Sexualidade e Identidade

Desejo sexual e afeto: por que nem sempre queremos quem amamos?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Existe uma frase que muitos casais escutam, direta ou indiretamente, ao longo da vida: “se você ama, deveria desejar”. Essa equação parece óbvia, mas raramente descreve a experiência real das pessoas. Desejo sexual e afeto são dois sistemas psíquicos distintos, que podem se sobrepor, mas não são a mesma coisa, e a distância entre eles não é sinal de que algo está quebrado.

Se você já se pegou amando profundamente alguém e, ainda assim, sentindo o desejo sexual esfriar, ou desejando intensamente alguém por quem não sente apego algum, vale entender por que isso acontece.

desejo sexual e afeto, casal em momento de intimidade e reflexão pela manhã

Quando a falta de desejo é lida como falta de amor

Um dos enganos mais comuns em relacionamentos de longo prazo é interpretar a queda do desejo sexual como sinal de que o amor também diminuiu. Essa leitura causa sofrimento desnecessário, porque trata dois fenômenos diferentes como se fossem o mesmo termômetro.

Afeto tende a crescer com segurança, previsibilidade e intimidade emocional. Desejo sexual, por outro lado, historicamente se alimenta também de novidade, distância e um certo grau de mistério. Não é incomum que, quanto mais seguro e íntimo um vínculo fica, mais o componente de desejo precise ser cultivado ativamente, em vez de simplesmente acontecer.

Desejo sexual e afeto como sistemas com lógicas próprias

Do ponto de vista psicanalítico, o desejo não opera pela mesma lógica do apego. O apego busca segurança e continuidade; o desejo, em muitos casos, se relaciona com falta, diferença, aquilo que ainda não foi completamente conhecido ou possuído. Quando dois corpos se tornam completamente familiares um ao outro, uma parte do que alimentava o desejo pode se transformar.

A escritora Bell Hooks, em Tudo Sobre o Amor, discute como a cultura confunde constantemente desejo, posse e amor, tratando-os como sinônimos quando na verdade são experiências distintas. Essa confusão faz muita gente concluir, erradamente, que a queda do desejo sexual e afeto no mesmo grau significa o fim do relacionamento, quando pode significar apenas que os dois sistemas pedem cuidados diferentes.

Sinais de que desejo e afeto estão desalinhados, não ausentes

 . Sentir carinho genuíno e vontade de proximidade emocional, mas pouca urgência sexual

 . Notar que o desejo aparece com mais força fora da rotina do relacionamento (viagens, ocasiões especiais)

 . Confusão entre “não desejo mais essa pessoa” e “não desejo do jeito automático de antes”

Por que é possível desejar sem amar e amar sem desejar da mesma forma

É perfeitamente possível sentir desejo sexual intenso por alguém com quem não existe qualquer projeto de vínculo afetivo, assim como é possível amar profundamente alguém sem que o desejo sexual acompanhe na mesma intensidade ao longo do tempo. Nenhuma dessas experiências é anormal ou motivo de vergonha.

O psicanalista J.-D. Nasio descreve como a repetição de padrões de desejo, muitas vezes formados ainda na infância, segue uma lógica própria, que nem sempre corresponde ao que a pessoa escolheria racionalmente ou ao que julga “certo” sentir. Tentar forçar desejo sexual e afeto a coincidirem sempre, na mesma pessoa e na mesma intensidade, ignora como esses sistemas realmente funcionam.

Quando a distância vira sofrimento no relacionamento

Isso não significa que a distância entre desejo sexual e afeto nunca seja um problema. Quando um casal para de investir tempo, atenção e criatividade na dimensão sexual da relação, tratando isso como algo que “deveria simplesmente acontecer” se o amor for verdadeiro, o desejo tende a esfriar ainda mais, criando um ciclo de frustração silenciosa.

O ponto não é que desejo sexual e afeto precisem estar sempre no mesmo nível, mas que ambos merecem cuidado ativo, cada um com suas próprias necessidades, em vez de serem tratados como consequência automática um do outro. Essa mesma lógica de construção contínua, e não de estado fixo, também aparece quando se entende sexualidade e identidade como processos em movimento, não pontos de chegada.

Perguntas para casais reconhecerem esse desalinhamento

 . Estamos tratando a queda do desejo como fim do amor, ou como algo que pode ser trabalhado?

 . Quando foi a última vez que investimos tempo especificamente na dimensão sexual da relação, sem cobrança?

 . Existe espaço para falar sobre desejo sem que isso vire acusação de um lado ao outro?

O que isso está tentando dizer?

Quando alguém sofre por não desejar sexualmente quem ama, ou por desejar alguém que não ama, o sintoma costuma esconder uma crença mais profunda: a de que amor verdadeiro deveria vir com um pacote completo e automático de desejo, sem esforço, sem manutenção, sem contradição. Essa crença raramente se sustenta na prática clínica.

O que a distância entre desejo sexual e afeto está tentando dizer, na maioria das vezes, não é que o vínculo é falso. É que dois sistemas psíquicos diferentes convivem na mesma pessoa, e que tratar suas eventuais divergências como traição a si mesmo só aumenta o sofrimento diante de algo que é, na verdade, bastante comum.

desejo sexual e afeto, casal dançando em momento de conexão e desejo mútuo

Existe um caminho possível quando desejo e afeto não coincidem

Não existe uma técnica que faça desejo sexual e afeto se fundirem perfeitamente e para sempre. Existe a possibilidade de deixar de tratá-los como a mesma coisa, e de cuidar de cada um com suas próprias ferramentas: intimidade emocional para o apego, novidade e presença corporal para o desejo. Quando essa distância mexe com inseguranças mais antigas, vale investigar também o que alimenta o medo de abandono dentro do próprio vínculo.

Segundo pesquisas sobre saúde sexual e bem-estar, relacionamentos que reconhecem essas diferenças e conversam abertamente sobre desejo tendem a sustentar satisfação por mais tempo do que aqueles que esperam que tudo aconteça sozinho. Nomear a diferença, em vez de escondê-la, costuma ser o primeiro passo.

Se a distância entre o que você sente e o que acha que deveria sentir tem gerado confusão ou culpa, vale conversar sobre isso com cuidado, sem pressa de encaixar sua experiência em uma fórmula pronta.

Perguntas frequentes

É normal amar alguém e não sentir desejo sexual por essa pessoa?

Sim. Afeto e desejo sexual funcionam por lógicas diferentes, e é possível ter um forte vínculo afetivo com menor intensidade de desejo sexual, sem que isso signifique fim do amor.

Não necessariamente. Desejo sexual pode surgir independente de afeto ou compromisso, e sentir desejo por outra pessoa não anula, por si só, o amor existente na relação.

É comum, especialmente quando a dimensão sexual não recebe atenção ativa ao longo do tempo. Isso pode ser trabalhado, individualmente ou em casal.

Ajuda bastante, principalmente para separar o que é dinâmica natural do desejo do que é conflito não resolvido no relacionamento.

Não é recomendável forçar. É mais produtivo entender o que alimenta o desejo especificamente naquele vínculo e investir nisso, em vez de tratar a ausência como obrigação a ser cumprida.

Referências

Hooks, B. Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas.

Nasio, J.-D. Por que Repetimos os Mesmos Erros.

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