Irlanda

Quando falar inglês faz você duvidar de si: autoestima e expressão na Irlanda

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Você sabe o que quer dizer. No Brasil, explicaria a ideia com facilidade, talvez até com humor. Numa reunião na Irlanda, procura uma palavra, reorganiza a frase e acaba dizendo só uma parte do que pensou. Mais tarde, lembra exatamente do que gostaria de ter falado. Para muitos brasileiros, autoestima e inglês na Irlanda caminham mais próximos do que se imagina antes de migrar.

Viver em outro idioma não exige apenas aprender vocabulário. Também pode mudar a forma como você se percebe diante dos outros, uma experiência que já foi tratada de modo mais amplo em como falar outro idioma muda quem você é.

Mulher tentando se expressar em inglês numa reunião de trabalho, gesto que ilustra o impacto da autoestima e inglês na Irlanda no dia a dia profissional

"Eu sei mais do que consigo dizer": o fio entre autoestima e inglês na Irlanda

Autoestima e inglês na Irlanda se cruzam de um jeito sutil: ter dificuldade para se expressar não significa ter menos conhecimento. Ainda assim, quando uma explicação sai incompleta ou uma resposta demora a chegar, é fácil sentir que os outros estão vendo uma versão reduzida de você.

Isso pode pesar especialmente no trabalho. Uma pessoa experiente, acostumada a tomar decisões e defender suas ideias, pode passar a evitar perguntas ou reuniões por receio de não conseguir mostrar o que sabe, um padrão que se conecta ao ritmo de alta exigência já descrito em brasileiros em Dublin.

O cansaço de estar sempre traduzindo

A conversa não termina quando você entende as palavras. É preciso acompanhar o sotaque, perceber o tom, pensar na resposta e decidir se vale a pena pedir que a pessoa repita. Quando isso acontece muitas vezes ao dia, até interações simples podem se tornar cansativas. Esse é outro ponto em que autoestima e inglês na Irlanda se tocam: a conversa não termina quando você entende as palavras.

Com o tempo, algumas pessoas falam menos para evitar esse esforço. Esse recuo, quando se repete, pode se parecer com a vergonha de ser visto incompleto, questão já aprofundada em o que é vergonha?.

Sinais de que a insegurança com o inglês já mudou seu comportamento

 . Você evita ligar e prefere resolver tudo por mensagem escrita, mesmo quando uma ligação seria mais prática.

 . Repassa mentalmente uma frase várias vezes antes de dizê-la em voz alta.

 . Sente alívio quando encontra alguém que também fala português, mesmo sem ser por afinidade real.

 . Evita se candidatar a oportunidades que exigem mais exposição verbal, mesmo tendo qualificação para elas.

Quando a insegurança chega antes da conversa

Uma experiência difícil em inglês pode ficar na memória. Depois de travar numa apresentação ou não entender uma pergunta, é comum esperar que aquilo aconteça de novo.

A preocupação deixa de aparecer só durante a conversa. Surge antes dela: ao receber um convite para uma reunião, ao precisar fazer uma ligação ou ao imaginar uma situação social. Esse movimento de antecipar a própria falha tem parentesco com a frustração descrita em o que é frustração?, quando a distância entre o que se espera de si e o que se consegue entregar se torna fonte repetida de desconforto.

Vale observar quando uma dificuldade com o idioma começa a se transformar em dúvida sobre o próprio valor, e não apenas sobre o domínio de uma língua.

Existe uma parte de você que ainda não aparece em inglês

Seu jeito de contar histórias, fazer humor, demonstrar carinho ou discordar de alguém pode ser mais espontâneo em português. A pesquisadora Aneta Pavlenko, que estuda bilinguismo e identidade, descreve como falantes de uma segunda língua costumam relatar a sensação de serem “menos eles mesmos” quando falam nela, especialmente em situações emocionais. Isso não torna a pessoa que você é na Irlanda menos verdadeira. Mostra que se expressar plenamente em outra língua leva tempo e depende também de se sentir seguro com quem está ouvindo, mais um sinal de como autoestima e inglês na Irlanda caminham juntos nesse processo.

Iniciativas que reconhecem essa dificuldade como real, não como falha pessoal

 . O governo irlandês mantém recursos voltados a aprimorar o inglês de pessoas migrantes, reconhecendo a barreira linguística como parte estrutural da adaptação, não como limitação individual.

 . Cursos de conversação, menos focados em gramática e mais em prática falada, costumam reduzir a ansiedade de performance mais rápido do que o estudo isolado.

O que isso está tentando dizer?

Talvez a pergunta mais importante não seja “por que ainda não falo inglês como gostaria?”, mas “por que passei a medir minha capacidade apenas pelo que consigo dizer agora?”.

Essa pergunta se aproxima de uma crise de identidade mais ampla, já descrita em crise de identidade morando fora: quando o que sustentava o senso de competência num idioma precisa ser reconstruído, em ritmo mais lento, em outro.

Aprender a viver em inglês, sem deixar que ele defina seu valor

Cuidar da relação entre autoestima e inglês na Irlanda passa por isso: aprender a viver em outro idioma pode trazer conquistas e também momentos de frustração. É possível continuar desenvolvendo o inglês sem transformar cada conversa difícil em um julgamento sobre quem você é.

Você não precisa ter domínio total do inglês para merecer ser ouvido

Se o receio de falar tem feito você se calar no trabalho, evitar pessoas ou duvidar constantemente de si, conversar sobre essa experiência em português pode ajudar a entender o que está acontecendo. Alexandre Jeremias atende brasileiros que vivem na Irlanda por meio de terapia online. Agende uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para começar.

Perguntas frequentes

É normal sentir que minha personalidade muda quando falo inglês?

Sim. Pesquisas sobre bilinguismo mostram que falar em uma segunda língua pode reduzir espontaneidade e humor, especialmente em temas emocionais, sem que isso signifique perda de identidade.

Estão ligados com frequência. A dificuldade de se expressar plenamente pode ser interpretada, por engano, como incompetência geral, o que abala a autoestima mesmo quando a competência profissional continua intacta.

Pode ajudar bastante, principalmente cursos focados em conversação. Mas quando a insegurança já afeta decisões profissionais e sociais, vale também olhar para o que ela revela sobre autoestima, além da fluência em si.

Sim. Falar sobre essa experiência num idioma em que você se expressa com naturalidade ajuda a separar o que é dificuldade real com o inglês do que é insegurança mais antiga, reativada pela situação.

Referências

Freud, Sigmund. O mal-estar na civilização. 1930.

Pavlenko, Aneta (org.). Bilingual Minds: Emotional Experience, Expression, and Representation. Multilingual Matters, 2006.

Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Artmed, 1983.

Este artigo foi escrito com base na experiência clínica de Alexandre Jeremias, psicólogo, psicanalista e sexólogo, que atende brasileiros no Brasil e no exterior, incluindo pacientes na Irlanda. O conteúdo reflete observações recorrentes da prática clínica e não substitui uma avaliação individual, este texto tem finalidade informativa e não representa diagnóstico ou tratamento à distância.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Explore a Biblioteca

O que é esperança: mulher sorrindo ao abrir a cortina e deixar a luz entrar
Saúde Mental

O que é esperança?

A esperança não é otimismo nem espera passiva. Ela é o que sustenta o desejo de seguir em direção a um futuro possível, mesmo sem garantias de que ele vai se realizar.

Saiba mais »