esse momento sem ter refletido sobre o próprio projeto de futuro.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitas pessoas planejam com cuidado as finanças da aposentadoria e quase nada da vida que vão levar nela: com quem vão conviver, o que vai dar forma aos dias, onde ainda serão esperadas.
Na prática, isso significa cultivar vínculos fora do trabalho enquanto ainda se trabalha, ter compromissos regulares que envolvam outras pessoas e procurar atividades em que se continue sendo útil a alguém. Ensinar, orientar os mais jovens, participar de um grupo ou de uma causa.
E vale manter os colegas que eram mais do que colegas. A promessa de “a gente se vê” raramente se cumpre sozinha. Alguém precisa marcar.
Sinais de que a transição está pesando
. Os dias não têm diferença entre si, e nada está marcado.
. Você evita encontrar ex-colegas para não falar de como está.
. O sono, o apetite ou o ânimo mudaram por várias semanas.
. Aparece a ideia de que você já não serve para nada.
. O consumo de álcool aumentou para preencher o tempo.
Depois do último ponto
A aposentadoria encerra um contrato, não uma vida. Mas a nossa cultura mistura tanto as duas coisas que quem para de trabalhar pode sentir que parou de existir para os outros.
Parte da solidão na velhice começa aqui, nessa primeira saída de cena. E é também aqui que ela pode ser evitada, se o lugar que o trabalho ocupava for sendo reconstruído com outros laços.
Freud tinha razão ao dizer que o trabalho nos prende à comunidade humana. Ele só não é o único fio. Aposentar-se bem talvez seja descobrir quais são os outros, e começar a tecê-los antes de precisar.
Quando o tempo livre pesa mais do que se esperava
Parar de trabalhar pode trazer um vazio difícil de confessar, justamente porque todos esperam que seja um tempo feliz. Às vezes o que falta não é ocupação, e sim um lugar para falar do que se perdeu e do que ainda se quer.
A psicoterapia pode ser esse lugar, antes ou depois da aposentadoria. Se fizer sentido, é possível começar por uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.
Perguntas frequentes
É normal sentir solidão depois de se aposentar?
Sim. Com o trabalho se vão a rotina, a convivência diária e um papel social, e é comum que isso produza solidão, sobretudo nos primeiros tempos. Merece atenção quando persiste e vem acompanhada de tristeza ou perda de interesse.
Aposentadoria pode causar depressão?
A aposentadoria em si não causa depressão. Um estudo brasileiro com aposentados encontrou sintomas depressivos associados à solidão e ao baixo apoio social, o que indica que o risco está em atravessar essa fase sem vínculos.
Por que me sinto inútil depois de me aposentar?
Porque, em nossa cultura, o valor de uma pessoa costuma ser medido pelo que ela produz. Quando a identidade esteve muito ligada à profissão, parar de trabalhar pode ser vivido como deixar de ter um lugar.
Como se preparar emocionalmente para a aposentadoria?
Cultivando vínculos e interesses fora do trabalho antes de sair dele, e pensando em como serão os dias: com quem, fazendo o quê, onde. Programas de preparação para a aposentadoria e a psicoterapia podem ajudar nesse planejamento.
O que fazer para não ficar isolado na aposentadoria?
Ter compromissos regulares com outras pessoas, manter os colegas que se tornaram amigos e buscar atividades em que se continue sendo útil a alguém, como ensinar, orientar ou participar de um grupo.
Referências
BRUNS, Maria Alves de Toledo; ABREU, Antonio Suarez. O envelhecimento: encantos e desencantos da aposentadoria. Revista da ABOP, v. 1, n. 1, 1997.
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917). Tradução de Marilene Carone. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização (1930). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 18. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
MOHALLEM, Miriam de Lima; CIPRIANO, Julia Brandão Vaz; MAGALHÃES, Deruchette Danire Henriques; REIS, Rogério Donizeti. Ócio da aposentadoria: associação entre a solidão e a rede de apoio social com a depressão em pessoas idosas: estudo transversal. Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia, v. 29, e250186, 2026. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/1981-22562026029.250186.pt
SOARES, Dulce Helena Penna; COSTA, Aline Bogoni; ROSA, Alexandre Matos; OLIVEIRA, Maria Lúcia S. de. Aposenta-ação: programa de preparação para aposentadoria. Estudos Interdisciplinares sobre o Envelhecimento, Porto Alegre, v. 12, p. 143-161, 2007.



