Saúde Mental

Solidão na adolescência: quando crescer também é se sentir só

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

A porta do quarto, que ficava aberta, passou a ficar fechada. O filho que contava tudo no caminho da escola agora responde com uma palavra. Do outro lado da porta, alguém de quinze anos olha o celular e tem a impressão de que todo mundo foi convidado para alguma coisa, menos ele. A solidão na adolescência costuma ter essas duas faces: a de quem fica do lado de fora sem entender, e a de quem está do lado de dentro sem conseguir explicar.

Nenhuma das duas cenas é, por si só, um problema. Fechar a porta faz parte de crescer. Mas há momentos em que o silêncio deixa de ser espaço e passa a ser peso, e saber a diferença é o que mais importa para quem vive essa fase e para quem a acompanha.

Solidão na adolescência: a porta fechada

O que é a solidão na adolescência?

Solidão não é o mesmo que estar sozinho. Os psicólogos Brett Laursen e Amy Hartl propõem pensá-la como isolamento social percebido: a sensação de que os vínculos que se tem não correspondem aos vínculos de que se precisa.

Isso explica por que um adolescente pode passar a tarde inteira no quarto e estar bem, enquanto outro, cercado de colegas no pátio, sente que não pertence a nenhum daqueles grupos. A medida não é o número de pessoas ao redor. É a experiência de ser, ou não, visto e acompanhado.

É também o que aproxima essa experiência da solidão emocional: estar com gente e, ainda assim, sentir que ninguém alcança aquilo que se está vivendo.

Por que a adolescência é um tempo tão propício à solidão

Laursen e Hartl descrevem a adolescência como um período em que várias mudanças acontecem ao mesmo tempo e, juntas, aumentam o risco de alguém se sentir isolado. Mudam as companhias, cresce a necessidade de autonomia em relação à família, a identidade entra em exploração, o corpo se transforma e a capacidade de imaginar o que os outros pensam de nós fica mais aguda.

O adolescente se afasta dos pais antes de ter certeza de onde vai chegar. Durante algum tempo, não está mais inteiramente em casa e ainda não está inteiramente em outro lugar.

A psicanálise descreve esse intervalo há muito tempo. Arminda Aberastury e Mauricio Knobel, em Adolescência normal, falam de três lutos que o adolescente precisa atravessar: pelo corpo infantil, pela identidade de criança e pelos pais da infância, aqueles que pareciam saber e poder tudo. São perdas reais, e quem está de luto costuma se recolher.

Donald Winnicott foi ainda mais direto. Em um texto de 1961, escreveu que o adolescente é essencialmente um isolado, e que é a partir dessa posição de isolamento que ele começa a construir relações que sejam de fato suas. Para Winnicott, portanto, algum grau de recolhimento não é falha do desenvolvimento. É parte do caminho.

Recolhimento e solidão não são a mesma coisa

 . Recolhimento é procurado: o adolescente escolhe ficar só e  . volta dele mais inteiro.

 . Solidão é sofrida: ele gostaria de estar com alguém e sente que não tem com quem.

 . O recolhimento convive com amizades, interesses e algum humor.

 . A solidão costuma vir acompanhada de tristeza, vergonha ou da ideia de não ser querido.

O que as pesquisas mostram

Segundo o relatório de 2025 da Comissão de Conexão Social da Organização Mundial da Saúde, os adolescentes são o grupo etário que mais relata solidão no mundo: cerca de um em cada cinco diz se sentir só. A proporção tende a diminuir com a idade.

No Brasil, a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2019 ouviu mais de 125 mil estudantes de 13 a 17 anos. A análise publicada por Antunes e colaboradores mostra que 30% deles achavam que ninguém se preocupava com eles, 31,4% se sentiam tristes na maioria das vezes ou sempre, e 4% disseram não ter amigos próximos.

Esses indicadores foram mais frequentes entre adolescentes de 16 e 17 anos, entre meninas e entre estudantes de escolas públicas. Ou seja, a experiência não se distribui por igual, e parte dela tem relação com gênero e condição social, não apenas com a idade.

Vale ler esses números com cuidado. A pesquisa não mediu solidão diretamente, e sim sentimentos próximos dela. E a diferença entre os 30% que sentem que ninguém se preocupa e os 4% sem amigos diz algo importante: muitos adolescentes têm amigos e, ainda assim, sentem-se sós.

Telas, redes e solidão na adolescência

Solidão na adolescência: adolescente de cabelos escuros escreve sozinha em uma carteira, em sala de aula vazia iluminada pela luz alaranjada do fim de tarde.

Um estudo coordenado por Jean Twenge analisou respostas de cerca de um milhão de estudantes de 15 e 16 anos em 37 países. Entre 2012 e 2018, a solidão na escola aumentou em 36 deles, e quase o dobro de adolescentes passou a apresentar níveis elevados. O aumento foi maior entre as meninas.

Os autores observaram que a solidão escolar era mais alta nos países e períodos com maior acesso a smartphones e maior uso de internet. Eles próprios advertem, porém, que essa associação não prova que as telas sejam a causa.

A cautela faz sentido. Para alguns adolescentes, o celular é justamente o lugar onde encontram pessoas parecidas com eles, o que pode ser decisivo para quem se sente diferente no ambiente em que vive. Para outros, é a vitrine permanente de encontros para os quais não foram chamados.

O que as redes parecem intensificar é a comparação social. Numa fase em que a pergunta “o que pensam de mim?” já ocupa tanto espaço, ver o tempo todo a vida editada dos outros pode transformar uma tarde comum em prova de que se está de fora.

Quando a solidão tem motivo: exclusão, vergonha e diferença

Nem toda solidão adolescente vem do processo de crescer. Às vezes ela é a resposta a algo que está acontecendo: ser deixado de lado, virar alvo de piadas, mudar de escola ou de cidade, não caber no padrão do grupo.

A experiência de rejeição pesa de modo particular nessa idade, porque o grupo de pares se torna a principal referência de valor. E ela costuma vir junto com a vergonha, que leva o adolescente a esconder justamente aquilo que mais precisaria contar.

Isso vale também para quem começa a perceber que sua sexualidade ou identidade não corresponde ao que se espera dele. Guardar um segredo sobre quem se é pode produzir uma forma específica de isolamento, tema do artigo sobre solidão LGBTQIA+.

Nesses casos, tratar a solidão como “fase” é não escutar. O que precisa de atenção não é apenas o sentimento, mas a situação que o produz.

Quando a solidão dura

Uma revisão sistemática coordenada por Maria Loades reuniu 63 estudos com mais de 51 mil crianças e adolescentes. A solidão e o isolamento social estiveram associados a maior risco de depressão, e possivelmente de ansiedade, tanto no momento da avaliação quanto em acompanhamentos feitos até nove anos depois.

O achado mais útil dessa revisão é outro: a duração da solidão se relacionou mais com sintomas de sofrimento psíquico do que a sua intensidade. Uma semana muito ruim preocupa menos do que meses seguidos de sentir-se só.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitos adultos, ao falar da própria solidão, voltam a essa época: ao recreio em que não havia com quem ficar, à mesa de casa em que não havia como dizer o que acontecia.

Isso não significa que todo adolescente solitário vá adoecer. Significa que a solidão persistente merece ser levada a sério, e que a tristeza que a acompanha nem sempre é só temperamento.

Sinais que merecem atenção

 . A solidão dura meses e não varia com os contextos.

 . O adolescente abandona atividades e amizades de que gostava.

 . Há mudanças persistentes no sono, na alimentação ou no rendimento escolar.

 . Surgem falas de desvalor, como “ninguém ia sentir minha falta”.

 . Diante de falas sobre morrer ou de sinais de autolesão, procure ajuda profissional sem esperar. No Brasil, o CVV atende pelo 188, 24 horas.

Como estar por perto sem invadir

Winnicott tem uma ideia que ajuda quem convive com adolescentes. Em 1958, ele descreveu a capacidade de estar só como uma conquista que nasce de um paradoxo: aprende-se a ficar só na presença de alguém. A criança brinca sozinha porque sabe que há um adulto por perto, disponível e sem exigir nada.

Algo parecido vale mais tarde. O adolescente precisa da porta fechada e precisa saber que, do outro lado, há alguém que continua ali. Não um interrogatório diário, e também não a retirada ofendida de quem deixou de ser procurado.

Na prática, isso costuma significar manter rituais pequenos que não dependem de conversa, como uma refeição, uma carona ou uma série assistida junto. Significa perguntar com interesse e suportar a resposta curta. E significa levar a sério quando ele conta algo, mesmo que pareça pouco.

Também ajuda não corrigir depressa. “Mas você tem tantos amigos” é uma frase dita com carinho que ensina ao adolescente que não vale a pena explicar. Reconhecer que aquilo dói costuma abrir mais espaço do que tentar provar que não deveria doer.

Se o adolescente é você

Sentir-se só nessa fase não quer dizer que haja algo errado com você. Muita gente da sua idade sente o mesmo e também não conta para ninguém, o que faz cada um achar que é o único.

Vale tentar dizer a uma pessoa em quem você confia, mesmo que saia desajeitado: um amigo, alguém da família, um professor, o psicólogo da escola. Não é preciso ter a explicação pronta. “Eu ando me sentindo sozinho” já é um começo.

E se essa sensação vier junto com a ideia de que nada vale a pena, fale com um adulto de confiança o quanto antes. Isso não é exagero nem fraqueza.

Ninguém cresce inteiramente acompanhado

Há uma parte da solidão adolescente que não se resolve, porque faz parte de se tornar alguém. É preciso algum silêncio para descobrir o que se pensa, o que se deseja e quem se é fora do olhar dos pais.

Mas há outra parte que não precisa ser atravessada em segredo. A diferença entre as duas raramente está na porta fechada. Está em saber se, ao abri-la, haverá alguém do outro lado.

Como em outras formas da solidão contemporânea, o que protege não é a ausência de momentos sozinhos. É a experiência de poder voltar.

Quando a porta fechada começa a preocupar

Acompanhar um adolescente é conviver com a dúvida entre respeitar o silêncio e temer o que ele esconde. E há quem leia este texto pensando menos no filho e mais na própria adolescência, em uma solidão antiga que nunca foi dita.

A psicoterapia pode ser um espaço para pensar sobre isso com cuidado, sem pressa e sem respostas prontas. Se fizer sentido, é possível começar por uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.

Perguntas frequentes

É normal sentir solidão na adolescência?

É comum. A adolescência envolve afastar-se dos pais, mudar de grupo e construir uma identidade própria, e isso costuma trazer momentos de solidão. Merece atenção quando ela dura meses e vem acompanhada de tristeza persistente ou perda de interesse.

Não necessariamente. Recolher-se faz parte dessa fase. O que ajuda a diferenciar é observar se ele mantém amizades e interesses, e se o tempo sozinho parece escolhido ou sofrido.

As pesquisas mostram que a solidão entre adolescentes cresceu no mesmo período em que o uso de smartphones aumentou, mas isso não prova que as telas sejam a causa. Para alguns jovens as redes aproximam, para outros intensificam a comparação e a sensação de exclusão.

Estudos encontraram associação entre solidão prolongada e maior risco de sintomas depressivos em crianças e adolescentes. A duração parece pesar mais do que a intensidade. Isso não significa que todo adolescente solitário vá adoecer.

Estar disponível sem interrogar, manter pequenos rituais de convivência e levar a sério o que ele conta. Evitar frases que minimizam a dor. Se houver sinais de sofrimento persistente ou falas sobre morrer, procurar ajuda profissional.

Referências

ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Mauricio. Adolescência normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artmed, 1981.

ANTUNES, Jéssica Thaís et al. A saúde mental dos adolescentes brasileiros: Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar de 2019. REME: Revista Mineira de Enfermagem, v. 26, 2022. Disponível em: https://doi.org/10.35699/2316-9389.2022.38984

LAURSEN, Brett; HARTL, Amy C. Understanding loneliness during adolescence: developmental changes that increase the risk of perceived social isolation. Journal of Adolescence, v. 36, n. 6, p. 1261-1268, 2013. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.adolescence.2013.06.003

LOADES, Maria Elizabeth et al. Rapid systematic review: the impact of social isolation and loneliness on the mental health of children and adolescents in the context of COVID-19. Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, v. 59, n. 11, p. 1218-1239, 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jaac.2020.05.009

TWENGE, Jean M. et al. Worldwide increases in adolescent loneliness. Journal of Adolescence, v. 93, p. 257-269, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.adolescence.2021.06.006

WINNICOTT, Donald W. A capacidade para estar só (1958). In: WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

WINNICOTT, Donald W. Adolescência: transpondo a zona das calmarias (1961). In: WINNICOTT, Donald W. A família e o desenvolvimento individual. São Paulo: Martins Fontes, 2005.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. From loneliness to social connection: charting a path to healthier societies: report of the WHO Commission on Social Connection. Geneva: WHO, 2025.

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