Saúde Mental

Medo de ser abandonado: por que a ausência do outro provoca tanta angústia?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Os amigos saíram sem convidar. Uma pessoa importante demora a responder. Alguém que sempre procurava você começa a se afastar. Um filho cresce, ganha independência, e já não precisa tanto da sua presença.

São situações diferentes, mas que podem despertar uma sensação parecida: a de estar perdendo seu lugar na vida de alguém. Para algumas pessoas, isso gera uma tristeza passageira. Para outras, desperta um medo de ser abandonado difícil de explicar, e o pensamento começa a procurar respostas. Será que fiz alguma coisa errada? Será que deixei de ser importante?

Esse medo nem sempre aparece diante de uma separação concreta. Muitas vezes, ele surge quando a pessoa percebe apenas uma mudança na disponibilidade emocional do outro, mesmo sem nenhuma ruptura real. E, embora o tema costume ser discutido em relacionamentos amorosos, ele também atravessa amizades, famílias e situações em que alguém sente que deixou de ser visto, lembrado ou necessário.

Mesa de jantar farta com uma cadeira vazia simbolizando o medo de ser abandonado

O que é o medo de ser abandonado?

O medo de ser abandonado é a experiência de antecipar a perda de uma relação significativa, ou de sentir que a disponibilidade afetiva de alguém está ameaçada. Pode surgir diante de uma situação real, como o afastamento de um amigo, mas também pode aparecer quando não existe ruptura nenhuma: a pessoa percebe uma mudança pequena e passa a imaginar que ela anuncia uma perda maior.

Um convite que não chega, uma conversa que termina rápido demais, uma demonstração de afeto menos frequente, tudo isso pode despertar sentimentos de rejeição e desamparo. É importante diferenciar esse medo da tristeza comum diante de uma perda: sentir tristeza quando alguém se afasta é humano. O sofrimento passa a merecer atenção quando a possibilidade de perder o outro ocupa grande parte da vida emocional, interfere nas relações ou gera uma necessidade constante de confirmação.

O medo de abandono não é, por si só, um diagnóstico. É uma experiência que precisa ser compreendida considerando a história, as relações e o contexto de cada pessoa.

Por que a ausência de alguém provoca tanta angústia?

A ausência não tem o mesmo significado para todo mundo. Para uma pessoa, uma mensagem sem resposta é só sinal de alguém ocupado. Para outra, pode despertar a sensação de que algo está errado. Essa diferença não depende só do que acontece agora, mas das expectativas construídas ao longo da vida sobre a disponibilidade das pessoas importantes.

A teoria do apego, desenvolvida por John Bowlby, ajuda a entender esse processo. As experiências com figuras significativas participam da construção de representações sobre nós mesmos e sobre os outros, e essas representações influenciam a forma como percebemos a disponibilidade afetiva e respondemos ao afastamento.

Uma pesquisa de Oldeman, Cillessen e van den Berg (2025), publicada na Personality and Social Psychology Bulletin, investigou as relações entre apego parental, apego nas amizades e qualidade desses vínculos em adultos jovens. O estudo encontrou associações entre maior ansiedade ou evitação no apego com os pais, padrões semelhantes nas amizades, e menor qualidade percebida dessas relações. Isso não significa que a infância determine todos os relacionamentos futuros, mas ajuda a entender por que uma mesma ausência pode ser sentida de formas tão diferentes por pessoas diferentes.

O medo de ser esquecido nas amizades

Existe uma forma de abandono que raramente recebe a mesma atenção dedicada às separações amorosas: o sofrimento provocado pelo afastamento de amigos. Uma pessoa que sempre esteve presente em aniversários, viagens e conversas de um grupo, aos poucos, percebe que os convites diminuíram, descobre encontros pelas redes sociais, sente que as pessoas continuam se falando, só que sem ela.

O sofrimento não está apenas em perder um passeio, está na sensação de ter deixado de pertencer. A pessoa começa a questionar seu lugar no grupo, e às vezes o próprio valor.

Uma pesquisa longitudinal de Chow, Ruhl e Buhrmester (2014) acompanhou 223 adolescentes ao longo de diferentes etapas escolares e investigou a relação entre apego e experiências de amizade. O estudo encontrou associações, ao longo do tempo, entre experiências de exclusão nas amizades e maior ansiedade relacionada ao apego. A pesquisa foi feita com adolescentes, o que limita generalizar automaticamente para todas as idades, mas ajuda a entender por que ser excluído de uma relação significativa pode afetar a percepção de segurança daquele vínculo.

Quando a amizade vira medida de valor próprio

 . Se me procuram, sou importante

 . Se não me convidam, não faço falta

 . Se escolheram outra pessoa, fui substituído

 . Nem todo afastamento significa rejeição: amizades mudam com o tempo, pessoas reorganizam prioridades, mudam de cidade, constroem novas relaçõessimbolização, fala e reflexão

É possível sentir-se abandonado mesmo estando acompanhado?

Nem sempre o abandono é vivido como ausência física. Uma pessoa pode estar cercada de família, amigos ou colegas e, ainda assim, sentir que ninguém percebe suas necessidades emocionais. Pode existir convivência sem intimidade, presença sem escuta, contato frequente sem a sensação de ser compreendido.

Isso costuma doer mais em quem aprendeu a ocupar um lugar de utilidade nas relações: a pessoa que resolve os problemas, organiza os encontros, acolhe os conflitos de todo mundo. O medo de abandono pode surgir justamente quando ela percebe que sua presença é procurada principalmente pelo que oferece, e não pelo que sente ou deseja. Uma pergunta pode aparecer nesse ponto: se eu deixar de ser necessário, continuarei sendo importante?

Mulher observando de longe um grupo de amigos reunidos, sinal de medo de ser abandonado

O que as experiências da infância têm a ver com esse medo?

A infância é um período importante para a construção das primeiras experiências de segurança e disponibilidade emocional. Quando uma criança encontra respostas suficientemente consistentes às suas necessidades, tende a desenvolver a expectativa de que o outro estará disponível em momentos difíceis. Quando existem experiências de negligência ou indisponibilidade persistente, essa construção pode ser afetada.

Uma pesquisa longitudinal de Widom, Czaja, Kozakowski e Chauhan (2018) acompanhou pessoas com registros documentados de abuso físico ou negligência na infância. O estudo encontrou níveis mais altos de apego ansioso na vida adulta entre os participantes com essas histórias, além de associações entre padrões de apego inseguro e indicadores posteriores de sofrimento psicológico. É importante não transformar esse achado em uma regra fechada: nem toda pessoa que teme ser abandonada sofreu negligência na infância, e nem toda pessoa que viveu experiências difíceis desenvolve esse medo. Relações construídas ao longo da vida, como uma amizade acolhedora ou um processo terapêutico, também oferecem possibilidade real de transformação.

Quando o afastamento parece ameaçar a própria existência

Uma dimensão importante do medo de abandono aparece quando a pessoa sente que depende do reconhecimento externo para sustentar a própria identidade. Ela pode saber, racionalmente, que continua sendo importante, mas não consegue sentir essa segurança quando alguém se afasta.

Sob uma perspectiva psicanalítica, essas perguntas (quem sou eu quando não sou procurado, continuo tendo valor quando não sou escolhido) abrem espaço para investigar a função que o reconhecimento do outro exerce na vida psíquica. Não se trata de dizer que desejar reconhecimento seja um problema, todos precisamos, em alguma medida, de relações nas quais possamos ser vistos e escutados. A questão aparece quando a ausência desse reconhecimento produz um esvaziamento tão intenso que a pessoa tem dificuldade de sustentar sua própria experiência emocional sem ele.

Segundo Alexandre Jeremias (psicólogo, psicanalista e sexólogo), é comum, na prática clínica, encontrar pessoas que aprenderam a medir o próprio valor pela frequência com que são procuradas, um padrão que costuma se intensificar justamente em fases de transição, como mudanças de cidade, de trabalho ou de país.

Por que algumas pessoas se afastam antes de serem abandonadas?

O medo de abandono nem sempre produz uma busca intensa por proximidade. Em algumas pessoas, ele aparece como distanciamento: alguém percebe uma mudança no comportamento de um amigo e decide interromper o contato antes de descobrir o que está acontecendo. Outra pessoa evita demonstrar afeto porque teme depender emocionalmente de alguém, ou simplesmente não pede ajuda, não compartilha dificuldades, procura mostrar que não precisa de ninguém.

A teoria do apego diferencia, entre outras dimensões, a ansiedade relacionada ao medo de perda e a evitação relacionada ao desconforto com intimidade e dependência. Essas dimensões não precisam se manifestar da mesma forma em todas as relações: alguém pode sentir mais segurança com um amigo e mais insegurança com outro. Por isso, esse medo não deve ser reconhecido só em quem busca confirmação o tempo todo, às vezes ele aparece justamente em quem aprendeu a não demonstrar que precisa de alguém.

O medo de abandono nas relações familiares

Nas famílias, o medo de abandono costuma aparecer em momentos de transformação. Uma mãe pode sentir angústia quando os filhos se tornam independentes. Um filho adulto pode temer perder o lugar afetivo que ocupava depois que os pais reorganizam suas vidas. Irmãos podem sentir exclusão diante de diferenças no cuidado ou na atenção recebida.

Essas experiências não significam necessariamente abandono real, mostram que mudanças nas relações mobilizam sentimentos ligados ao pertencimento. Quem sempre cuidou pode ter dificuldade de aceitar que o outro já caminha sozinho. Quem sempre foi cuidado pode viver a autonomia como perda de proteção. O trabalho emocional aqui envolve entender que a transformação de um vínculo não significa, obrigatoriamente, seu desaparecimento.

Para quem vive fora do Brasil, esse ponto ganha um peso a mais: acompanhar de longe pais que envelhecem, irmãos que seguem suas vidas, amigos que constroem novas rotinas, tudo isso pode intensificar o medo de deixar de ocupar um lugar na história dessas pessoas, mesmo quando o vínculo continua sendo real.

Sinais de que o medo de abandono está pedindo atenção

 . Angústia intensa diante de afastamentos ou mudanças de disponibilidade

 . Interpretar situações ambíguas quase sempre como sinal de rejeição

 . Necessidade constante de confirmação de que ainda é importante

 . Dificuldade de expressar necessidades por medo de incomodar

 . Tendência a se afastar antes, para evitar uma possível rejeição

 . Sensação de vazio quando não recebe atenção ou reconhecimento

Esses sinais não bastam, sozinhos, para um diagnóstico. Também é preciso considerar o contexto: uma pessoa sistematicamente excluída, negligenciada ou submetida a relações emocionalmente abusivas pode estar respondendo a uma situação concreta, não a uma insegurança apenas interna. Vale a mesma diferença já discutida em reprimir emoções faz mal?: reconhecer um sofrimento real não é o mesmo que patologizá-lo.

O que isso está tentando dizer?

Quando o medo de ser abandonado aparece com frequência, ele geralmente está tentando dizer duas coisas ao mesmo tempo. A primeira é sobre o vínculo em si: que lugar essa pessoa ocupa na vida de quem sente esse medo, e o quanto esse lugar parece instável. A segunda é sobre a história de quem sente: que experiências anteriores de ausência ou indisponibilidade ensinaram que a proximidade pode desaparecer sem aviso.

Não é sempre possível separar completamente as duas coisas. Mas perceber que existe mais de uma camada ali já ajuda a não transformar cada afastamento comum em uma confirmação de que algo está errado com quem sente.

O papel da psicoterapia

O trabalho psicoterapêutico não consiste em ensinar alguém a deixar de precisar das pessoas, a necessidade de vínculo faz parte da experiência humana. O processo ajuda a entender por que determinadas ausências provocam sofrimento tão intenso, e que significados são atribuídos ao afastamento.

Algumas perguntas costumam orientar essa investigação na clínica: o que a pessoa sente quando não é procurada? Que lugar costuma ocupar nas relações? Existe diferença entre sentir saudade e sentir-se abandonada? Ela consegue expressar sua tristeza, ou costuma esconder o sofrimento para não parecer dependente? O objetivo não é eliminar o desejo de ser amado, escolhido ou lembrado, é ampliar a possibilidade de viver os vínculos sem transformar cada ausência em prova de desvalor pessoal.

A ausência do outro não precisa significar a perda de si

O medo de ser abandonado pode aparecer em situações aparentemente pequenas: um convite que não chega, uma amizade que muda, um familiar que se distancia. Às vezes o sofrimento está ligado à perda concreta de uma relação. Em outras situações, o afastamento desperta experiências emocionais que ultrapassam o acontecimento presente.

Não é preciso aprender a viver sem vínculos para se sentir seguro. É preciso construir relações nas quais a proximidade possa existir sem que toda ausência seja vivida como ameaça. Talvez a pergunta mais importante não seja só por que temos tanto medo de perder alguém, mas por que, em certas situações, perder o lugar na vida do outro parece significar também perder uma parte de nós mesmos.

Se a ausência das pessoas costuma doer mais do que você acha que deveria, isso merece ser entendido, não ignorado. Agende uma conversa inicial gratuita de 20 minutos com Alexandre Jeremias.

Perguntas frequentes

Medo de ser abandonado é a mesma coisa que insegurança?

Não necessariamente. Pode envolver insegurança, mas também está ligado a experiências relacionais específicas, à história de apego da pessoa e, em alguns casos, a situações reais de exclusão ou negligência.

Não. Ele pode aparecer com a mesma intensidade em amizades, relações familiares e outros vínculos significativos, especialmente quando a pessoa sente que perdeu espaço na vida de alguém importante.

Não necessariamente. Pesquisas mostram associação entre negligência infantil e apego ansioso na vida adulta, mas isso não é uma regra: muitas pessoas com essa história não desenvolvem o medo, e muitas que sentem esse medo não passaram por negligência.

Quando ele passa a interferir de forma persistente nas relações, gera necessidade constante de confirmação, ou leva a se afastar preventivamente das pessoas por medo de ser deixado. Nesses casos, vale buscar acompanhamento profissional.

Referências

BOWLBY, John. Attachment and Loss: Attachment. v. 1. New York: Basic Books, 1969.

CHOW, Chong Man; RUHL, Holly; BUHRMESTER, Duane. Reciprocal associations between friendship attachment and relational experiences in adolescence. Journal of Social and Personal Relationships, v. 32, n. 1, p. 122-146, 2014. DOI: 10.1177/0265407514562987. Acesso em: 25 set. 2026.

OLDEMAN, Marie G.; CILLESSEN, Antonius H. N.; VAN DEN BERG, Yvonne H. M. Friendships in Emerging Adulthood: The Role of Parental and Friendship Attachment Representations and Intimacy. Personality and Social Psychology Bulletin, v. 51, n. 4, p. 514-529, 2025. DOI: 10.1177/01461672231195339. Acesso em: 25 set. 2026.

WIDOM, Cathy Spatz; CZAJA, Sally J.; KOZAKOWSKI, Sandra Sepulveda; CHAUHAN, Preeti. Does adult attachment style mediate the relationship between childhood maltreatment and mental and physical health outcomes? Child Abuse & Neglect, v. 76, p. 533-545, 2018. DOI: 10.1016/j.chiabu.2017.05.002. Acesso em: 25 set. 2026.

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