Há um momento, em muitas histórias de quem migrou, em que a saudade deixa de doer do jeito esperado. Não é mais aquele aperto no peito ao ouvir uma música do Brasil, ou a tristeza previsível de um domingo mais silencioso. É outra coisa: um cansaço que não passa, um corpo que dói sem explicação médica, uma sensação de não pertencer a lugar nenhum, nem ao país que ficou, nem ao país onde se está agora.
Quando a experiência de migrar ultrapassa aquilo que a pessoa consegue elaborar sozinha, ela deixa de ser apenas dolorosa e passa a ser um trauma migratório.
É importante fazer uma diferenciação logo de início. Já existe, aqui na Biblioteca, um artigo sobre luto migratório, que descreve o processo esperado e universal de perdas que acompanha quem sai do país de origem. Esse luto é doloroso, mas geralmente elaborável. O trauma migratório é outra coisa: é quando esse processo de luto não encontra caminho de elaboração e se transforma em uma ruptura psíquica.
Luto migratório x trauma migratório
. Luto migratório: processo esperado de perdas (família, língua, cultura, rotina), doloroso mas elaborável com tempo e apoio.
. Trauma migratório: quando esse luto ultrapassa a capacidade de elaboração da pessoa e produz sintomas de ruptura, dissociação ou adoecimento psíquico.
. Um não exclui o outro: o trauma migratório costuma começar como luto migratório que não encontrou espaço para ser vivido.
Quando a migração ultrapassa o suportável: a Síndrome de Ulises
O psiquiatra espanhol Joseba Achotegui dedicou parte de sua obra a descrever os lutos que atravessam quem migra. Segundo ele, existem sete perdas envolvidas nesse processo: a família e os entes queridos, a língua, a cultura, a terra, o status social, o contato com o grupo de pertencimento e, em situações mais extremas, a própria integridade física (PASSALACQUA et al., 2013).
Achotegui diferencia três formas desse luto. O luto simples, de quem migra com relativa liberdade para visitar ou trazer a família. O luto complicado, quando existem dificuldades reais, mas ainda há alguma possibilidade de reencontro. E o luto extremo, quando a pessoa migra sem qualquer possibilidade de rever quem ficou, o que ele nomeou Síndrome de Ulises, em referência ao herói grego que chorava, sentado à beira do mar, sem saber se um dia voltaria para casa.
León e Rebeca Grinberg (1984), psicanalistas que migraram eles próprios, descreveram a migração como uma experiência potencialmente traumática, marcada por acontecimentos traumáticos parciais que configuram, ao mesmo tempo, uma situação de crise. Quando o psiquismo de quem migra já estava fragilizado, ou quando as condições da migração são especialmente adversas, essa crise pode não encontrar saída sozinha.
O corpo que migra: sintomas somáticos e a sensação de não ser ninguém
Muitas vezes, o trauma migratório não aparece primeiro como um pensamento. Aparece no corpo. A psiquiatra portuguesa M.ª Inês Silva Dias (2005) descreve que, entre pessoas migrantes, as queixas somáticas mais frequentes envolvem a cabeça e o coração, mesmo quando não há uma causa orgânica que as justifique.
Ela explica esse fenômeno como uma espécie de descompasso: o corpo se adianta em direção ao novo mundo, mas a pessoa, no sentido mais profundo de si, ainda não alcançou esse movimento. O reencontro dessas duas partes, corpo e psiquismo, é o que faz o corpo falar, através de dores, tensão e mal-estar sem explicação médica.
Alberto Eiguer (2002 apud PASSALACQUA et al., 2013) chamou de “falso self do migrante” a apatia, a sonrisa automática e a satisfação aparente que algumas pessoas apresentam ao migrar, como se tivessem encontrado a felicidade prometida. Esse falso self costuma ser uma forma de adaptação que engana o próprio desejo, escondendo um sofrimento que não encontrou ainda como se expressar.
Crianças, adolescentes e jovens migrantes: uma vulnerabilidade particular
Entre jovens que migram sozinhos, sem o acompanhamento de um adulto responsável, o impacto costuma ser ainda mais intenso. Uma revisão da Universidade de Oviedo encontrou que jovens migrantes não acompanhados apresentam reações de angústia psicológica e estresse significativamente maiores do que jovens que migram acompanhados por referências adultas (WINBERG VIÑUELA, 2024).
Em um dos estudos analisados nessa revisão, 92,9% da amostra de jovens migrantes apresentava sinais de mal-estar psicológico. Ainda assim, as principais medidas de apoio oferecidas costumam se concentrar em preparação para o trabalho e independência econômica, com pouco espaço dedicado ao acolhimento emocional dessa experiência.
Mesmo entre adultos, é comum que crianças acompanhem os pais na migração sem que ninguém pergunte, de fato, como elas estão vivendo essa mudança. A ausência de sintomas visíveis não significa ausência de impacto.
O trauma que atravessa gerações
Um dos aspectos menos falados do trauma migratório é sua capacidade de atravessar gerações. Quando os pais não conseguem elaborar o luto da migração, os filhos podem herdar esse desconcerto, mesmo sem terem vivido diretamente a experiência de sair do país de origem (PASSALACQUA et al., 2013).
Isso acontece porque certas vivências ficam registradas no psiquismo familiar de forma não totalmente simbolizada, muitas vezes envoltas em silêncio ou em fragmentos de história que nunca foram completamente contados. Um filho de imigrantes pode carregar uma sensação de não pertencimento, ou uma dificuldade de nomear de onde é, sem conseguir explicar por completo de onde vem esse sentimento.
Trabalho, cultura e vida cotidiana longe de casa
O trauma migratório também se constrói no acúmulo de pequenas tensões cotidianas. Uma revisão sistemática sobre estresse de quem trabalha no exterior identificou seis domínios centrais de sofrimento: dificuldades de comunicação, diferenças culturais no ambiente de trabalho, adaptação à vida diária, tensão nas relações com família e colegas, dificuldades financeiras e desigualdade social (DOKI; SASAHARA; MATSUZAKI, 2018).
Nenhum desses fatores, isoladamente, costuma ser o suficiente para produzir um trauma. Mas quando se somam, dia após dia, sem espaço para serem processados, formam um terreno fértil para que a experiência migratória deixe de ser apenas desafiadora e passe a ser esgotante.
O que isso está tentando dizer?
Um trauma migratório costuma ser, antes de qualquer coisa, uma tentativa do psiquismo de sinalizar que algo ficou grande demais para ser processado sozinho. Não é fraqueza, nem falta de adaptação, nem motivo de vergonha por não estar “dando conta” da vida no exterior.
Muitas vezes, é justamente o contrário: é sinal de que a pessoa vem carregando, silenciosamente, mais perdas do que teve espaço para elaborar. O corpo que dói, a sensação de não pertencer a lugar nenhum, o cansaço que não passa, tudo isso pode ser uma forma de dizer que essa dor precisa de um lugar para existir, e não apenas de mais esforço para ser ignorada.
Sinais de que a experiência ultrapassou o suportável
Alguns sinais podem indicar que o processo de adaptação deixou de ser apenas difícil e se tornou traumático: sensação persistente de estar dissociado da própria vida, queixas físicas recorrentes sem causa médica identificada, dificuldade de sentir prazer ou conexão mesmo em momentos bons, isolamento progressivo mesmo quando há pessoas por perto, e uma sensação constante de não pertencer nem ao país de origem, nem ao país onde se vive agora.
Esses sinais não configuram, por si só, um diagnóstico. Mas merecem atenção, sobretudo quando persistem por muito tempo ou se intensificam.
Caminhos possíveis de elaboração
O que costuma ajudar na elaboração do trauma migratório
. Ter um espaço de escuta que não minimize a experiência (“mas você escolheu vir”, “pelo menos está bem melhor aqui”)
. Manter algum vínculo ativo com a cultura e a língua de origem, sem que isso signifique negar a vida atual
. Reconhecer o corpo como parte da experiência migratória, não apenas a mente
. Buscar apoio terapêutico especializado, sobretudo quando os sintomas físicos ou emocionais persistem
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica com brasileiros que vivem fora do país observa-se que a elaboração desse trauma costuma passar por um movimento simples, mas difícil: parar de tentar provar, para si mesmo ou para os outros, que a escolha de migrar “valeu a pena”, e permitir que a dor tenha espaço para existir junto com tudo o que a vida no exterior também trouxe de bom.
Quando a dor de migrar encontra um lugar para ser vivida
O trauma migratório não é uma sentença definitiva, nem significa que a pessoa fracassou em se adaptar. É, antes, um chamado para que aquilo que ficou represado, o luto que não teve tempo, o corpo que não teve escuta, a criança que migrou sem que ninguém perguntasse como ela estava, encontre finalmente um espaço para ser reconhecido. Ainda que a distância continue existindo, a forma como essa distância é vivida pode, com tempo e cuidado, se transformar.
Um espaço para essa travessia ser ouvida
Se essa distância que você carrega tem pesado mais do que você imaginava, talvez seja o momento de ter um espaço só para isso. Um lugar onde não é preciso justificar a escolha de ter vindo, nem provar que valeu a pena, apenas contar como realmente tem sido.
Alexandre Jeremias atende brasileiros que vivem fora do país e oferece uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para quem quiser começar esse processo.
Perguntas frequentes
Trauma migratório é o mesmo que luto migratório?
Não exatamente. O luto migratório é o processo esperado de perdas que acompanha quem migra. O trauma migratório ocorre quando esse luto ultrapassa a capacidade de elaboração da pessoa e produz sintomas de ruptura psíquica, dissociação ou adoecimento.
Toda pessoa que migra desenvolve um trauma migratório?
Não. A maioria das pessoas atravessa o luto da migração de forma dolorosa, mas elaborável. O trauma migratório ocorre em situações específicas, geralmente quando há múltiplas perdas simultâneas, ausência de rede de apoio ou impossibilidade de reencontro com quem ficou.
Por que o trauma migratório costuma aparecer no corpo?
Porque, muitas vezes, o psiquismo ainda não encontrou linguagem para nomear o sofrimento. O corpo, então, expressa através de dores e tensões aquilo que ainda não pôde ser dito com palavras.
Filhos de imigrantes podem ser afetados mesmo sem terem vivido a migração?
Sim. Quando os pais não conseguem elaborar completamente o luto da migração, esse desconcerto pode ser transmitido às gerações seguintes, mesmo que elas nunca tenham vivido diretamente essa experiência.
Quando vale a pena procurar ajuda profissional?
Quando os sinais de sofrimento persistem por muito tempo, se intensificam, ou quando a pessoa sente que não consegue mais dar sentido à própria experiência sozinha. Buscar apoio nesse momento não é sinal de fracasso.
Referências
DOKI, Shotaro; SASAHARA, Sinichiro; MATSUZAKI, Ichiyo. Stress of working abroad: a systematic review. International Archives of Occupational and Environmental Health, v. 91, p. 767-784, 2018.
GRINBERG, León; GRINBERG, Rebeca. Psicoanálisis de la migración y del exilio. Madrid: Alianza Editorial, 1984.
PASSALACQUA, Alicia Martha et al. Variaciones del impacto migratorio. In: V Congreso Internacional de Investigación y Práctica Profesional en Psicología. Buenos Aires: Facultad de Psicología, Universidad de Buenos Aires, 2013. p. 53-57.
SILVA DIAS, M.ª Inês. Uma viagem psicológica pela migração. Revista do Serviço de Psiquiatria do Hospital Fernando Fonseca, p. 6-12, 2005.
WINBERG VIÑUELA, Danielle. Trauma migratorio en los jóvenes migrantes no acompañados: una revisión de alcance. Trabalho de Fim de Grau, Universidad de Oviedo, 2024.











