Saúde Mental

Redes sociais e solidão: por que estar conectado não basta

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

São onze da noite, e o polegar desliza pela tela quase sozinho. Um jantar de amigos para o qual não houve convite, a viagem de um ex-colega, um casal sorrindo na praia. Quarenta minutos depois, o celular é deixado de lado, e a sala parece mais vazia do que antes. A relação entre redes sociais e solidão costuma ser vivida assim, como uma pequena contradição diária: procurar companhia e sair de lá um pouco mais só.

A cena é comum, mas a explicação não é simples. As redes não são um vilão que isola pessoas felizes. E também não são a ponte inofensiva que prometiam ser.

Redes sociais e solidão: homem sentado no chão da sala à noite, envolto em fios de cobre e olhando o celular, cercado por imagens flutuantes de amigos reunidos e ícones de curtidas.

Redes sociais e solidão: qual vem primeiro?

A primeira pergunta é de direção. As redes deixam as pessoas solitárias, ou são as pessoas solitárias que passam mais tempo nelas?

As pesquisas indicam que as duas coisas acontecem. James Roberts, Phil Young e Meredith David acompanharam quase 7 mil adultos holandeses ao longo de nove anos e encontraram uma relação de mão dupla: quem se sente só usa mais as redes, e usar mais as redes aumenta a solidão com o passar do tempo.

Forma-se um circuito. A pessoa abre o aplicativo porque se sente sozinha, encontra ali um alívio breve, e esse mesmo uso contribui para que a solidão volte, um pouco maior.

Isso muda a forma de pensar o problema. Não se trata de culpar a tecnologia nem de culpar quem a usa. Trata-se de entender por que esse recurso alivia tão pouco aquilo que promete resolver.

O que as pesquisas mostram

Um estudo coordenado por Brian Primack, com 1.787 adultos de 19 a 32 anos nos Estados Unidos, mostrou que quem estava entre os que mais tempo passavam nas redes tinha o dobro de chance de se perceber socialmente isolado. Entre os que as acessavam com mais frequência, a chance era mais de três vezes maior.

Esse tipo de pesquisa mostra associação, não causa. Por isso um experimento de Melissa Hunt e colegas chamou atenção. Eles dividiram 143 universitários em dois grupos: um manteve o uso habitual, o outro limitou três aplicativos a dez minutos por dia cada um. Depois de três semanas, o grupo que reduziu o uso relatou menos solidão e menos sintomas depressivos.

O estudo holandês acrescenta um dado que contraria uma ideia difundida. Costuma-se dizer que o problema é o uso passivo, o de quem só rola a tela, e que publicar e comentar faria bem. Ao longo de nove anos, tanto o uso passivo quanto o ativo estiveram associados a mais solidão.

Entre os mais jovens, o quadro é parecido, como aparece no artigo sobre solidão na adolescência: a solidão escolar cresceu em dezenas de países no mesmo período em que os smartphones se espalharam.

São estudos feitos em outros países, com métodos e limites diferentes. Juntos, porém, apontam na mesma direção.

Mulher tenta ler um livro no sofá enquanto braços que saem de um celular, ligado a ícones de aplicativos com notificações, puxam seu ombro e seu cabelo.

O dado brasileiro: estresse digital

No Brasil, a pesquisa Solidão no Brasil, feita em janeiro de 2026 pelo Family Talks e pela Market Analysis com 1.011 adultos, trouxe um achado próprio. O fator mais fortemente associado à solidão não foi o tempo de tela, e sim o que os pesquisadores chamaram de estresse digital.

Entre as pessoas com estresse digital alto, 61,2% foram classificadas como solitárias. Entre as de estresse baixo, 30,3%. É uma diferença de mais de trinta pontos.

A pesquisa também perguntou sobre pausas voluntárias. Quem disse nunca ter sentido necessidade de se afastar das redes formou o grupo menos solitário, com 29%. Entre os que tentaram e não conseguiram, a proporção chegou a 51,1%.

O levantamento mostra associação e não permite dizer o que causa o quê. Mas sugere que importa menos a quantidade de horas e mais a relação que se tem com o aparelho: sentir que se usa, ou sentir que se é usado.

O que a pesquisa chamou de estresse digital

 . Sentir pressão para estar disponível e responder depressa.

 . Sentir-se pior consigo mesmo depois de usar as redes.

 . Sentir-se sobrecarregado pela quantidade de informação.

 . Perceber-se mais distraído por causa do celular.

 . Atribuir ansiedade ou tristeza ao uso excessivo de tecnologia.

Muitos contatos, pouca intimidade

Uma distinção antiga ajuda a entender o paradoxo. Em 1973, o sociólogo Robert Weiss propôs que existem duas solidões. A social vem da falta de um grupo, de uma rede à qual pertencer. A emocional vem da falta de um vínculo íntimo, de alguém com quem se possa contar de verdade.

As redes atendem razoavelmente bem à primeira. Oferecem grupo, assunto, sensação de fazer parte. O que não oferecem com a mesma facilidade é a segunda: tempo compartilhado, presença, a experiência de ser conhecido por alguém.

Daí a sensação tão frequente de estar cercado de gente e sem ninguém. É o território da solidão emocional, que nenhuma lista de contatos resolve.

O filósofo Byung-Chul Han descreve o fenômeno por outro ângulo. Para ele, o ambiente digital reúne multidões que não chegam a formar um “nós”. Há muita gente no mesmo lugar, e pouca coisa feita em comum.

O like e o desamparo

A psicanálise oferece uma leitura para o que se busca ali. Em uma revisão de trabalhos psicanalíticos sobre o tema, Matheus da Costa Silva parte do conceito freudiano de desamparo: a condição humana de depender do outro para ser protegido e reconhecido, que não desaparece na vida adulta.

Segundo os autores que ele reúne, expor-se nas redes é uma tentativa de amenizar esse desamparo pela aprovação do olhar alheio. A curtida funciona como um sinal de que se foi visto e aceito, e reativa algo do narcisismo da infância, quando bastava existir para ser admirado.

O alívio é real. Só que dura pouco, e pede repetição. Silva lembra a fórmula de Lacan segundo a qual o desejo humano é o desejo do Outro: queremos ser desejados, e nenhuma quantidade de confirmações encerra essa busca.

Há ainda o fato de que as plataformas vivem da atenção de quem as usa. A disputa pelo olhar do outro passa a ser organizada por um sistema interessado em que ninguém se dê por satisfeito.

A conclusão da revisão é que as redes têm um caráter ambíguo. Servem de refúgio para o sofrimento que o mundo impõe e, ao mesmo tempo, produzem angústia e solidão, porque não conseguem preencher uma falta que faz parte de ser humano.

A vitrine dos outros

Parte do mal-estar vem do que se vê. As redes mostram os melhores momentos de centenas de pessoas, e a comparação é feita com a própria vida inteira, incluídos os dias sem graça.

Esse mecanismo, o da comparação social, é antigo. O que mudou foi a escala e a frequência. Antes se comparava com vizinhos e colegas, de vez em quando. Hoje, com todo mundo, o dia inteiro.

Para quem já carrega a sensação de nunca ser suficiente, a vitrine alimenta a medida impossível. E a solidão ganha um tom específico: o de ser o único que ficou de fora de uma vida que todos parecem estar vivendo.

Algo parecido acontece nos aplicativos de relacionamento, onde a abundância de opções convive com a dificuldade de chegar a um encontro que importe.

Quando as redes aproximam

Seria injusto parar aqui. Para muita gente, as redes são o que torna um vínculo possível.

Quem mora fora do Brasil acompanha o crescimento dos sobrinhos, participa do grupo da família, vê o rosto dos pais toda semana. Um jovem que se sente diferente no lugar onde vive pode encontrar ali pessoas parecidas com ele, o que às vezes muda uma história, como aparece no texto sobre solidão LGBTQIA+. Pessoas com mobilidade reduzida mantêm amizades que de outro modo se perderiam.

O que parece fazer diferença é o lugar que a rede ocupa. Quando ela sustenta e prolonga vínculos que existem fora dela, tende a aproximar. Quando passa a ocupar o lugar desses vínculos, tende a esvaziar.

O que pode ajudar

A resposta mais popular é o detox digital, e ele tem seu valor. Mas a pesquisa brasileira sugere cautela: quem tentou se afastar e não conseguiu estava entre os mais solitários. Transformar o uso do celular em mais uma meta fracassada não ajuda ninguém.

O experimento de Hunt aponta um caminho mais modesto. Não foi preciso abandonar as redes. Reduzir já fez diferença.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a pergunta mais útil raramente é quanto tempo a pessoa passa no celular. É o que ela foi buscar ali naquele momento, e se encontrou.

Vale observar como se sai de cada uso. Há conversas que deixam a sensação de encontro, e há meia hora de rolagem que deixa só cansaço. A diferença costuma ser perceptível no corpo.

E vale usar a rede para aquilo que ela faz bem: marcar o encontro, e não substituí-lo. Uma mensagem que termina em “vamos nos ver?” faz mais contra a solidão do que cem curtidas.

Perguntas para observar o próprio uso

 . O que eu estava sentindo quando peguei o celular?

 . Saí melhor ou pior do que entrei?

 . Com quantas dessas pessoas eu falei de verdade neste mês?

 . Há alguém que eu acompanho pela tela e poderia encontrar pessoalmente?

 . O que eu faria com esse tempo se o aparelho não estivesse à mão?

Conectado não é o mesmo que acompanhado

A solidão do nosso tempo não foi criada pelas redes sociais. Elas chegaram a um mundo que já vinha perdendo vizinhança, tempo livre e lugares de convivência, e ofereceram um substituto prático.

O problema é que o substituto dá sinais de presença sem dar presença. Ser visto por muitos não equivale a ser conhecido por alguém.

Nada disso pede que se jogue o celular fora. Pede algo mais simples e mais difícil: lembrar que a tela pode levar até uma pessoa, e que o encontro só começa depois dela.

Quando a tela não alcança o que falta

Há uma solidão que não passa com mais mensagens, mais seguidores ou mais horas conectado. Ela costuma apontar para outra coisa: a falta de um lugar em que seja possível falar de verdade e ser ouvido sem pressa.

A psicoterapia pode ser esse lugar. Se fizer sentido, é possível começar por uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.

Perguntas frequentes

As redes sociais causam solidão?

A relação é de mão dupla. Pessoas que se sentem sós tendem a usar mais as redes, e pesquisas de longo prazo indicam que o uso também aumenta a solidão com o tempo. Não é uma causa única, e sim um circuito.

Em geral pela comparação com os melhores momentos da vida dos outros e pela busca de uma aprovação que alivia por pouco tempo. As redes oferecem contato, mas raramente a intimidade que diminui a solidão.

Um experimento com universitários encontrou menos solidão e menos sintomas depressivos depois de três semanas de uso limitado. Não foi preciso abandonar as redes, apenas reduzir.

É o mal-estar ligado à vida conectada: pressão para responder depressa, sobrecarga de informação, distração constante e a sensação de sair pior depois de usar as redes. Uma pesquisa brasileira encontrou forte associação entre esse estresse e a solidão.

Podem, quando sustentam vínculos que existem fora delas, como no caso de quem mora longe da família. Tendem a aumentar a solidão quando passam a substituir o contato presencial.

Referências

FAMILY TALKS; MARKET ANALYSIS. Solidão no Brasil: evidências para o debate público e familiar. [S. l.]: Family Talks, 2026. Disponível em: https://familytalks.org/publicacoes/noticias/quatro-a-cada-dez-brasileiros-se-sentem-sozinhos-revela-pesquisa-inedita-do-family-talks-com-market-analysis. Acesso em: 7 out. 2026.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão (1927). In: FREUD, Sigmund. Obras completas, v. 17. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

HAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Tradução de Lucas Machado. Petrópolis: Vozes, 2018.

HUNT, Melissa G. et al. No more FOMO: limiting social media decreases loneliness and depression. Journal of Social and Clinical Psychology, v. 37, n. 10, p. 751-768, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1521/jscp.2018.37.10.751

PRIMACK, Brian A. et al. Social media use and perceived social isolation among young adults in the U.S. American Journal of Preventive Medicine, v. 53, n. 1, p. 1-8, 2017. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.amepre.2017.01.010

ROBERTS, James A.; YOUNG, Phil D.; DAVID, Meredith E. The epidemic of loneliness: a 9-year longitudinal study of the impact of passive and active social media use on loneliness. Personality and Social Psychology Bulletin, v. 52, n. 5, 2026. Disponível em: https://doi.org/10.1177/01461672241295870

SILVA, Matheus da Costa. Redes sociais, solidão e psicanálise: uma revisão bibliográfica. 2021. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia), Universidade Federal de Alagoas, Maceió, 2021.

TWENGE, Jean M. et al. Worldwide increases in adolescent loneliness. Journal of Adolescence, v. 93, p. 257-269, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.adolescence.2021.06.006

WEISS, Robert S. Loneliness: the experience of emotional and social isolation. Cambridge: MIT Press, 1973.

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