Saúde Mental

Vício em bets: sinais de que as apostas saíram do controle

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Abrir o aplicativo mais uma vez antes de dormir. Apostar “só para recuperar” o que já foi perdido. Prometer parar depois da próxima rodada, e não parar. Para algumas pessoas, esse ciclo com as bets deixou de ser lazer em algum ponto, sem um momento exato em que isso aconteceu.

O vício em bets não costuma chegar de uma vez. Ele se instala aos poucos, no meio de apostas que pareciam controladas. A dúvida que leva até este texto geralmente não é “eu aposto”, é “será que isso já passou do ponto que eu consigo controlar”.

Sinais de que as apostas saíram do controle: homem olhando o celular tarde da noite, cercado de contas e calculadora, com o prato de comida intocado

Vício em bets: o que diferencia apostar de ter perdido o controle

Apostar ocasionalmente, com valor definido e sem prejuízo relevante na vida, não é, por si só, sinal de transtorno. O que caracteriza o vício em bets é outra coisa: a aposta passa a comandar decisões, mesmo contra a própria vontade da pessoa.

O jogo pela internet está entre os fatores de risco mais fortes identificados pela pesquisa internacional para o desenvolvimento de jogo problemático, com chance de 7,5 vezes maior comparado a formas de jogo menos contínuas (ALLAMI et al., 2021). A velocidade das apostas online, a disponibilidade constante e os estímulos visuais e sonoros aumentam esse risco.

Sinais de que o controle foi perdido

 . Apostar mais dinheiro ou por mais tempo do que o planejado, repetidamente.

 . Tentar parar e não conseguir, mesmo quando quer.

 . Apostar mais depois de uma perda, para tentar recuperar o prejuízo.

 . Mentir para familiares ou parceiros sobre quanto tempo ou dinheiro é gasto.

 . Pensar nas apostas na maior parte do dia, mesmo fora do momento de jogar.

 . Continuar apostando apesar de dívidas, conflitos ou prejuízo evidente.

Esses sinais seguem, de forma adaptada, os critérios usados pela Organização Mundial da Saúde (CID-11) e pela Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5) para transtornos relacionados a jogo (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2025).

 

O que os dados oficiais revelam sobre a escala do problema

Dados obtidos pelo Intercept Brasil junto ao INSS mostram que os auxílios-doença concedidos por ludopatia (jogo patológico) aumentaram mais de 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025, acompanhando a expansão das bets no país. Antes disso, entre 2015 e 2022, a média anual de benefícios desse tipo não passava de 11 em todo o Brasil.

Os atendimentos ambulatoriais pelo SUS seguem a mesma direção: subiram de 65 em 2019 para 1.292 em 2024, quase vinte vezes mais.

Sinais de vício em bets: Gráfico mostrando crescimento dos atendimentos do SUS por jogo patológico de 65 em 2019 para 1292 em 2024".

Esses números ainda são considerados a ponta do iceberg. Rafael Ávila, psicólogo da Associação de Proteção e Apoio ao Jogador, explica que a maior parte das pessoas com propensão à ludopatia nunca busca o auxílio-doença, e muitas das que buscam têm o pedido recusado. Segundo ele, a vergonha de admitir o problema costuma atrasar o diagnóstico: “as pessoas têm vergonha de falar que são viciadas em jogos. Quando elas procuram um tratamento, muitas vezes é para o sintoma do jogo patológico, como a ansiedade ou a depressão.”

73% dos beneficiários de auxílio-doença por ludopatia são homens, e cerca de 8 em cada 10 têm entre 18 e 39 anos, a faixa mais produtiva da vida profissional. Profissionais autônomos, com renda variável e fracionada ao longo do dia, aparecem como especialmente vulneráveis.

Sinais de vício em bets: Gráfico mostrando faixa etária dos beneficiários de auxílio-doença por ludopatia, concentrada entre 18 e 39 anos".

Por que é tão fácil perder o controle

O jogo patológico costuma seguir um padrão descrito já nos anos 1980: uma fase de vitória, que cria a crença de ter encontrado um método; uma fase de perda, em que o prejuízo começa a se acumular; e uma fase de desespero, em que apostar vira tentativa de resolver o próprio prejuízo que o jogo causou (OLIVEIRA et al., 2022).

Um caso relatado numa reportagem do Intercept Brasil ilustra bem essa primeira fase. Um ex-gerente de banco, identificado como Roberto, começou apostando pequenos valores, sem impacto na vida financeira. Um dia, transformou R$ 80 em R$ 25 mil. Em vez de parar ali, continuou. “Você nunca vai estar contente com o que tem”, relatou depois. Chegou a ter R$ 120 mil, que logo virou nada.

As plataformas de apostas também são desenhadas para dificultar a saída desse ciclo, algo que merece um espaço próprio de explicação, já que não depende só de força de vontade. No Brasil, o tema já é tratado como questão de saúde pública, com dados de endividamento crescente associados às bets (BUNGART et al., 2024).

Sinais de que as apostas saíram do controle: homem na cama no escuro, iluminado pelo celular, com sombras repetidas na parede

O que isso está tentando dizer?

Quando alguém não consegue parar de apostar mesmo quando quer, isso raramente é sobre o dinheiro em si.

Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a aposta costuma ocupar um lugar emocional específico: alívio de ansiedade, fuga de tédio, sensação de controle num momento em que outras áreas da vida parecem fora de controle. Reconhecer isso não substitui buscar ajuda, mas já muda a pergunta de “por que eu não paro” para “o que isso está fazendo por mim”.

Um sinal, não uma sentença

Reconhecer os sinais de vício em bets não é um diagnóstico fechado, é um convite para olhar com mais cuidado para o próprio padrão. Alguns caminhos possíveis a partir daqui: entender por que as bets viciam, pensar em como parar de apostar, ou, se o prejuízo já apareceu, entender por que tentar recuperar o que foi perdido costuma aumentar o problema.

Quando buscar ajuda com urgência

 . Dívidas que comprometem moradia, alimentação ou contas básicas são sinal de gravidade, não apenas de descontrole pontual

 . Pensamentos de suicídio ligados a dívidas de jogo exigem ajuda imediata

 . No Brasil, o CVV atende pelo 188

 . O SAMU atende emergências médicas pelo 192

Quando apostar deixa de ser escolha

Reconhecer um padrão é diferente de saber como lidar com ele sozinho. Se os sinais deste texto fizeram sentido para você, vale a pena conversar sobre isso.

Perguntas frequentes

Apostar de vez em quando já é vício em bets?

Não necessariamente. Apostar ocasionalmente, com valor definido e sem prejuízo relevante, não caracteriza vício por si só. O que importa é se há perda de controle recorrente.

Sim, está incluído em classificações internacionais como a CID-11 e o DSM-5, relacionado a transtornos de jogo e controle de impulsos.

Sim. O padrão costuma se instalar aos poucos, e muitas pessoas só reconhecem a gravidade quando o prejuízo financeiro ou emocional já é grande.

Não. A perda de controle sobre o comportamento é o critério central, não apenas o valor perdido.

Sim. Dados do INSS e do SUS indicam crescimento expressivo: auxílios-doença por ludopatia aumentaram mais de 2.300% entre 2023 e 2025, e atendimentos pelo SUS por jogo patológico quase vinte vezes entre 2019 e 2024.

Referências

ALLAMI, Youssef et al. A meta-analysis of problem gambling risk factors in the general adult population. Addiction, v. 116, n. 11, p. 2968-2977, 2021. DOI: 10.1111/add.15449.

BUNGART, Márcia M. Sant’Anna et al. Jogo responsável e a liberação das bets: atuação do psicólogo em caso de intervenção. Health & Society, v. 4, n. 5, p. 140-156, 2024.

CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. A Psicologia frente ao mundo digital: orientações para a atuação profissional com crianças e adolescentes. Brasília: CFP, 2025.

OLIVEIRA, Maria Paula Magalhaes Tavares de et al. Transtorno de Jogo: contribuição da abordagem psicodinâmica no tratamento. Psicologia USP, v. 33, e210007, 2022. DOI: 10.1590/0103-6564e210007.

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