Irlanda

O inverno irlandês e a saúde mental de brasileiros

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Ninguém avisa direito o quanto o inverno irlandês pesa até a pessoa viver o primeiro. Dias que escurecem antes das cinco da tarde, céu cinza por semanas seguidas, sol que aparece pouco e dura pouco quando aparece. Para quem cresceu no Brasil, com luz solar quase o ano inteiro, esse contraste pode ser mais difícil do que se imagina.

O inverno irlandês e a saúde mental estão mais conectados do que parece à primeira vista. Não é frescura nem exagero: existe uma explicação real, biológica, para esse cansaço que aparece justamente nos meses mais escuros do ano.

Inverno irlandês e saúde mental: pessoa caminhando ao entardecer precoce

Por que o inverno irlandês pega tanta gente de surpresa

Muitos brasileiros chegam à Irlanda esperando lidar com frio, mas subestimam o impacto da falta de luz. Em pleno inverno, o sol pode nascer depois das 8h30 e se pôr antes das 16h30, isso significa passar boa parte do dia útil em escuridão, mesmo estando acordado e produtivo.

Esse padrão de luz é completamente diferente do que o corpo brasileiro está acostumado a regular, e a adaptação a esse novo ritmo leva tempo, muitas vezes mais tempo do que a pessoa imaginava antes de embarcar.

O que a falta de luz solar faz com o corpo e a mente

A exposição à luz solar influencia diretamente a produção de serotonina, neurotransmissor associado à regulação do humor, uma relação que pesquisas científicas mostram através da menor circulação de serotonina no cérebro durante os meses de inverno. Quando a luz diminui, esse processo pode ficar comprometido.

Na prática, isso costuma aparecer como mais cansaço, menos disposição, dificuldade de concentração e uma sensação geral de “estar mais devagar” durante os meses de inverno, mesmo sem nenhum motivo aparente para isso.

Se você percebe que a vontade de sair de casa, ver pessoas ou fazer atividades que gostava diminui muito no inverno irlandês, isso pode ser mais fisiológico do que emocional, o corpo está reagindo à mudança real na quantidade de luz.

Não é frescura: existe base científica por trás disso

Um erro comum é pensar que esse cansaço de inverno é falta de força de vontade ou dificuldade de adaptação pessoal. Na realidade, o corpo humano usa a luz como um dos principais sinalizadores para regular o relógio biológico interno, incluindo sono, apetite e humor.

Quando a quantidade de luz muda drasticamente, como acontece na transição para o inverno irlandês, esse relógio interno pode ficar temporariamente desregulado. Isso explica por que a queda de energia costuma ser tão previsível e sazonal.

Inverno irlandês e saúde mental: pessoa sentada perto de janela em dia nublado

Quando o inverno se soma à distância do Brasil

Para brasileiros na Irlanda, o inverno raramente chega sozinho. Ele costuma se somar à saudade da família, à distância dos amigos e a datas importantes vividas longe de casa, como o Natal ou o aniversário de alguém querido, questão que se conecta ao que já vimos em brasileiros na Irlanda: saúde mental e adaptação emocional.

Essa combinação pode intensificar sentimentos de isolamento, especialmente para quem ainda está construindo uma rede de apoio local.

Pequenas mudanças que ajudam a atravessar o inverno

Embora não seja possível controlar a quantidade de luz solar disponível, algumas atitudes práticas podem ajudar: aproveitar ao máximo as horas de luz do dia, mesmo que poucas, manter contato regular com outras pessoas, e não se isolar completamente durante os meses mais escuros.

Também vale prestar atenção a rotinas de sono e alimentação, que costumam ser mais afetadas nessa época do ano. Pequenos ajustes não eliminam o peso do inverno, mas podem reduzir seu impacto no dia a dia.

Quando procurar ajuda

Se o cansaço, a tristeza ou a falta de energia do inverno irlandês persistem por semanas, afetam o trabalho ou os relacionamentos, ou se tornam mais intensos a cada ano, vale conversar com um profissional. Em alguns casos, esse padrão sazonal pode indicar um quadro mais específico, explorado em depressão sazonal em brasileiros na Irlanda.

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Perguntas frequentes

O inverno irlandês realmente afeta o humor, ou é impressão?

É real. A redução da luz solar influencia a produção de serotonina e o relógio biológico interno, o que pode causar mais cansaço, menos disposição e alterações de humor durante os meses de inverno.

Porque o corpo se acostuma ao padrão de luz do lugar onde viveu a maior parte da vida. Vindo de um país com luz solar abundante, a adaptação ao inverno irlandês tende a ser mais intensa.

Sim. Um certo nível de cansaço e queda de energia é esperado. Quando os sintomas se tornam intensos, persistentes e afetam significativamente a rotina, pode se tratar de um quadro mais específico que merece avaliação profissional.

Aproveitar as horas de luz disponíveis, manter contato regular com outras pessoas e cuidar da rotina de sono podem ajudar a reduzir o impacto, mesmo sem eliminá-lo completamente.

Referências

Lambert, G. W. et al. Effect of sunlight and season on serotonin turnover in the brain. The Lancet, 2002.

American Psychiatric Association. DSM-5-TR. APA Publishing, 2022.

National Institute of Mental Health. Seasonal Affective Disorder. NIMH.

Winnicott, D. W. O ambiente e os processos de maturação. Artmed, 1983.

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