O tarólogo Thiago Ayres, de 28 anos, tinha 51 mil seguidores numa rede social e uma família grande, com mais de 15 primos. Ainda assim, ao adotar o trabalho remoto, percebeu um vazio que o acompanhava. Quando algo engraçado acontecia no seu dia e ele pensava “poxa, queria contar para um amigo”, vinha a pergunta: qual amigo? Decidiu criar um grupo aberto no WhatsApp só para fazer amizades (CÓPLE; FERNANDES, 2026).
A história de Thiago ilustra bem uma das formas mais comuns, e menos comentadas, da solidão masculina: ter gente por perto, até em abundância, sem ter com quem contar de verdade. Não é que todo homem viva isso. Mas os dados sobre amizade e bem-estar masculino, tanto no Brasil quanto fora dele, mostram uma mudança real, documentada por diferentes pesquisas, que merece ser levada a sério, não tratada como piada ou característica inevitável do gênero.
Solidão masculina: o que os dados mostram sobre amizades em queda
Uma pesquisa do Survey Center on American Life encontrou uma queda acentuada no número de amizades próximas relatadas por homens: a proporção de homens com pelo menos seis amigos próximos caiu de 55% em 1990 para 27% em 2021, enquanto o percentual de homens sem nenhum amigo próximo saltou de 3% para 15%, um aumento de cinco vezes (COX, 2021).
O tamanho da rede de apoio parece importar de verdade: entre homens com três ou menos amigos próximos, mais da metade relatou ter se sentido solitária ou isolada ao menos uma vez na semana anterior à pesquisa. Entre os que têm dez ou mais amigos próximos, essa proporção cai para cerca de um em cada três (COX, 2021).
A mudança é ainda mais marcante entre os mais jovens. Em 1990, quase metade (45%) dos homens jovens recorria primeiro a amigos diante de um problema pessoal. Hoje, essa proporção caiu para 22%, e 36% recorrem primeiro aos pais (COX, 2021). Um levantamento mais amplo, o relatório State of American Men 2023, reforça esse quadro: apenas 22% dos homens relataram ter três ou mais pessoas em sua região com quem se sentem próximos, e 65% dos homens entre 18 e 23 anos concordam com a frase “ninguém realmente me conhece bem” (BARKER et al., 2023).
Solidão masculina: o que os números mostram
. Queda de 55% para 27% nos homens com 6+ amigos próximos, entre 1990 e 2021 (EUA).
. Aumento de 3% para 15% de homens sem nenhum amigo próximo no mesmo período.
. Apenas 22% dos homens relatam ter três ou mais pessoas próximas em sua região com quem contar.
. 65% dos homens entre 18 e 23 anos concordam que “ninguém realmente me conhece bem”.
E a Solidão Masculina no Brasil?
Uma pesquisa brasileira inédita, feita pela ONG Family Talks em parceria com o instituto Market Analysis, encontrou que quatro em cada dez brasileiros relatam se sentir solitários, com maior incidência entre mulheres, jovens e pessoas de baixa renda (CÓPLE; FERNANDES, 2026). O fato de a solidão aparecer com mais força entre as mulheres não torna a solidão masculina menos real, apenas lembra que ela costuma se expressar de forma mais silenciosa, menos nomeada, o que pode inclusive dificultar que seja reconhecida e levada a sério.
Um achado dessa mesma pesquisa ajuda a entender o caso de Thiago: quanto maior o estresse relacionado à vida digital, maior a solidão relatada. Entre pessoas com estresse digital alto, 61% se disseram sozinhas, trinta pontos percentuais acima das que relataram estresse digital baixo (CÓPLE; FERNANDES, 2026). Rodolfo Canônico, diretor-executivo da Family Talks, resume o mecanismo: as redes podem até iniciar ou reforçar relações, mas as pessoas nelas “fazem coisas em paralelo”, sem que isso substitua o encontro real.
Por que isso acontece com mais frequência em alguns homens
A pesquisa de Cox (2021) aponta fatores estruturais que ajudam a explicar essa queda: menor participação religiosa, menores taxas de casamento e maior mobilidade geográfica ao longo da vida adulta, somados a ambientes de trabalho que dificultam a formação de vínculos informais mais profundos.
Há também uma dimensão relacional específica. Leila Heredia, porta-voz do Centro de Valorização da Vida (CVV), observa que a solidão não significa necessariamente estar sem pessoas por perto: “muitas vezes é a sensação de não ter alguém que escute de verdade, que não julgue” (CÓPLE; FERNANDES, 2026). É a mesma distinção entre quantidade e qualidade de vínculo que aparece em outras formas de solidão, mas que se torna particularmente marcada em determinados contextos relacionados à masculinidade (ANDRADE, 2006).
Vale dizer que isso não é uma característica biológica fixa, nem acontece da mesma forma para todo homem. Normas culturais sobre o que é permitido sentir e expressar variam de contexto para contexto, e também entre homens héteros e gays, entre diferentes gerações e diferentes ambientes sociais.
Solidão masculina: o que pode dificultar a busca por vínculo mais profundo
. A ideia de que pedir apoio emocional é sinal de fraqueza, reforçada em determinados ambientes.
. A falta de espaços sociais estruturados para conversas mais íntimas entre homens, ao contrário de outros contextos relacionais.
. A tendência de medir amizade por atividades compartilhadas, sem necessariamente incluir trocas emocionais.
. A substituição gradual de contato presencial por interações online percebidas como mais fáceis, mas que não sustentam intimidade real.
O que isso está tentando dizer sobre solidão masculina?
Quando um homem sente essa distância entre ter gente por perto e ter com quem contar, isso costuma estar apontando para uma lacuna real na forma como ele foi autorizado, ao longo da vida, a buscar e sustentar vínculos de intimidade. Não é falha pessoal, é um padrão relacional documentado, no Brasil e fora dele, e possível de ser revisto, em qualquer idade.
Reconhecer a solidão masculina como um fenômeno real, sustentado por dados, não como fraqueza individual, é o primeiro passo para que ela possa, de fato, começar a mudar.
Quando ter gente por perto não é a mesma coisa que ter com quem contar
Se você reconheceu essa distância na sua própria vida, entre as pessoas ao seu redor e alguém com quem realmente conversar sobre o que pesa, vale saber que isso tem nome e também tem caminho possível.
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Perguntas frequentes
A solidão masculina afeta todos os homens da mesma forma?
Não. Normas culturais, contexto social, orientação sexual, idade e nível educacional influenciam bastante a experiência. O que a pesquisa mostra é uma tendência geral, não uma regra universal.
Por que os homens têm menos amigos próximos hoje do que há décadas?
Pesquisas apontam fatores como menor participação religiosa, queda nas taxas de casamento, maior mobilidade geográfica e ambientes de trabalho menos propícios à formação de vínculos informais profundos, além de uma substituição parcial do contato presencial por interações online.
Ter muitos conhecidos ou seguidores evita a solidão masculina?
Nem sempre. Ter uma rede ampla de contatos, inclusive nas redes sociais, não é a mesma coisa que ter vínculos onde seja possível expressar vulnerabilidade emocional, que é o que realmente parece proteger contra a solidão.
É possível reverter esse padrão de poucas amizades próximas na vida adulta?
Sim. Construir vínculos mais profundos é possível em qualquer fase da vida, embora geralmente exija reconhecer e questionar crenças sobre o que é “permitido” sentir ou pedir.
Referências
ANDRADE. Solidão existencial, emocional e isolamento social: uma leitura a partir da abordagem gestáltica. Revista da Abordagem Gestáltica, 2006.
BARKER, Gary; HAYES, Caroline; HEILMAN, Brian; REICHERT, Michael. The State of American Men: From Crisis and Confusion to Hope. Washington, DC: Equimundo, 2023. Disponível em: https://www.equimundo.org/resources/state-of-american-men/.
CÓPLE, Júlia; FERNANDES, Júlia. Solidão já afeta quatro em cada dez brasileiros e impacta mais mulheres, jovens e baixa renda. O Globo, 15 mar. 2026. Pesquisa de Family Talks e Market Analysis. Disponível em: https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/03/15/solidao-ja-afeta-quatro-em-cada-dez-brasileiros-e-impacta-mais-mulheres-jovens-e-baixa-renda.ghtml.
COX, Daniel A. American Men Suffer a Friendship Recession. Survey Center on American Life, American Enterprise Institute, 2021. Disponível em: https://www.americansurveycenter.org/commentary/american-men-suffer-a-friendship-recession/.



