É comum alguém chegar ao consultório tentando identificar o motivo exato da própria solidão, como se existisse uma causa única a ser encontrada e corrigida. Às vezes é a mudança de cidade. Às vezes é o fim de um casamento. Às vezes, nem isso: a pessoa tem trabalho, família por perto, alguma vida social, e mesmo assim sente uma falta que não consegue nomear.
O que causa a solidão raramente é um fator isolado. É mais produtivo pensar nela como resultado de diferentes dimensões que se combinam, de forma distinta para cada pessoa, do que buscar uma explicação única que sirva para todo mundo.
O que causa a solidão: por que não existe um fator só
Um estudo que investigou a solidão a partir da clínica identificou que ela aparece sob formas distintas, que se misturam na prática, ainda que a teoria as separe: a solidão existencial, ligada à condição humana de nunca sermos completamente compreendidos por outro; a solidão emocional, ligada à ausência de uma relação de intimidade específica; e o isolamento social propriamente dito, ligado à falta objetiva de contato (ANDRADE, 2006). Cada uma dessas formas tem uma origem diferente, o que já explica por que buscar uma causa única costuma frustrar.
Há também uma dimensão estrutural, menos falada. Uma revisão de literatura sobre solidão como determinante social da saúde aponta que baixa escolaridade, morar sozinho e desigualdade social intensificam a vulnerabilidade à solidão (QUEIROZ et al., 2026). Isso significa que, para além da história pessoal de cada um, existem condições sociais concretas que tornam a solidão mais ou menos provável.
O que causa a solidão: três dimensões que costumam se combinar
. Existencial: a sensação de que ninguém pode, de fato, compreender completamente a própria experiência.
. Emocional: a ausência de uma relação de intimidade específica, mesmo com outros vínculos presentes.
. Social: a falta objetiva de contato ou rede de apoio disponível.
Quantidade de vínculo não é a mesma coisa que qualidade de vínculo
Um dos achados mais citados nesse campo é o paradoxo da “multidão solitária”: é inteiramente possível estar cercado de pessoas e, ainda assim, sentir solidão, porque o que protege contra ela não é o número de contatos, mas a qualidade e a profundidade do vínculo disponível (ANDRADE, 2006).
Isso ajuda a explicar por que algumas pessoas com agenda social cheia relatam solidão, enquanto outras, com círculo pequeno, não. Quando os vínculos existentes não oferecem espaço real para a experiência de ser visto sem julgamento, a presença física de outras pessoas não é suficiente para dissolver a sensação de solidão.
Transições de vida como terreno fértil
Mudanças importantes, como mudar de cidade ou de país, trocar de emprego, encerrar um relacionamento longo ou atravessar alguma perda, costumam ser momentos em que a solidão aparece com mais força. Não porque a mudança em si cause solidão, mas porque ela interrompe, de uma vez, parte da rede de vínculos que a pessoa já tinha construído, exigindo reconstrução.
Essa reconstrução nem sempre acontece na mesma velocidade da mudança externa. O intervalo entre perder um conjunto de vínculos e reconstruir outro é, com frequência, onde a solidão se instala com mais intensidade.
Perguntas que ajudam a mapear a própria solidão e o que causa a solidão
. A sensação é de falta de contato, ou de falta de intimidade mesmo com contato presente?
. Ela apareceu depois de alguma mudança específica, ou é mais constante?
. Existe algum vínculo disponível que poderia ser aprofundado, mas que tem sido mantido superficial?
O que isso está tentando dizer sobre o que causa a solidão?
Quando a solidão aparece, ela raramente está apontando para um único problema a ser resolvido. Está, com mais frequência, pedindo que a pessoa olhe para mais de uma dimensão ao mesmo tempo: o que está faltando em termos de contato, o que está faltando em termos de profundidade, e o que mudou recentemente na própria vida que ainda não encontrou um novo lugar.
Entender que a solidão tem múltiplas origens tira o peso de buscar uma explicação simples demais, e abre espaço para pensar em mais de uma frente ao mesmo tempo.
Entender o que causa a solidão também é um começo
Se você tentou encontrar uma causa única para o que sente e não conseguiu, talvez seja porque, de fato, não existe uma só. Mapear as diferentes dimensões da sua solidão é um trabalho que costuma render mais clareza em conversa do que sozinho.
Alexandre Jeremias é psicólogo e psicanalista, e oferece uma conversa inicial gratuita de 20 minutos para quem quer começar a entender isso de perto.
Perguntas frequentes
Existe uma causa principal para a solidão?
Não costuma existir uma causa única. A solidão geralmente combina fatores existenciais, emocionais, sociais e estruturais, que variam de pessoa para pessoa.
É possível sentir solidão mesmo tendo muitos amigos?
Sim. A quantidade de contatos não é a mesma coisa que a qualidade do vínculo. É possível ter uma vida social ativa e, ainda assim, sentir falta de intimidade real em algum desses vínculos.
Mudanças de vida sempre causam solidão?
Nem sempre, mas transições importantes, como mudança de cidade, fim de relacionamento ou perdas, costumam interromper parte da rede de vínculos existente, o que torna a solidão mais provável nesse período.
Fatores sociais, como renda ou escolaridade, influenciam a solidão?
Sim. Estudos apontam que condições como baixa escolaridade, morar sozinho e desigualdade social aumentam a vulnerabilidade à solidão, além dos fatores pessoais e relacionais.
Referências
ANDRADE, … Solidão existencial, emocional e isolamento social: uma leitura a partir da abordagem gestáltica. Revista da Abordagem Gestáltica, 2006.
QUEIROZ, et al. Solidão e isolamento social como determinantes sociais da saúde: uma revisão integrativa da literatura. 2026. Disponível em: https://periodicosbrasil.emnuvens.com.br/revista/article/view/1113.



