Abrir o aplicativo mais uma vez antes de dormir. Apostar “só para recuperar” o que já foi perdido. Prometer parar depois da próxima rodada, e não parar. Para algumas pessoas, esse ciclo com as bets deixou de ser lazer em algum ponto, sem um momento exato em que isso aconteceu.
O vício em bets não costuma chegar de uma vez. Ele se instala aos poucos, no meio de apostas que pareciam controladas. A dúvida que leva até este texto geralmente não é “eu aposto”, é “será que isso já passou do ponto que eu consigo controlar”.
Vício em bets: o que diferencia apostar de ter perdido o controle
Apostar ocasionalmente, com valor definido e sem prejuízo relevante na vida, não é, por si só, sinal de transtorno. O que caracteriza o vício em bets é outra coisa: a aposta passa a comandar decisões, mesmo contra a própria vontade da pessoa.
O jogo pela internet está entre os fatores de risco mais fortes identificados pela pesquisa internacional para o desenvolvimento de jogo problemático, com chance de 7,5 vezes maior comparado a formas de jogo menos contínuas (ALLAMI et al., 2021). A velocidade das apostas online, a disponibilidade constante e os estímulos visuais e sonoros aumentam esse risco.
Sinais de que o controle foi perdido
. Apostar mais dinheiro ou por mais tempo do que o planejado, repetidamente.
. Tentar parar e não conseguir, mesmo quando quer.
. Apostar mais depois de uma perda, para tentar recuperar o prejuízo.
. Mentir para familiares ou parceiros sobre quanto tempo ou dinheiro é gasto.
. Pensar nas apostas na maior parte do dia, mesmo fora do momento de jogar.
. Continuar apostando apesar de dívidas, conflitos ou prejuízo evidente.
Esses sinais seguem, de forma adaptada, os critérios usados pela Organização Mundial da Saúde (CID-11) e pela Associação Americana de Psiquiatria (DSM-5) para transtornos relacionados a jogo (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2025).
O que os dados oficiais revelam sobre a escala do problema
Dados obtidos pelo Intercept Brasil junto ao INSS mostram que os auxílios-doença concedidos por ludopatia (jogo patológico) aumentaram mais de 2.300% entre junho de 2023 e abril de 2025, acompanhando a expansão das bets no país. Antes disso, entre 2015 e 2022, a média anual de benefícios desse tipo não passava de 11 em todo o Brasil.
Os atendimentos ambulatoriais pelo SUS seguem a mesma direção: subiram de 65 em 2019 para 1.292 em 2024, quase vinte vezes mais.
Esses números ainda são considerados a ponta do iceberg. Rafael Ávila, psicólogo da Associação de Proteção e Apoio ao Jogador, explica que a maior parte das pessoas com propensão à ludopatia nunca busca o auxílio-doença, e muitas das que buscam têm o pedido recusado. Segundo ele, a vergonha de admitir o problema costuma atrasar o diagnóstico: “as pessoas têm vergonha de falar que são viciadas em jogos. Quando elas procuram um tratamento, muitas vezes é para o sintoma do jogo patológico, como a ansiedade ou a depressão.”
73% dos beneficiários de auxílio-doença por ludopatia são homens, e cerca de 8 em cada 10 têm entre 18 e 39 anos, a faixa mais produtiva da vida profissional. Profissionais autônomos, com renda variável e fracionada ao longo do dia, aparecem como especialmente vulneráveis.
Por que é tão fácil perder o controle
O jogo patológico costuma seguir um padrão descrito já nos anos 1980: uma fase de vitória, que cria a crença de ter encontrado um método; uma fase de perda, em que o prejuízo começa a se acumular; e uma fase de desespero, em que apostar vira tentativa de resolver o próprio prejuízo que o jogo causou (OLIVEIRA et al., 2022).
Um caso relatado numa reportagem do Intercept Brasil ilustra bem essa primeira fase. Um ex-gerente de banco, identificado como Roberto, começou apostando pequenos valores, sem impacto na vida financeira. Um dia, transformou R$ 80 em R$ 25 mil. Em vez de parar ali, continuou. “Você nunca vai estar contente com o que tem”, relatou depois. Chegou a ter R$ 120 mil, que logo virou nada.
As plataformas de apostas também são desenhadas para dificultar a saída desse ciclo, algo que merece um espaço próprio de explicação, já que não depende só de força de vontade. No Brasil, o tema já é tratado como questão de saúde pública, com dados de endividamento crescente associados às bets (BUNGART et al., 2024).
O que isso está tentando dizer?
Quando alguém não consegue parar de apostar mesmo quando quer, isso raramente é sobre o dinheiro em si.
Segundo Alexandre Jeremias, na prática clínica observa-se que a aposta costuma ocupar um lugar emocional específico: alívio de ansiedade, fuga de tédio, sensação de controle num momento em que outras áreas da vida parecem fora de controle. Reconhecer isso não substitui buscar ajuda, mas já muda a pergunta de “por que eu não paro” para “o que isso está fazendo por mim”.
Um sinal, não uma sentença
Reconhecer os sinais de vício em bets não é um diagnóstico fechado, é um convite para olhar com mais cuidado para o próprio padrão. Alguns caminhos possíveis a partir daqui: entender por que as bets viciam, pensar em como parar de apostar, ou, se o prejuízo já apareceu, entender por que tentar recuperar o que foi perdido costuma aumentar o problema.
Quando buscar ajuda com urgência
. Dívidas que comprometem moradia, alimentação ou contas básicas são sinal de gravidade, não apenas de descontrole pontual
. Pensamentos de suicídio ligados a dívidas de jogo exigem ajuda imediata
. No Brasil, o CVV atende pelo 188
. O SAMU atende emergências médicas pelo 192
Quando apostar deixa de ser escolha
Reconhecer um padrão é diferente de saber como lidar com ele sozinho. Se os sinais deste texto fizeram sentido para você, vale a pena conversar sobre isso.
Perguntas frequentes
Apostar de vez em quando já é vício em bets?
Não necessariamente. Apostar ocasionalmente, com valor definido e sem prejuízo relevante, não caracteriza vício por si só. O que importa é se há perda de controle recorrente.
Vício em bets é reconhecido como transtorno?
Sim, está incluído em classificações internacionais como a CID-11 e o DSM-5, relacionado a transtornos de jogo e controle de impulsos.
É possível ter vício em bets sem perceber?
Sim. O padrão costuma se instalar aos poucos, e muitas pessoas só reconhecem a gravidade quando o prejuízo financeiro ou emocional já é grande.
Só quem perde muito dinheiro tem vício em bets?
Não. A perda de controle sobre o comportamento é o critério central, não apenas o valor perdido.
O vício em apostas está crescendo no Brasil?
Sim. Dados do INSS e do SUS indicam crescimento expressivo: auxílios-doença por ludopatia aumentaram mais de 2.300% entre 2023 e 2025, e atendimentos pelo SUS por jogo patológico quase vinte vezes entre 2019 e 2024.
Referências
ALLAMI, Youssef et al. A meta-analysis of problem gambling risk factors in the general adult population. Addiction, v. 116, n. 11, p. 2968-2977, 2021. DOI: 10.1111/add.15449.
BUNGART, Márcia M. Sant’Anna et al. Jogo responsável e a liberação das bets: atuação do psicólogo em caso de intervenção. Health & Society, v. 4, n. 5, p. 140-156, 2024.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. A Psicologia frente ao mundo digital: orientações para a atuação profissional com crianças e adolescentes. Brasília: CFP, 2025.
OLIVEIRA, Maria Paula Magalhaes Tavares de et al. Transtorno de Jogo: contribuição da abordagem psicodinâmica no tratamento. Psicologia USP, v. 33, e210007, 2022. DOI: 10.1590/0103-6564e210007.



