Irlanda

Ficar na Irlanda ou voltar ao Brasil: quando nenhuma escolha parece simples

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Depois de uma conversa com sua família, você abre um site de passagens. Imagina como seria voltar ao Brasil, estar perto dos amigos, participar de encontros que hoje acompanha pelo telefone. No dia seguinte, uma oportunidade no trabalho faz você lembrar por que foi para a Irlanda. Fecha o site, retoma os planos, tenta seguir. Mas a pergunta continua: onde quero construir minha vida?

Ficar na Irlanda ou voltar ao Brasil pode envolver carreira, dinheiro, vínculos e desejos que mudaram desde a chegada. Também pode colocar em dúvida a história que você contou aos outros, e a si mesmo, sobre o que significaria dar certo no exterior.

Esse conflito é mais específico do que o já tratado em ficar ou voltar morando fora, que aborda a decisão de forma mais geral. Aqui, o cenário é a Irlanda em particular, com as cidades, os trabalhos e as comunidades já descritos ao longo desta série.

Homem ajoelhado diante de uma mala parcialmente arrumada, gesto interrompido que ilustra o dilema entre ficar na Irlanda ou voltar ao Brasil

A vida que você imaginou e a vida que encontrou ao pensar em ficar na Irlanda ou voltar ao Brasil

Talvez você tenha saído do Brasil com um plano definido: estudar, juntar dinheiro, crescer profissionalmente ou experimentar outra forma de viver. Algumas expectativas se realizaram. Outras precisaram ser revistas, como já apareceu em recomeçar em outro trabalho na Irlanda e em brasileiros em Cork, onde o recomeço tomou formas que não estavam no plano original.

Pensar em ficar na Irlanda ou voltar ao Brasil raramente é uma questão de tudo ou nada: é possível gostar de partes da vida na Irlanda e sentir falta de coisas importantes no Brasil. Essa mistura pode dificultar a decisão, especialmente quando se espera encontrar uma certeza que elimine qualquer dúvida.

"Se eu voltar, fracassei?"

Voltar pode parecer difícil quando a mudança foi apresentada como uma grande conquista. Você contou seus planos, recebeu apoio, talvez tenha feito sacrifícios para chegar até ali. Imaginar o retorno pode despertar receio de ouvir perguntas, comparações ou comentários sobre o que aconteceu.

Às vezes, a cobrança mais intensa vem de você mesmo. Um estudo publicado na revista Social Identities, sobre negociação de identidade em processos de retorno migratório, descreve como voltar ao país de origem costuma exigir reconstruir uma narrativa sobre si mesmo, e não apenas uma mudança de endereço. A ideia de voltar pode começar a parecer, erradamente, uma prova de que não se conseguiu sustentar o projeto.

O que "fracasso" costuma esconder nessa decisão

 . A sensação de fracasso raramente vem dos fatos objetivos da experiência, e sim da comparação com uma expectativa inicial que talvez nunca fosse totalmente realista.

 . Avaliar uma experiência também envolve reconhecer o que ela mostrou sobre suas necessidades, não só se um plano foi cumprido à risca.

"Se eu ficar, o que estou deixando para trás?"

Permanecer também tem um custo. Pais envelhecem, amizades mudam, acontecimentos importantes seguem ocorrendo no Brasil. Você pode perceber que perdeu encontros que gostaria de ter vivido, uma ausência que pesa de forma ainda mais aguda nos momentos de emergência familiar, como já descrito em culpa de estar longe da família.

Ao mesmo tempo, existem vínculos e possibilidades construídos na Irlanda, mesmo quando fazer amigos levou mais tempo do que se esperava, questão tratada em fazer amigos na Irlanda depois dos 30. Voltar pode significar se afastar deles.

A decisão exige reconhecer essas perdas possíveis. Quando cada país guarda uma parte importante da sua vida, escolher pode trazer tristeza mesmo que a escolha faça sentido, uma ambivalência que o casal de psicanalistas León e Rebeca Grinberg descreveu como inerente a qualquer processo migratório significativo: migrar e retornar envolvem, sempre, um luto por aquilo que se deixa, independentemente da direção da viagem, parte do que torna ficar na Irlanda ou voltar ao Brasil uma decisão tão carregada emocionalmente.

O Brasil lembrado e o Brasil para o qual você voltaria

Nos dias difíceis, o Brasil pode aparecer como o lugar onde tudo seria mais fácil: o idioma, a comida, o afeto, a sensação de ser conhecido. Essas referências têm valor, mas o retorno acontece para uma realidade que também mudou.

As pessoas seguiram suas vidas. Sua antiga rotina talvez já não exista. Você também volta com experiências, expectativas e necessidades diferentes, o que já foi aprofundado em voltar ao Brasil depois de morar fora.

Pensar em moradia, trabalho, renda e convivência ajuda a dar forma concreta ao desejo de voltar. Isso permite compreender melhor qual vida você espera construir no Brasil de hoje, e não no Brasil que ficou congelado na memória.

A Irlanda em que você deseja permanecer

Pensar em ficar na Irlanda ou voltar ao Brasil também pede olhar para a permanência com mais precisão. Ficar significa continuar exatamente como está, ou construir outra rotina?

Talvez você queira mudar de trabalho, procurar uma moradia mais adequada, aprofundar vínculos ou encontrar espaço para interesses que ficaram de lado, inclusive revisitando questões já levantadas em dividir casa na Irlanda ou em autoestima e inglês na Irlanda. Em alguns casos, a vontade de partir se mistura ao cansaço com as condições atuais da vida, não necessariamente ao desejo de voltar ao Brasil em si.

Perguntar o que precisaria mudar ajuda a perceber se existe um projeto possível de permanência, e quanto ele depende de condições que você consegue alcançar.

Escolher olhando para o presente

Você pode sentir que precisa justificar tudo o que investiu para chegar à Irlanda. Mas uma decisão tomada agora também precisa considerar quem você é hoje e o que deseja para os próximos anos.

O psicanalista Erik Erikson descreveu como escolhas de identidade, ao longo da vida adulta, raramente seguem uma linha reta: revisar um caminho não anula o que foi construído até ali, apenas reconhece que a pessoa que escolheu partir já não é exatamente a mesma que precisa decidir o que vem depois.

Pode ajudar organizar algumas perguntas: o que me mantém aqui? O que me chama de volta? Quais dificuldades podem mudar? Quais perdas estou disposto a atravessar? Há pessoas cujas expectativas estão pesando mais do que meus próprios desejos?

O que isso está tentando dizer?

Nem sempre as respostas sobre ficar na Irlanda ou voltar ao Brasil chegam de uma vez. Conversar, pesquisar possibilidades e estabelecer um momento para reavaliar a situação pode dar mais clareza a um conflito que vinha sendo vivido apenas como preocupação constante, sem espaço para ser pensado com calma.

Ficar ou voltar não precisa ser uma sentença definitiva

Ficar na Irlanda ou voltar ao Brasil pode envolver ganhos e perdas dos dois lados. A decisão se torna mais compreensível quando você consegue olhar para suas condições reais, seus vínculos e os desejos que tem hoje, e não apenas para a narrativa que imaginou antes de partir.

Essa decisão pode ser pensada com mais calma, acompanhada

Se essa dúvida tem ocupado seus dias ou feito você sentir que qualquer escolha será um fracasso, conversar sobre ela pode ajudar a reconhecer o que está realmente em jogo. Alexandre Jeremias atende brasileiros que vivem na Irlanda por meio de terapia online em português. Agende uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.

Pergutnas frequentes

Sentir vontade de voltar significa que a decisão de migrar foi um erro?

Não. Os desejos e as circunstâncias de uma pessoa mudam ao longo do tempo. Sentir vontade de voltar reflete essa mudança, não necessariamente um erro na decisão original.

Vale observar se o que pesa é a vida no Brasil que você sente falta, ou condições específicas aqui, como trabalho, moradia ou vínculos, que poderiam ser revistas sem precisar voltar.

Não costuma ser simples. O Brasil para o qual se retorna já é diferente daquele que ficou na memória, e quem volta também muda durante o tempo fora.

Quando a dúvida ocupa boa parte dos pensamentos, afeta decisões do dia a dia ou faz você sentir que qualquer escolha será vivida como um fracasso.

Referências

Erikson, Erik H. Identidade: juventude e crise. Zahar, 1976.

Grinberg, León; Grinberg, Rebeca. Migração e exílio: estudo psicanalítico. Climepsi, 2004.

To return or not to return? The importance of identity negotiations for return migration. Social Identities, 2017.

Este artigo foi escrito com base na experiência clínica de Alexandre Jeremias, psicólogo, psicanalista e sexólogo, que atende brasileiros no Brasil e no exterior, incluindo pacientes na Irlanda. O conteúdo reflete observações recorrentes da prática clínica e não substitui uma avaliação individual, este texto tem finalidade informativa e não representa diagnóstico ou tratamento à distância.

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