O treino acabou, o vestiário esvaziou, e o apartamento mobiliado pelo clube está em silêncio. No Brasil são quatro horas a menos, ou cinco a mais, e a família já dorme ou ainda trabalha. A mensagem enviada para casa diz que está tudo ótimo. A solidão de atletas no exterior costuma caber inteira nessa frase, escrita por quem aprendeu cedo que preocupar os outros não faz parte do contrato.
De fora, parece o contrário de solidão. Há companheiros de equipe, comissão técnica, torcida, às vezes imprensa. Poucas pessoas vivem tão cercadas. E, ainda assim, pode faltar o essencial: alguém diante de quem não seja preciso render.
O que torna diferente a solidão de atletas no exterior?
Quem migra por outros caminhos também enfrenta distância, idioma e saudade, como mostra o artigo sobre solidão no exterior. A experiência de quem compete tem, além disso, duas marcas próprias.
A primeira é a avaliação permanente. O corpo, o desempenho, o humor e até a vida fora do treino são observados por pessoas que decidem se aquele contrato continua. A segunda é a dificuldade de mostrar fragilidade em um ambiente que premia justamente quem parece não ter nenhuma.
As duas juntas produzem uma solidão particular. Não a de quem está sem ninguém, mas a de quem não pode ser visto por inteiro por quase ninguém. É um recorte do que já aparece no texto sobre atletas que moram fora do país, visto aqui mais de perto.
Cercado de gente, sem ninguém para falar
Vale olhar para quem está em volta. O companheiro de equipe é também quem disputa a mesma vaga. O treinador decide quem joga. O empresário tem interesse direto na próxima transferência. A torcida quer resultado.
Sobra a família, e é aí que a situação se complica. A antropóloga Carmen Rial, que acompanhou jogadores brasileiros em vários países, mostra que a carreira esportiva costuma ser um projeto familiar. Muitos desses atletas se constroem como provedores, e o sucesso deles sustenta e orgulha quem ficou.
Dizer a essas pessoas que se está triste, com medo ou pensando em desistir pode parecer uma traição ao esforço de todos. Então se diz que está tudo bem. Cada relação próxima tem, assim, um motivo para que algo não seja dito.
Viver dentro de uma bolha
A pesquisa de Rial ajuda a entender outra camada. Ao observar o cotidiano de jogadores na Espanha e na Holanda, ela descreve um dia a dia rigidamente controlado pelo clube: horários, roupas, deslocamentos, refeições, com penalidades previstas para quem descumpre.
As viagens seguem a mesma lógica. Quando a pesquisadora perguntou ao jogador Denílson se conhecia muitos países, ouviu uma resposta irônica: “sim, os hotéis sim, conhecemos bem os hotéis e os aeroportos”.
Fora do clube, a vida se organiza em poucos lugares: a casa, o carro, o estádio, o restaurante de comida brasileira, a igreja. A televisão ligada no canal brasileiro e as mensagens para casa mantêm o país de origem presente todos os dias.
A conclusão de Rial é forte. Esses atletas vivem em “bolhas institucionais que os protegem e os controlam”, e por isso cruzam fronteiras geográficas sem entrar de fato nos países. Suas fronteiras, escreve ela, são os clubes.
A bolha protege, e muito. Mas quem vive dentro dela pode passar anos em um lugar sem criar ali um único vínculo que não dependa do esporte.
O que a pesquisa de Carmen Rial observou:
. O estudo acompanhou mais de 40 jogadores brasileiros de futebol, homens, em diferentes países.
. A rotina é controlada pelo clube em detalhes, dentro e fora do campo.
. O contato diário com o Brasil se dá pela comida, pela televisão, pela música e pela internet.
. Os clubes costumam contratar brasileiros em grupo, e é comum o atleta levar um amigo ou parente.
. A pesquisa é de 2008 e trata do futebol masculino de elite. Outras modalidades e o esporte feminino podem ter realidades diferentes, em geral com menos estrutura e menos proteção.
A fase em que a solidão mais aperta
A psicologia do esporte tem um modelo para descrever essa travessia. Tatiana Ryba, Natalia Stambulova e Noora Ronkainen propõem que a transição cultural de atletas acontece em três fases: a preparação antes da mudança, a adaptação cultural aguda logo depois da chegada e, mais tarde, a adaptação sociocultural.
É na segunda fase que as autoras situam a solidão e o esforço para se encaixar nos costumes do novo lugar. A pessoa precisa, ao mesmo tempo, render no trabalho, refazer suas relações e aprender a decifrar um ambiente cujos códigos ainda não domina.
O idioma pesa em tudo isso. Sem ele, as conversas ficam restritas ao necessário, e o humor, a ironia e a intimidade demoram a aparecer. Falar outra língua muda a forma como alguém se apresenta, e durante um bom tempo o atleta pode se sentir uma versão reduzida de si.
Não poder mostrar fragilidade
O esporte de alto rendimento ensina a suportar dor, esconder o cansaço e não dar sinais ao adversário. São habilidades úteis em competição. O problema começa quando viram a única forma de existir.
Uma meta-análise coordenada por Vincent Gouttebarge reuniu estudos com atletas de elite e encontrou sintomas de ansiedade ou depressão em cerca de um terço dos atletas em atividade. O sofrimento psíquico, portanto, não é exceção nesse meio.
Mesmo assim, pedir ajuda continua difícil. A declaração de consenso do Comitê Olímpico Internacional sobre saúde mental em atletas de elite aponta o estigma como uma das principais barreiras, junto com o receio de que admitir uma dificuldade custe espaço na equipe.
A psicanálise oferece uma imagem para isso. Donald Winnicott descreveu o falso self como uma organização que se forma para atender às expectativas do ambiente e proteger aquilo que a pessoa tem de mais verdadeiro. Ele pode funcionar muito bem, e por muito tempo. O custo é a sensação de que ninguém conhece quem está por trás.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que atletas costumam chegar falando de desempenho, e que só depois de algum tempo aparece o que estava por trás: o medo de decepcionar, a saudade, o cansaço de nunca poder parar.
Longe de casa, essa armadura quase não encontra descanso. No país de origem havia, ao menos, alguém que conhecia a pessoa antes do atleta.
Quando o corpo para
Há momentos em que essa solidão se torna mais aguda. A lesão é o principal deles. O atleta lesionado sai do treino coletivo, perde o lugar na rotina do grupo e passa a conviver com a dúvida sobre o futuro.
Rial registra que muitos jogadores com lesões de tratamento longo preferiam se tratar no Brasil. A razão que davam não era a tecnologia, e sim o acompanhamento de perto. Em outras palavras, queriam ser cuidados por alguém que os conhecesse.
O impacto psicológico das lesões é maior quando falta essa rede. O mesmo vale para o banco de reservas, para o fim de um contrato e para as fases em que a pressão por resultado deixa de vir acompanhada de qualquer reconhecimento.
Quando o valor de alguém parece depender inteiramente do que entrega, deixar de entregar pode ser vivido como deixar de existir.
Os lutos de quem parte
O psiquiatra Joseba Achotegui, que estuda o sofrimento de migrantes, descreve a migração como um conjunto de lutos simultâneos: pela família e pelos amigos, pela língua, pela cultura, pela terra, pelo lugar social que se tinha e pelo grupo ao qual se pertencia.
Para atletas, esses lutos costumam ser adiados. O calendário não espera, e a narrativa oficial é a de quem realizou um sonho. Sentir tristeza no meio de uma conquista parece ingratidão.
Mas o luto migratório não desaparece por falta de tempo. Ele volta nas folgas, nas datas comemorativas passadas em hotel, no nascimento de um sobrinho visto pela tela, na saudade do Brasil que aperta sem aviso.
Sinais de que a solidão está pesando
. Você só conversa sobre treino, jogo e resultado, com todo mundo.
. As folgas, que deveriam aliviar, são os piores dias.
. Você evita ligar para casa porque não quer ter de fingir.
. O sono, o apetite ou a vontade de treinar mudaram por semanas seguidas.
. Aparece a ideia de que, fora do esporte, você não seria ninguém.
O que pode ajudar
Não há receita, mas algumas direções aparecem com frequência.
Uma delas é ter ao menos um vínculo em que não seja preciso render. Alguém que não dependa do seu resultado e a quem se possa dizer a verdade: um amigo de fora do esporte, um parente, um profissional.
Outra é furar a bolha aos poucos. Aprender o idioma além do necessário para o treino, frequentar um lugar da cidade que não seja o clube, conhecer pessoas que não saibam quem você é como atleta. Rial observa que as redes de brasileiros no clube ajudam muito, e ajudam mais quando não são as únicas.
Também vale dar à família uma versão mais verdadeira. Não é preciso alarmar ninguém. Dizer “hoje foi difícil” já muda o tipo de conversa possível.
E há a possibilidade de falar com alguém na própria língua. A terapia online para brasileiros no exterior permite um espaço que não pertence ao clube, onde nada do que é dito conta para a escalação.
Fora do jogo, alguém precisa saber como você está
A solidão que atravessa a vida contemporânea toma, no esporte, uma forma difícil de reconhecer, porque vem acompanhada de aplauso.
Um atleta pode ser forte e estar só, ser admirado e não ter com quem falar, estar exatamente onde sonhou e sentir falta de casa. Nenhuma dessas coisas anula a outra.
O desempenho pode ser medido por todo mundo. Como a pessoa está, só fica sabendo quem ela deixa chegar perto.
Um lugar onde não é preciso render
Viver do esporte longe de casa exige mostrar força quase o tempo inteiro. Com o tempo, pode ficar difícil lembrar com quem ainda é possível falar do cansaço, da saudade e do medo de decepcionar.
A psicoterapia pode ser esse espaço: em português, fora do clube, sem plateia e sem avaliação. Se fizer sentido, é possível começar por uma conversa inicial gratuita de 20 minutos.
Perguntas frequentes
É comum atletas se sentirem sozinhos morando no exterior?
Sim. Pesquisas sobre transição cultural de atletas situam a solidão principalmente nos primeiros tempos depois da mudança, quando é preciso render, refazer vínculos e aprender os códigos de um novo lugar ao mesmo tempo.
Por que atletas têm dificuldade de falar sobre o que sentem?
O ambiente esportivo valoriza resistência e controle, e muitos temem que admitir uma dificuldade custe espaço na equipe. O estigma é apontado como uma das principais barreiras para a busca de ajuda.
A solidão pode afetar o desempenho esportivo?
Pode. Sono, concentração e motivação sofrem quando a pessoa está isolada por muito tempo. Mas a solidão merece atenção por si mesma, e não apenas por seus efeitos sobre o resultado.
Como a família pode ajudar um atleta que mora fora?
Mostrando que há espaço para ouvir também o que não vai bem. Perguntar sobre a vida, e não só sobre o jogo, ajuda o atleta a não precisar sustentar a imagem de que está sempre ótimo.
Atletas no exterior podem fazer terapia em português?
Sim. O atendimento online permite fazer psicoterapia com um profissional brasileiro, em um espaço independente do clube e na língua em que a pessoa se expressa com mais liberdade.
Referências
ACHOTEGUI, Joseba. Emigrar en situación extrema: el síndrome del inmigrante con estrés crónico y múltiple (síndrome de Ulises). Norte de Salud Mental, n. 21, p. 39-52, 2004.
GOUTTEBARGE, Vincent et al. Occurrence of mental health symptoms and disorders in current and former elite athletes: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, v. 53, n. 11, p. 700-706, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1136/bjsports-2019-100671
REARDON, Claudia L. et al. Mental health in elite athletes: International Olympic Committee consensus statement (2019). British Journal of Sports Medicine, v. 53, n. 11, p. 667-699, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1136/bjsports-2019-100715
RIAL, Carmen. Rodar: a circulação dos jogadores de futebol brasileiros no exterior. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 14, n. 30, p. 21-65, jul./dez. 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-71832008000200002
RYBA, Tatiana V.; STAMBULOVA, Natalia B.; RONKAINEN, Noora J. The work of cultural transition: an emerging model. Frontiers in Psychology, v. 7, 427, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.3389/fpsyg.2016.00427
WINNICOTT, Donald W. Distorção do ego em termos de verdadeiro e falso self (1960). In: WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.



