Saúde Mental

Saúde Mental Masculina: por que tantos homens sofrem em silêncio?

Por Alexandre Jeremias · Psicólogo · Psicanalista · Sexólogo

Imagine um homem que nunca falta ao trabalho, que resolve o problema de todo mundo, que raramente é visto triste, e que, se perguntado como está, sempre responde “tudo bem”. Agora imagine que esse mesmo homem, por dentro, carrega um cansaço que ele não sabe nomear, e que às vezes se pergunta por que sente tão pouco prazer em coisas que deveriam trazer alegria.

A saúde mental masculina raramente aparece do jeito que se espera que o sofrimento apareça. Nos Estados Unidos, homens respondem por quase três em cada quatro “mortes por desespero”, suicídio, overdose e complicações ligadas ao álcool (REEVES, 2022). Um levantamento americano de 2021 encontrou que 15% dos homens diziam não ter nenhum amigo próximo, contra apenas 3% em 1990 (REEVES, 2022). No Reino Unido, o suicídio é a maior causa de morte entre homens com menos de 45 anos.

Esses números vêm de países diferentes, e não podem ser lidos como retrato exato do Brasil. Mas o padrão psicológico que eles revelam, o de um sofrimento que se disfarça em vez de aparecer, se repete em homens de contextos muito distintos, incluindo brasileiros vivendo fora do país, longe da rede de apoio que conheciam.

Homem de olhos fechados com a mão sobre o peito, respirando, representando o processo de reconectar-se com as próprias emoções

Depressão coberta: quando o sofrimento masculino não parece sofrimento

Duas formas de sofrer

 . Depressão evidente: tristeza, choro, perda de interesse, o que a maioria reconhece como sofrimento.

 . Depressão coberta: raiva, trabalho compulsivo, vício, isolamento, tudo o que distrai da dor sem resolvê-la.

 . A frase que resume o problema: quem sofre de forma coberta raramente é visto como alguém que sofre, nem por quem está perto, nem por si mesmo.

O terapeuta familiar Terrence Real descreve esse padrão como depressão coberta (covert depression): uma dor que fica “escondida das pessoas ao redor, e em grande parte escondida da própria consciência do homem, mas que ainda assim dirige muitas de suas ações” (REAL, 1997). Ao contrário da depressão evidente, que a cultura já aprendeu a reconhecer, a depressão coberta se disfarça de raiva, de trabalho em excesso, de vício, de isolamento, ou até de um sucesso aparente que nunca é suficiente.

Real chama isso de “duplo estigma”: o homem que sofre carrega tanto o peso de ter um problema de saúde mental quanto o peso de expressar algo que a cultura ainda associa ao feminino. O resultado é uma frase que resume boa parte do problema: “a única cura real para a depressão coberta é a depressão evidente”, ou seja, é preciso parar de fugir da dor antes de conseguir tratá-la.

De onde vem o silêncio: a desconexão ensinada desde a infância

Real descreve a origem desse padrão como uma “perda do relacional”: três desconexões ensinadas ainda na infância, do vínculo com a mãe, de si mesmo e dos outros. Meninos costumam ser afastados da expressão emocional muito antes de entenderem por que isso é exigido deles, e aprendem que ser visto como vulnerável tem um custo social real.

Esse mecanismo aparece também no estudo que a autora bell hooks faz sobre masculinidade negra nos Estados Unidos: ela descreve como a raiva costuma funcionar como máscara da tristeza, e como a cultura não oferece aos homens rituais reconhecidos de luto (HOOKS, 2004). Vale a ressalva de que hooks escreve especificamente sobre a experiência de homens negros americanos, atravessada por racismo, mas o mecanismo psíquico que ela descreve, raiva como disfarce de dor não elaborada, é reconhecido de forma mais ampla na psicologia da masculinidade.

Do ponto de vista psicanalítico, esse silêncio pode ser lido como uma formação reativa: o afeto que ameaça (tristeza, medo, necessidade do outro) é convertido em seu oposto aparente (dureza, autossuficiência, raiva), como forma de manter algo intolerável fora da consciência.

Por que "ser forte" tem um preço

Historicamente, parte da identidade masculina se organizou em torno do papel de provedor. Richard Reeves argumenta que esse papel perdeu função social à medida que a independência econômica das mulheres avançou, sem que a cultura oferecesse um roteiro novo no lugar dele, um fenômeno que ele chama de “redundância cultural” (REEVES, 2022). Segundo Alexandre Jeremias (leia mais sobre o autor), na prática clínica observa-se que muitos homens só percebem o peso de sustentar essa força constante quando o corpo ou a vida afetiva começam a cobrar a conta, geralmente bem depois de amigos e familiares já terem notado o esgotamento.

Essa exigência de força contínua também aparece na forma como muitos homens lidam com o próprio sucesso: nunca é o suficiente para aliviar uma insegurança de base, porque o problema nunca foi a falta de conquistas, e sim a dificuldade de sentir que se tem valor independente delas.

Homem sentado no sofá com a cabeça apoiada nas mãos, com um ícone de bateria quase vazia acima dele, representando a saúde mental masculina esgotada

Por que pedir ajuda custa tanto

Um estudo citado por Real acompanhou homens que revelaram sintomas de depressão a colegas de quarto na faculdade: eles receberam isolamento social e hostilidade, enquanto mulheres que revelavam o mesmo recebiam cuidado (REAL, 1997). Isso ajuda a explicar por que buscar ajuda pode parecer, para muitos homens, um risco social real, e não apenas um desconforto pessoal.

Richard Reeves aponta ainda um descompasso estrutural: nos Estados Unidos, homens são minoria entre psicólogos e assistentes sociais, cerca de 22% e 18% respectivamente, enquanto a maioria dos dependentes químicos, historicamente um grupo majoritariamente masculino, é atendida por profissionais mulheres (REEVES, 2022). Não existem dados robustos sobre o quanto isso afasta homens da terapia, mas é uma peça a mais num quadro em que pedir ajuda já exige romper com um script antigo.

O que isso está tentando dizer?

Quando um homem se fecha, trabalha em excesso, ou reage com raiva onde se esperaria tristeza, raramente é falta de sentimento. Na maioria das vezes, é sinal de que ele nunca teve espaço seguro para sentir de outro jeito. A pergunta que vale a pena fazer não é “por que ele não fala sobre isso”, mas “o que ele aprendeu, muito cedo, sobre o preço de mostrar o que sente”.

Existe um caminho possível?

Terrence Real descreve o processo de tratamento em três etapas: primeiro, interromper as formas de fuga (trabalho compulsivo, vício, isolamento); depois, praticar, aos poucos, uma maturidade relacional que não foi ensinada na infância; e por fim, processar o que ficou represado por trás dessas defesas. Não é um processo linear nem rápido, e costuma envolver acompanhamento profissional.

Richard Reeves propõe pensar numa masculinidade pró-social, que não exige apagar diferenças nem negar a identidade masculina, mas que oferece um lugar novo para ela, quando o antigo já não serve mais. Reconhecer que existe um caminho, mesmo sem pressa de percorrê-lo sozinho, já é um primeiro passo fora do silêncio.

Force o silêncio a esperar um pouco, e converse

Se você se reconheceu neste texto, ou reconheceu alguém que ama, talvez seja a hora de conversar sobre isso, sem precisar ter todas as respostas prontas.

Perguntas frequentes

Por que a depressão em homens é tão difícil de identificar?

Porque ela costuma aparecer disfarçada, em raiva, vício, trabalho excessivo ou isolamento, e não nos sinais que a cultura já aprendeu a reconhecer como sofrimento, como tristeza visível ou choro.

Não. Mulheres recebem diagnóstico de depressão com mais frequência, mas homens têm taxas de suicídio muito mais altas em vários países, o que sugere que o sofrimento masculino aparece de outras formas, nem sempre reconhecidas como transtorno de humor.

Além do estigma cultural de associar vulnerabilidade à fraqueza, existem también barreiras práticas, como a escassez de profissionais homens em algumas áreas da saúde mental e o medo real de reações negativas ao expressar sofrimento.

Não existe uma fórmula única, mas processos terapêuticos que ajudam a interromper as fugas (trabalho excessivo, vício, isolamento) e a desenvolver, aos poucos, uma capacidade de sentir e pedir ajuda que muitas vezes não foi ensinada na infância tendem a trazer alívio real.

Referências

HOOKS, bell. We Real Cool: Black Men and Masculinity (ed. brasileira: A gente é da hora: homens negros e masculinidade). Nova York: Routledge, 2004.

REAL, Terrence. I Don’t Want to Talk About It: Overcoming the Secret Legacy of Male Depression. Nova York: Scribner, 1997.

REEVES, Richard V. Of Boys and Men: Why the Modern Male Is Struggling, Why It Matters, and What to Do About It. Washington: Brookings Institution Press, 2022.

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