Saúde Mental

O que é gratidão?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

O que é gratidão, afinal? A resposta mais imediata seria “reconhecer um bem recebido”. Mas essa definição simples esconde algo mais delicado.

 

Para sentir gratidão de verdade, é preciso primeiro admitir que aquilo que nos fez bem veio de fora, de outra pessoa, e não de nós mesmos. Essa admissão parece óbvia. Na prática, é um dos movimentos psíquicos mais difíceis que existem, porque supõe reconhecer que dependemos do outro para experimentar algo bom.

O que é gratidão: mulher arrumando flores em uma cozinha iluminada, expressão tranquila

O que é gratidão segundo Melanie Klein

Foi exatamente esse ponto que a psicanalista Melanie Klein colocou no centro de sua obra “Inveja e Gratidão” (1957), um dos textos mais influentes da psicanálise sobre o tema.

Segundo a coletânea “Revisitando Inveja e Gratidão”, organizada por Priscilla Roth e Alessandra Lemma, Klein descreve a gratidão como uma emoção que só pode existir quando há consciência de separação entre o eu e o outro.

Enquanto o bebê vive fundido com a mãe, sentindo que tudo que é bom é parte dele mesmo, não há espaço para gratidão. Não há ainda um “outro” a quem agradecer. A gratidão nasce justamente no instante em que essa fusão se rompe, e a criança percebe que o cuidado recebido veio de alguém separado dela.

Essa ideia muda a forma de entender o que é gratidão no cotidiano adulto. Ela não é apenas boa educação ou um exercício de positividade, como sugerem certas abordagens populares. É, antes, um indicador de que a pessoa consegue reconhecer sua própria dependência do outro sem que isso a ameace.

Quem tem dificuldade real de sentir gratidão frequentemente também tem dificuldade de admitir que precisa de alguém. Essa admissão toca em uma ferida narcísica: a de não ser autossuficiente.

O que é gratidão na prática clínica

Na prática clínica, a gratidão aparece de formas variadas, e nem sempre como um sentimento fácil de sustentar.

Algumas pessoas sentem gratidão e a expressam com naturalidade. Outras sentem, mas têm dificuldade de demonstrá-la, com medo de parecer fracas ou em dívida.

Há ainda quem confunda gratidão com obrigação, como se agradecer fosse admitir que ficou devendo algo ao outro. Isso transforma um sentimento potencialmente leve em um peso.

O que a gratidão exige, psiquicamente

 . Reconhecer que o bem recebido veio de outra pessoa, não de si mesmo

 . Aceitar a própria dependência sem sentir isso como ameaça

 . Diferenciar gratidão de obrigação ou dívida moral

 . Tolerar a vulnerabilidade de precisar dizer “isso me ajudou”

 . Sustentar a gratidão mesmo quando convive com outros sentimentos, como inveja ou ciúme

O psicanalista Antonio Muniz de Rezende, em palestra publicada no Boletim Formação em Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, explora uma conexão curiosa.

Na língua alemã, a palavra usada por Heidegger para “pensamento” (Gedank) e a palavra para “gratidão” (Dank) compartilham a mesma raiz. Rezende lembra ainda uma frase da própria Klein: “a gratidão acha-se estreitamente ligada à generosidade. A riqueza interna deriva de haver-se assimilado o objeto bom, de sorte que torna possível ao indivíduo assimilar um mundo externo mais amistoso, decorrendo daí a sensação de enriquecimento”.

Ou seja, o que é gratidão também tem função cognitiva: ela é uma forma de pensar e de lembrar o bem recebido, não apenas de senti-lo.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a dificuldade de sentir gratidão costuma aparecer ao lado de outras dificuldades relacionais, como a inveja excessiva ou a incapacidade de aceitar cuidado.

Gratidão e inveja: emoções que caminham juntas

Entender o que é gratidão passa também por entender sua relação com a inveja. Isso está diretamente ligado ao que já foi discutido em o que é inveja.

Klein descreve inveja e gratidão como movimentos opostos diante do mesmo objeto bom. A inveja quer estragar o que é bom, justamente por reconhecer sua bondade e não suportar que ela venha de fora.

A gratidão, ao contrário, permite que esse bem seja recebido, internalizado e, com o tempo, devolvido ao mundo em forma de generosidade e criatividade.

Essa tensão entre inveja e gratidão raramente se resolve de forma definitiva. A maioria das pessoas convive com as duas, em proporções variáveis, ao longo da vida.

O que muda, clinicamente, é a capacidade de a gratidão predominar sobre a inveja quando algo bom acontece, em vez de essa bondade despertar automaticamente ressentimento ou desconfiança.

O que é gratidão: mulher de olhos fechados respirando ao observar uma paisagem de montanhas ao entardecer

O que isso está tentando dizer?

Quando a gratidão aparece com facilidade, ela costuma estar dizendo que a pessoa consegue reconhecer sua própria dependência sem que isso a diminua.

Quando a gratidão é difícil, bloqueada ou substituída por desconforto, ela pode estar sinalizando algo mais antigo: uma dificuldade de aceitar cuidado, talvez porque, em algum momento, esse cuidado não foi suficiente, foi condicional, ou veio acompanhado de cobrança.

Cultivar o que é gratidão, nesse sentido, não é um exercício de positividade forçada, do tipo “listar três coisas boas do dia”. É, antes, um processo mais lento de reconhecer, sem ameaça, que boas coisas vêm de fora.

Elas dependem de outras pessoas. E essa dependência não é fraqueza: é, na verdade, o que torna possível qualquer vínculo genuíno.

Como a gratidão se manifesta de forma saudável

 . Reconhecimento espontâneo do bem recebido, sem exagero nem minimização

 . Capacidade de expressar gratidão sem sentir que isso diminui a própria autonomia

 . Convivência tranquila entre gratidão e outros sentimentos, como tristeza ou frustração

 . Devolução do bem recebido em forma de cuidado, generosidade ou criatividade

 . Ausência de cobrança disfarçada de agradecimento

Existe um caminho possível

Sentir gratidão de forma genuína não depende de esforço de vontade, mas de um processo mais lento: reconhecer que o bem recebido veio de fora, aceitar a própria dependência sem vergonha, e permitir que esse reconhecimento circule, em vez de ser bloqueado por desconfiança ou inveja. Um espaço de escuta pode ajudar a entender por que a gratidão, para algumas pessoas, é mais difícil de sustentar do que parece.

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Perguntas frequentes

O que é gratidão, resumidamente?

É o reconhecimento de que um bem recebido veio de outra pessoa, e não de si mesmo, junto com a aceitação de que essa dependência não ameaça a própria autonomia.

Não. A obrigação nasce de uma cobrança externa ou interna, enquanto a gratidão nasce do reconhecimento espontâneo de um bem recebido. Quando a gratidão vira dever, ela deixa de ser leve e passa a pesar.

Porque sentir gratidão exige reconhecer dependência do outro, algo que pode ser difícil para quem teve experiências de cuidado inconsistente ou condicional.

Sim, e é o mais comum. Melanie Klein descreve inveja e gratidão como movimentos opostos diante do mesmo objeto bom, e a maioria das pessoas convive com os dois ao longo da vida.

Quando ela se soma a uma dificuldade mais ampla de aceitar cuidado, de confiar em vínculos, ou quando cada gesto de bondade recebido desperta desconfiança em vez de reconhecimento.

Referências

KLEIN, Melanie. Inveja e gratidão. In: Inveja e gratidão e outros trabalhos (1946-1963). Rio de Janeiro: Imago, 1991 [1957].

ROTH, Priscilla; LEMMA, Alessandra (orgs.). Revisitando inveja e gratidão. Trad. Nina Lira. São Paulo: [ed. brasileira].

REZENDE, Antonio Muniz de. Heidegger e Melanie Klein: gratidão e recordação. Boletim Formação em Psicanálise, Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo, v. 2, n. 2, p. 69-76.

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