Há uma cena comum em consultórios de psicologia: um homem adulto, bem-sucedido, cercado de colegas e conhecidos, que percebe, de repente, que não tem para quem ligar num sábado à noite. Não é falta de gente ao redor. É falta de alguém que conheça o que realmente se passa por dentro.
Homens sem amigos não são exceção isolada. São um padrão documentado, e a queda começa muito antes da vida adulta parecer solitária.
Homens sem amigos: o que os números mostram
Uma pesquisa do American Survey Center, conduzida por Daniel A. Cox em 2021, mediu essa mudança com precisão. Em 1990, 40% dos homens americanos diziam ter dez ou mais amigos próximos.
Em 2021, esse número caiu para 15%. No mesmo período, a proporção de homens sem nenhum amigo próximo mais que quadruplicou, de 3% para 15%.
As mulheres também perderam amigos nesse intervalo, mas de forma bem menos acentuada. A queda masculina foi a mais expressiva do levantamento.
O que os números escondem
. Redes de amizade masculina caíram de forma mais acentuada do que as femininas na mesma janela de tempo.
. O número de homens sem nenhum amigo próximo mais que quadruplicou em três décadas.
. A queda coincide com décadas de reforço da autossuficiência como valor central da masculinidade.
Não é coincidência que essa curva de queda acompanhe justamente o período em que a vida adulta masculina se organizou cada vez mais em torno do trabalho e cada vez menos em torno de espaços de convivência não produtiva. Quando a única arena legítima de conexão entre homens é a atividade compartilhada, trabalho, esporte, qualquer interrupção nela (uma demissão, uma lesão, uma aposentadoria) deixa o homem sem rede nenhuma por trás.
De onde vem essa perda
A psicóloga do desenvolvimento Niobe Way passou mais de vinte anos entrevistando os mesmos garotos americanos, do início ao fim da adolescência. O achado surpreende: aos treze, catorze anos, esses meninos descrevem amizades extremamente íntimas.
Um deles, Justin, descreve assim: “a gente se ama, é isso, é uma coisa profunda, tão profunda que está dentro de você, você não consegue explicar.” Não é exceção. É a regra encontrada em quase todos os garotos entrevistados nessa faixa etária.
Por volta dos dezesseis anos, essa intimidade desaparece. Way documenta o motivo com clareza: a homofobia começa a rotular qualquer proximidade emocional entre homens como suspeita.
A expressão “no homo” se torna um tique verbal recorrente depois de qualquer frase de afeto entre amigos. Um garoto que aos catorze anos dizia “posso contar meus segredos para ele” passa, aos dezessete, a negar ter qualquer amizade próxima quando perguntado diretamente.
Way chama isso de perda, não de amadurecimento. E mostra, com dados de outras culturas menos heterossexistas, que essa perda não é humana universal: é um produto específico de certas configurações culturais de masculinidade.
Por que homens sem amigos preferem atividade a intimidade
Um estudo neozelandês de Sarah McKenzie e colegas, publicado em 2018, entrevistou homens adultos sobre suas redes sociais. O padrão mais comum, encontrado em quatro de cada dez participantes, tem nome: compartimentalização.
Amizades com outros homens giram em torno de atividade compartilhada: caça, futebol, trabalho. Conversas emocionais ficam reservadas para parceiras ou amigas mulheres.
Um dos entrevistados resume o próprio padrão: “tenho amigos de caçada, amigos de debate, amigos de futebol, e tenho amigas mulheres que me contam sobre os problemas delas e com quem falo dos meus filhos.” Nenhum homem entra nessa lista para a parte emocional.
Uma revisão de 2024, assinada por Therese Nordin e colegas, confirma o mecanismo com outro nome: autossuficiência. Nela, quanto mais um homem valoriza a própria independência, maior a solidão relatada, mesmo cercado de conhecidos.
O preço de ser sempre independente
Alguns homens levam a autossuficiência ao limite. Um dos entrevistados por McKenzie descreve a própria lógica: “não preciso falar com ninguém sobre isso para chegar a uma conclusão.”
Outro é ainda mais direto: “não quero sobrecarregar as pessoas com meus problemas, se eu consigo resolver sozinho.” A independência, nesses casos, deixou de ser recurso e virou isolamento disfarçado de virtude.
O custo aparece em outro lugar: pesquisas citadas por Way associam falta de amizade próxima a risco cardiovascular comparável ao do tabagismo. Solidão não é apenas desconforto emocional. Tem peso clínico mensurável.
Homens LGBTQIA+ e a amizade masculina
Aqui é importante uma ressalva honesta. A pesquisa de Way não teve amostra suficiente de garotos gays ou bissexuais para uma análise própria, apenas quatro em centenas de entrevistados se identificaram espontaneamente.
O que existe é uma pista importante: pesquisas citadas por ela mostram que homens héteros com amizades íntimas com homens gays costumavam ter, paradoxalmente, histórico “hipermasculino”, como esportes ou serviço militar. Essa base dava segurança para não terem a heterossexualidade questionada.
Isso sugere algo relevante: a proximidade emocional entre homens continua policiada mesmo quando um deles já rompeu, publicamente, a norma heterossexual. Para homens gays e bissexuais, a amizade masculina próxima pode carregar um risco adicional: ser lida como desejo romântico, tanto por amigos héteros quanto pelo próprio entrevistado.
O que a psicanálise pode dizer sobre isso?
Do ponto de vista clínico, a amizade masculina rasa raramente é escolha consciente. É o resultado de uma equação aprendida cedo: intimidade emocional foi associada, em algum momento, a risco, seja de parecer fraco, seja de parecer “menos homem”.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que muitos homens percebem a própria solidão apenas quando ela já cobrou um preço concreto, um casamento em crise, um esgotamento, uma perda que não sabem processar sozinhos. A dificuldade de pedir ajuda e a falta de amigos próximos costumam caminhar juntas, alimentando-se uma da outra.
O que isso está tentando dizer?
Quando um homem tem muitos conhecidos e nenhum amigo de verdade, isso não está dizendo que ele não precisa de vínculo. Está dizendo que, em algum momento, aprendeu que pedir esse vínculo custaria caro demais.
A boa notícia é que essa aprendizagem pode ser desfeita. Não exige que o homem deixe de ser quem é, apenas que reconheça que amizade profunda nunca foi, de fato, incompatível com masculinidade.
Existe um caminho possível?
McKenzie encontrou algo esperançoso: alguns homens romperam o padrão de isolamento depois de um evento marcante, como um diagnóstico grave ou um luto. A intimidade voltou a ser possível quando a vida abriu espaço para ela.
Não é preciso esperar uma crise para isso acontecer. A terapia pode oferecer esse mesmo espaço, sem exigir que algo grave aconteça primeiro. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente permitir que uma conversa vá além da atividade que a originou.
Um espaço onde a solidão não precisa ser carregada sozinha
Ter muita gente ao redor e nenhum amigo de verdade também é uma forma de solidão. Se você reconheceu isso neste texto, talvez valha a pena conversar sobre isso com alguém. Alexandre Jeremias oferece uma conversa inicial gratuita de 20 minutos, sem compromisso. Fale agora pelo WhatsApp e dê o primeiro passo, no seu tempo.
Perguntas frequentes
Homens sem amigos é um problema recente?
Os dados mostram piora acentuada nas últimas três décadas, mas o padrão de amizade masculina mais rasa na vida adulta já era documentado antes disso. O que mudou foi a intensidade da queda.
Ter muitos conhecidos não conta como ter amigos?
Não da mesma forma. A pesquisa distingue conexões instrumentais, baseadas em atividade, de conexões emocionais, baseadas em confiança e partilha. Um homem pode ter uma agenda cheia e nenhuma das duas.
Isso afeta homens LGBTQIA+ de forma diferente?
Pode afetar sim, com uma camada adicional: o medo de que a proximidade emocional com outro homem seja mal interpretada, tanto pelo próprio entrevistado quanto por amigos héteros.
É possível reconstruir amizades profundas na vida adulta?
Sim. Pesquisas mostram que isso acontece, geralmente depois de um evento que abre espaço para vulnerabilidade. A terapia pode cumprir esse mesmo papel, sem exigir que uma crise aconteça primeiro.
Referências
COX, Daniel A. Men’s Social Circles are Shrinking. American Survey Center, jun. 2021. Disponível em: https://www.americansurveycenter.org/why-mens-social-circles-are-shrinking/.
MCKENZIE, Sarah K.; COLLINGS, Sunny; JENKIN, Gabrielle; RIVER, Jo. Masculinity, Social Connectedness, and Mental Health: Men’s Diverse Patterns of Practice. American Journal of Men’s Health, v. 12, n. 5, p. 1247-1261, 2018. DOI: 10.1177/1557988318772732.
NORDIN, Therese; DEGERSTEDT, Frida; GRANHOLM VALMARI, Elin. A Scoping Review of Masculinity Norms and Their Interplay With Loneliness and Social Connectedness Among Men in Western Societies. American Journal of Men’s Health, 2024. DOI: 10.1177/15579883241304585.
WAY, Niobe. Deep Secrets: Boys’ Friendships and the Crisis of Connection. Cambridge: Harvard University Press, 2011.











