Saúde Mental

Síndrome de Diógenes: o que é o transtorno de acumulação e por que ele exige cuidado

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Um filho procura a mãe depois de meses sem visitá-la e encontra a casa tomada por sacos de lixo, jornais antigos e objetos que ninguém mais usa. O banheiro está inacessível. A geladeira, vazia ou com comida estragada. A mãe, no meio disso tudo, se recusa a jogar qualquer coisa fora e reage com raiva a qualquer tentativa de organizar o espaço.

Cenas como essa, quando se repetem e se agravam, podem estar relacionadas à síndrome de Diógenes, também chamada de transtorno de acumulação. Não se trata de bagunça, nem de um jeito mais desleixado de ser. É um quadro clínico sério, que costuma vir acompanhado de isolamento social, desconfiança extrema e abandono progressivo dos próprios cuidados.

Falar sobre a síndrome de Diógenes exige cuidado duplo: nem minimizar a gravidade do quadro, nem tratar quem vive isso como alguém a ser julgado. Por trás do acúmulo, quase sempre existe uma história de perdas, isolamento e sofrimento psíquico que precede, e muito, os objetos empilhados.

Cadeira de madeira vazia com pilha de jornais antigos, representando a síndrome de Diógenes

O que é a síndrome de Diógenes

A síndrome de Diógenes é um quadro comportamental caracterizado por negligência extrema com a higiene pessoal, descuido grave com o ambiente doméstico e acúmulo excessivo de objetos sem valor aparente, geralmente acompanhado de isolamento social e desconfiança em relação aos outros.

Não é uma doença específica nem um diagnóstico isolado. Um estudo publicado no Jornal Brasileiro de Psiquiatria descreve a síndrome de Diógenes como um conjunto de comportamentos que pode se manifestar em diferentes quadros psiquiátricos, incluindo demência, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, transtornos de personalidade e, em alguns casos, esquizofrenia (STUMPF; ROCHA, 2010). A incidência anual é de cerca de 5 em cada 10 mil pessoas acima de 60 anos, e pelo menos metade delas apresenta demência ou algum outro transtorno psiquiátrico associado.

Embora seja mais comum e mais estudada em idosos, a síndrome de Diógenes já foi descrita também em adultos mais jovens, de todas as classes sociais, com prevalência semelhante entre homens e mulheres.

Por que o nome de um filósofo que pregava o desapego

O nome da síndrome é, à primeira vista, um paradoxo. Diógenes de Sínope foi um filósofo grego do cinismo, corrente que pregava justamente o desapego radical aos bens materiais. Ele vivia dentro de um barril, e seus únicos pertences eram uma túnica, um cajado e uma tigela.

A síndrome recebeu esse nome em 1975, quando foi descrita pela primeira vez, mas o paralelo é mais irônico do que preciso. Diferentemente de Diógenes, que abria mão de tudo por escolha filosófica, quem vive a síndrome de Diógenes acumula objetos de forma compulsiva. E o isolamento, aqui, não nasce de um desejo de autossuficiência, mas de desconfiança e rejeição em relação ao mundo externo.

Como a síndrome de Diógenes aparece no dia a dia

Os sinais variam de pessoa para pessoa, mas alguns se repetem com frequência: descuido extremo com banho, roupas e unhas, acúmulo de lixo, jornais e objetos quebrados, e uma resistência intensa a qualquer tentativa de organizar ou limpar o espaço.

Vale uma distinção importante. Colecionar objetos de interesse, mesmo em grande quantidade, não é a mesma coisa. Um colecionador costuma manter seus itens organizados e limpos. Na síndrome de Diógenes, o acúmulo acontece sem critério, misturando lixo, restos de comida e objetos sem qualquer utilidade, num ambiente que se torna insalubre e, muitas vezes, perigoso.

Diferenças entre acumular e colecionar

 . O colecionador organiza e valoriza os itens; quem vive a síndrome acumula sem critério

 . Na síndrome de Diógenes, o próprio autocuidado também é negligenciado, não só o espaço

 . O isolamento social e a desconfiança em relação aos outros costumam acompanhar o quadro

 . A pessoa geralmente nega a gravidade da situação e reage mal a qualquer tentativa de ajuda

 . Animais de estimação podem ser acumulados junto com os objetos, muitas vezes sem receber os cuidados necessários

O isolamento e a desconfiança por trás do acúmulo

O afastamento de amigos e familiares raramente é a causa da síndrome de Diógenes. Na maioria das vezes, é consequência de um sofrimento que já vinha de antes: vergonha do próprio estado, medo de ser julgado, ou uma desconfiança que foi se instalando aos poucos em relação a quem tentava ajudar.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que famílias costumam demorar para procurar ajuda porque confundem o quadro com teimosia ou mau humor da pessoa idosa, quando na verdade estão diante de um sofrimento psíquico que se instalou de forma silenciosa, muitas vezes ao longo de anos.

Esse isolamento tende a se retroalimentar. Quanto mais a pessoa se afasta, menos alguém percebe o agravamento da situação. E quanto mais alguém tenta intervir sem entender o que está por trás do comportamento, maior costuma ser a resistência.

Por que isso costuma aparecer na terceira idade

A síndrome de Diógenes está frequentemente associada ao envelhecimento, embora não se restrinja a ele. Perdas acumuladas ao longo da vida (viuvez, aposentadoria, afastamento dos filhos, luto por amigos e familiares) podem preceder o início do quadro.

Também existe uma relação relevante com condições clínicas do envelhecimento, como demência e outros transtornos neurocognitivos, além de quadros como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e uso de álcool. Isso não significa que toda pessoa idosa que vive sozinha e tem dificuldade de organizar a casa esteja desenvolvendo a síndrome. Significa que, quando o quadro aparece, ele raramente vem isolado de outras questões de saúde física e mental que merecem investigação cuidadosa.

Assim como discutimos na síndrome do ninho vazio, o envelhecimento traz consigo uma sequência de transições e perdas que impactam diretamente a identidade e a organização da vida cotidiana. Na síndrome de Diógenes, esse processo pode chegar a um ponto de ruptura mais grave, exigindo intervenção especializada.

Mão segurando chave antiga em corredor iluminado, representando a síndrome de Diógenes

O que isso está tentando dizer?

Quando alguém acumula objetos ao ponto de tornar a própria casa inabitável, e ao mesmo tempo se afasta de todos que poderiam ajudar, esse comportamento costuma estar tentando dizer algo sobre uma dor que não encontrou outra forma de expressão. Os objetos podem funcionar como uma tentativa de preencher um vazio, ou como uma forma (ainda que sofrida) de manter algum controle sobre um mundo que parece cada vez mais ameaçador.

A síndrome de Diógenes, olhada por esse ângulo, não é sobre preguiça, teimosia ou falta de vontade de viver bem. É sobre um sofrimento psíquico profundo, muitas vezes silencioso durante anos, que se manifesta no corpo, no espaço e na relação com os outros.

Existe um caminho possível?

Não existe uma solução rápida, e qualquer promessa nesse sentido ignoraria a complexidade real do quadro. O tratamento da síndrome de Diógenes costuma exigir uma equipe multidisciplinar: avaliação psiquiátrica, acompanhamento psicológico e, quando necessário, suporte médico para condições associadas, como demência ou depressão.

Um dos maiores desafios é justamente a resistência da pessoa em aceitar ajuda. Por isso, o processo costuma ser gradual, com visitas domiciliares e uma abordagem que respeite os limites e o tempo de cada pessoa, evitando intervenções bruscas que aumentem ainda mais a desconfiança.

Para a família, vale lembrar que buscar ajuda profissional não é uma traição à autonomia da pessoa querida, é reconhecer que esse sofrimento merece cuidado especializado, assim como qualquer outra condição de saúde séria.

Se você reconheceu esse padrão em alguém da sua família, ou está buscando entender melhor como ajudar, vale conversar com um profissional para pensar juntos os próximos passos.

Perguntas frequentes

O que é a síndrome de Diógenes?

É um quadro comportamental caracterizado por negligência extrema com a higiene pessoal, acúmulo excessivo de objetos sem valor e descuido grave com o ambiente doméstico, geralmente acompanhado de isolamento social e desconfiança.

Não exatamente. É um conjunto de comportamentos que pode aparecer associado a diferentes condições, como demência, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e transtornos de personalidade.

É mais comum e mais estudada em pessoas acima de 60 anos, mas já foram descritos casos em adultos mais jovens, de diferentes classes sociais.

O colecionador costuma manter seus objetos organizados e valorizados. Na síndrome de Diógenes, o acúmulo é desordenado, envolve lixo e itens sem utilidade, e vem acompanhado de negligência com a própria higiene.

O primeiro passo costuma ser buscar avaliação psiquiátrica e psicológica especializada. A abordagem precisa ser gradual e respeitosa, já que a resistência a qualquer ajuda é uma característica comum do quadro.

Referências

STUMPF, Bárbara Perdigão; ROCHA, Fábio Lopes. Síndrome de Diógenes. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, v. 59, n. 2, p. 156-159, 2010. Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbpsiq/a/RKHJxRjqN4s3pPfkHwJL5Nb/.

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